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OPINIÃO

Pré-candidato, 'coach messiânico' tem no Planalto um rival à altura

Pablo Marçal Imagem: Reprodução
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

22/05/2022 04h01

Pelos jornais, fiquei sabendo, semana passada, que a escalada presidencial de 2022 terá entre seus pré-candidatos um youtuber cujo maior feito da vida foi ter colocado em risco a integridade de 32 desventurados que subiram num dia de chuva o Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, e por pouco não morreram congelados.

A presepada aconteceu em janeiro e inaugurou, primeiro no campo simbólico, depois no literal, o calendário das eleições.

Conhecido como "coach messiânico", o responsável pelo atentado, Pablo Marçal, ganhou o noticiário após convencer um grupo de inicialmente 60 pessoas a pagar para experienciar o pior dia de suas vidas entre pedras escorregadias e ventos congelantes de 100 km/h. Pela lógica, "subir na vida" seria ficha depois dessa.

Como nessa vida há sempre um limite para tudo, menos para a estupidez, a escalada foi filmada desde o primeiro dia pelo vendedor do pacote. Os vídeos mostram que o líder e seus seguidores estavam convictos de que eram guiados pela mão de Deus e que o perrengue em forma de sacrifício salvaria também a humanidade.

Nenhum profissional com algum conhecimento de causa recomendaria a subida naquelas condições climáticas, mas aquele não era qualquer coach. Ele parecia ter o próprio Deus entre os contatos de WhatsApp e dizia saber, do fundo do coração, que dava para subir.

Não sem antes pedir ao Divino que desviasse os ventos e desse aos aventureiros a coragem dos valentes de Davi. Pediu ainda que todo espírito de orgulho deixasse aqueles corpos. O combo encomendado foi entregue pela metade, já que os ventos prosseguiram, parte do grupo desistiu e outra levou o brio até o cume para ser destroçado pela chuva. A intempérie rasgou uma a uma as barracas que precisaram ser deixadas para trás numa fuga improvisada em queda livre. Inclusive a barraca do coach, que fez questão de mostrar as avarias para as câmeras como troféu.

O vento só não esfrangalhou a altivez do capitão da equipe, que horas antes registrou o momento em que constrangeu os desistentes dizendo que eles fracassaram por terem tomado a decisão mais fácil e não acreditavam o suficiente na providência divina.

O último story da saga transformou o drama em filme de Ben Stiller. A versão coach messiânica de "Entrando numa fria" acabou com uma selfie de gratidão a cinco bombeiros e dois guias particulares acionados pelo rádio só por precaução, segundo o youtuber.

Os profissionais, que correram risco para salvar os incrédulos, mostraram uma paciência monástica para não estapear o líder classificado como "totalmente irresponsável" da missão.

O local, afinal, só deveria ser escalado entre abril e agosto, os meses de estiagem, com guia treinado e preparado e equipamentos de segurança adequados.

"Subir com um grupo de pessoas despreparadas e sem equipamento é colocá-las sob risco de morte. Essa foi a pior ação que a gente viu no Pico dos Marins", descreveu aos jornalistas, na época, o chefe da operação de resgate montada pelo Corpo de Bombeiros.

O pico rodeado daquela montanha, ocupado por pessoas perdidas e despreparadas, era a melhor expressão dos impasses do Brasil atual.

Se Deus escreve certo por linhas tortas, a presepada colocou a versão da Grávida de Taubaté dos retiros espirituais na vitrine e deu aos eleitores brasileiros a possibilidade de repetir nas urnas o trajeto em direção à morte estúpida.

Esse filme parece (e é) repetido. A arrogância dos que não sabem que não sabem e realmente acreditam ter procuração para falar em nome dos deuses colocou num abismo igualmente insano e escorregadio a integridade da espécie humana construída sobre séculos de bases científicas, conhecimento e razão.

Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que o coach messiânico, agora pré-candidato do PROS à Presidência, terá um concorrente e tanto no caminho das pedras. O pico dessa outra montanha está ocupado.

Outro Messias já convenceu seus seguidores de que era um ótimo negócio desafiar a inteligência humana em troca dos piores dias de nossas vidas.

A diferença é que nessa jornada o grupo de pessoas em risco é bem maior e a história não acaba bem. Só na escalada da pandemia, guiada pela fé na cloroquina, da imunidade de rebanho e na rejeição à vacina, as funerárias, e não os bombeiros, já recolheram 665 mil corpos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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