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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cem anos depois, Brasil dos modernistas olha no espelho e vê um Jeca armado

Protestos em defesa de Jair Bolsonaro expõem a nova velha cara do Brasil: atrasada e violenta -
Protestos em defesa de Jair Bolsonaro expõem a nova velha cara do Brasil: atrasada e violenta
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

22/12/2021 04h00

Parece irônico, mais trágico do que cômico, que o país imaginado pelos modernistas na Semana de 22 se mire ao espelho, cem anos depois, e encontre um Jeca Tatu com arma no coldre e orgulhoso da própria ignorância.

O personagem de Monteiro Lobato era a sua afirmação nacionalista em contraponto aos "imitadores compulsivos de coisas estrangeiras" que se reuniriam no Theatro Municipal de São Paulo entre 13 e 18 de fevereiro de 1922.

Às vésperas do centenário do evento-marco, o que agora define o Brasil acima de todos é a figura com os dois pés no atraso. Essa figura já dava as caras na reação violenta de Lobato à exposição de Anita Malfatti em 1917 e também nas vaias a Mário de Andrade na escadaria do Theatro Municipal.

Aquelas vaias ainda ecoam na repressão à diversidade em museus, filmes, músicas e outras manifestações artísticas sob o crivo, e as balas, da chamada guerra cultural. Nas fileiras do atraso desfilam hoje um cover de ministro nazista, um secretário da Cultura brigão (e armado) e uma ministra que vê perversão até em filme da Disney.

Há outras disputas em curso em um país que se transforma e esborracha em uma série de impasses a respeito de sua vocação —inclusive econômica.

Na década de 1920, escreveu o economista Wilson Cano em um ensaio, a consolidação da economia paulista como principal locus da acumulação nacional, criou um ímpeto de crescimento e diversificação. Empresas como Rhodia, Ford, GM, GE, RCA, Philips, Firestone, Unilever, Nestlé e Kodak se mudavam para cá.

O país se industrializava, e isso puxava para o alto a demanda por trabalhos qualificados e a oferta de serviços. Até os bancos nacionais, minoritários no início do século, forçavam a crescente institucionalização e regularização das relações com o Estado. O comércio também se desenvolvia e o sistema urbano passava a exigir melhores serviços de saúde, educação, saneamento, alimentação, habitação e transportes.

Em 1919, São Paulo possuía 579 mil habitantes. Ao fim da década, já eram 900 mil — a força trabalhadora industrial chegava a 1.600 operários, segundo Cano. As novas combinações sociais e culturais derivavam do convívio entre imigrantes estrangeiros e também de outras regiões do país, como Minas Gerais e os estados do Nordeste.

Esse caldo ocorreu no momento de expansão do mercado editorial brasileiro e a grande diversificação de eventos. É aí que entra o modernismo, que desbancava expressões antigas como o parnasianismo e o simbolismo, reivindicando uma dimensão cultural mais cosmopolita do que provinciana, mais internacional do que nacional.

Cabe aqui lançar o olhar crítico, hoje quase unânime nas análises sobre o evento-marco do modernismo, sobre um certo provincianismo à paulista ao reivindicar o Big Bang da nossa modernização, nem que para isso seus idealizadores precisassem se disfarçar de tupi tangendo alaúdes. Mas desconfio que em 2022 Mário, Oswald e companhia seriam ouvintes atentos do protagonismo de Ailton Krenak e Txai Suruí e suas falas sobre os novos barões das fronteiras agrícolas.

Curioso que, após a Semana de 22, nacionalistas e modernistas se dividiram e nunca mais se encontraram. Os primeiros se agruparam em torno do integralismo de Plínio Salgado, para quem "o modernismo era subserviente ao exterior". Estes fundaram em 1928 o grupo Anta. E, nesta nova década de 20, voltaram à moda com seu nacionalismo conservador e ranço anticomunista.

Já os simpatizantes de outra ideia de país, os que olhavam para o futuro (em design futurista ou não) sem medo, se reuniram em torno do Grupo Pau Brasil. A Antropofagia virou um termo fundamental para entender as inspirações a movimentos como o cinema novo e o tropicalismo.

O Brasil que se abria para o mundo naquela Semana, hoje, se volta para dentro. Lá fora é visto como pária, e toma reprimendas públicas por conta da devastação. A depender da turma que chegou ao poder cem anos depois daquele marco, indígenas não teriam direito à terra ancestral, a Amazônia se tornaria um grande estacionamento e filmes, séries, livros e exposições só circulariam após passar pelos filtros da exaltação do macho adulto e branco — sempre no comando. São os herdeiros e defensores dos Borbas-Gatos ultra-nacionais de que falava Mário de Andrade em sua "Paulicéia Desvairada", livro lançado naquele mesmo ano.

O pano de fundo do novo contexto é não só a perda gradativa da importância da indústria na produção de riquezas do Brasil (de 25,6% do PIB em 1996 para 20,4% em 2021), mas também a renúncia do desejo de encontrar um lugar em um mundo sedento por pesquisa e desenvolvimento, tecnologia, qualificação e uso racional do espaço e dos processos produtivos.

Nesse vacilo vocacional, com cortes desavergonhados em bolsas de pesquisa e ataques diretos a artistas e acadêmicos, ganham terreno os discursos anti-ciência, anti-vacina, o misticismo e o proselitismo religioso barato. Tudo isso faz vir à tona diagnósticos como o do cineasta João Moreira Salles, que em uma entrevista recente disse observar hoje um país fadado a ser apenas fornecedor de carne e soja para adulto inteligente que faz vacina, iPhone, carro elétrico, supercondutor e inteligência artificial longe daqui.

Aqui e ali, um princípio de reação já pode ser observado. "A cultura enfrenta uma encruzilhada", resumiu Hugo Possolo, então diretor da Fundação Theatro Municipal, no texto de um vídeo manifesto chamado 22 + 100. No vídeo, filmado no marco zero do modernismo, agora com atores negros, o ator e diretor vê o 22 abraçar agora o Brasil inteiro. Nesse país ainda a ser construído, a periferia está no centro e a volta da alegria "é a nova prova dos nove". "O 22 de agora quer menos preconceito, menos elogios à ignorância e muito mais diversidade", diz o texto, que abre uma série de eventos, como um banquete antropofágico, a celebrar a data em São Paulo. Este novo 22 quer ser finalmente mais modernista do que bandeirante.

Talvez o balanço da queda de braço seja outro daqui a cem anos.