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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cartaz de mulher para infiel prova que Marília Mendonça traduziu o Brasil

Marília Mendonça é homenageada durante o "Grammy Awards 2022" - Foto/Reprodução
Marília Mendonça é homenageada durante o 'Grammy Awards 2022' Imagem: Foto/Reprodução
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

18/05/2022 04h01

Você pode tentar, mas dificilmente vai conseguir ler a notícia sobre a mulher que descobriu a traição do marido e colou uma reprimenda em forma de cartaz no carro dele sem ouvir mentalmente os primeiros acordes da música "Infiel", de Marília Mendonça.

Registrada em Belém (PA), a cena da vida real mostra que a cantora e compositora, morta em um acidente aéreo em novembro do ano passado, é quem ainda melhor traduz as relações amorosas no Brasil atual.

Na música-hino, que tem mais de meio bilhão de visualizações no YouTube, a alter ego da artista não chora nem se desespera; em vez disso, procura o companheiro e a amante para anunciar que a farsa, descoberta há um ano, iria acabar.

O prêmio, que ela anuncia não valer nada, é o companheiro entregue na bandeja do livramento, com as malas deixadas fora da casa — que ele, aliás, deixou aos prantos.

"Tá na sua mão, você agora vai cuidar de um traidor. Me faça esse favor", pede a mulher, que na música quer ver o infiel, expulso de seu coração, morar em um motel. Cabe à amante fazer agora o papel que foi um dia da ex. "E aí vai ser a ela a quem vai enganar."

A sequência cinematográfica da cena é poesia pura, um marco na temática sertaneja consagrada na voz geralmente chorosa de homens relegados à página de amigos que desabam ao ver um simples fio de cabelo no paletó e precisam repetir aos ventos que aquele amor cobiçado por outro homem é todinho dele e não se divide por três.

Na versão vida real do hit de Marília Mendonça, a traição é descoberta pela mulher que trabalhava de dia em seu restaurante e fazia bico como motorista de aplicativo durante a noite. Numa dessas corridas, no sábado, ela notou o carro do marido estacionado em um endereço estranho. Ele afirmava que iria encontrar os amigos.

O carro parado no mesmo lugar a noite toda era a marca de batom que faltava para terminar o relacionamento — um pedido recorrente da mulher que o companheiro negava a atender.

O cartaz afixado no vidro do automóvel de Alessandro (era esse o nome do destinatário) lembrava que eles estavam juntos havia 13 anos, trabalhavam lado a lado no restaurante dela e que quando voltava para casa ele sempre queria sexo. "Ela não te satisfaz?", perguntou a signatária.

Era um jeito, digamos, poético de dizer que ele estava agora demitido (leia-se falido) e condenado a ficar com alguém que não o queria tanto assim.

O cartaz ainda arrematava: "Na segunda-feira, volte em casa pra pegar suas coisas porque eu não te quero mais. Crie vergonha na sua cara e venha morar com a moça. Respeite ela".

Como em outra música, todo mundo, todo mundo, todo mundo viu — e a mensagem viralizou nas redes.

Até onde se sabe, o tal Alessandro já passou pelo local e foi embora (chorando?) com os pertences. Agora, não tem hora para ir embora. Agora, ele pode ficar.

Estará, a essa altura, sem casa e sem rumo?

Entre tantas perguntas, uma coisa é certa: sorridente, Marília Mendonça deve estar uma hora dessas soltando o vozeirão e brindando em homenagem à amiga de Belém. Esteja onde estiver.