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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro x Iphan: o curioso caso do patriota que odeia patrimônio nacional

Bolsonaro em discurso na Fiesp, em São Paulo - Isac Nóbrega/PR
Bolsonaro em discurso na Fiesp, em São Paulo Imagem: Isac Nóbrega/PR
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

18/12/2021 04h00

- Dane-se, eu só quero beber cerveja.

Foi o que disse o primo Jorge antes de segurar o arroto e dormir largado no sofá, com rosto e pescoço avermelhados, a baba no canto da boca. A capacidade de segurar a latinha enquanto ronca ainda impressiona.

Quem o via tinha razão para desconfiar das teses sobre Evolução. Qualquer uma. Era como se os ventos da revolução cognitiva tivessem atravessado 70 mil anos, batido naquela sala, encontrado uma barreira de contenção de engradados e concluíssem: "deixa quieto, vai".

O primo queria era saber por que diabos um fóssil entre 12 mil e 13 mil anos como o de Luzia, a habitante mais antiga daquelas terras, era capaz de trancar a construção de uma nova cervejaria no interior de Minas Gerais. Ao menos ali Luzia venceu, para desespero de primo Jorge, que só queria beber cerveja. Os mortos não levantavam mais, dizia. Todos, afinal, vamos morrer. Para que pensar no que acontece entre um ponto e outro da existência se podemos abrir outra latinha?

Da cozinha, alguém buscou no Google um esboço de resposta. Estava na apresentação do livro "Sapiens", de Yuval Noah Harari, e vinha com uma série de perguntas: "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies? O que nos torna capazes das mais belas obras de arte, dos avanços científicos mais impensáveis e das mais horripilantes guerras?"

E continuava. Não fossem os sítios arqueológicos preservados, os vestígios das atividades humanas seriam sepultados e não dariam pistas do que somos, de onde viemos, para onde vamos — temas de livros como o de Harari. São esses vestígios que nos permitem obter uma larga quantidade de informações acerca de práticas, valores e estruturas das sociedades antigas. Um patrimônio preservado é a garantia de que informações históricas não sejam soterradas. Para isso existem organismos como o Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Para a gente se entender e saber para onde vai.

Foi então que o primo Jorge balançou a cabeça e reiterou que nada daquilo interessava. Ele só queria beber cerveja. Isso antes de encostar no braço do sofá e apagar. Entre Jorge e Luzia a única evolução técnica humana aparente era a que transformava a cevada em malte. Se dependesse dele, a gente ainda estaria na caverna tentando acender a fogueira com a baba.

Em um dos raros momentos em que esteve acordado e sóbrio em 2021, primo Jorge baixou a guarda bovina e bateu palmas eufóricas ao saber que Jair Bolsonaro havia "ripado" com todo mundo do Iphan após receber uma reclamação do empresário Luciano Hang, a respeito de um contratempo nos negócios: ele precisou interromper a construção de uma loja em Rio Grande (RS) após a descoberta de um sítio arqueológico.

Na fala, Bolsonaro praticamente descreveu quem manda e quem obedece no governo. Citava o dono da Havan como patrão, a quem deveria servir bem para servir sempre.

"Liguei para o ministro da pasta: 'Que trem é esse?', porque não sou tão inteligente como meus ministros. 'O que é Iphan, com ph? Explicaram para mim, tomei conhecimento, ripei todo mundo do Iphan. Botei outro cara lá. O Iphan não dá mais dor de cabeça pra gente", disse o presidente, para aplausos de uma plateia de empresários na Fiesp, aparentemente mais ocupada em nascer, morrer e ganhar dinheiro no intervalo do que entender de onde viemos e para onde vamos — essas perguntas pintadas em desespero desde o tempo das paredes rupestres.

Primo Jorge tem em Bolsonaro um mito fundador da própria espécie. Antes dele nada havia, nem o verbo. Trata-se de uma espécie destituída de memória e planos de futuro. Que acorda, come, briga, aprimora artefatos de guerra, troca sopapo com a presa, e dorme. Alguns à base de cerveja. Outros, de Lexotan.

Os primatas contemporâneos juram amor à pátria mas desprezam com toda força a riqueza material e imaterial construída e deixada como vestígio pelos ancestrais. Desprezam também as manifestações artísticas e culturais que definem a identidade de seu tempo. Mais fácil tirar tudo isso do caminho do que mudar os planos do empreendimento em alguns metros.

Acima de todos, esse ideal de país, predatório e embrutecido, só vai até onde a compreensão de si e da própria história alcança. Ela não é maior do que um braço de sofá.