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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lobo em pele de pastor, Ribeiro fez culto das mais terrenas intenções

O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro - Alan Santos/PR
O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro Imagem: Alan Santos/PR
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

26/06/2022 04h01

Durante 14 meses, Abraham Weintraub insultou alunos, professores, jornalistas, o embaixador chinês, o presidente da França, o educador Paulo Freire e a nossa "imprecionante" língua portuguesa. Não teve alvo que escapou da metralhadora verbal do ex-ministro da Educação.

Weintraub tinha, porém, uma vantagem em relação a alguns colegas da Esplanada. Era mau ator. E, como mau ator, nunca disfarçou nem fez questão de disfarçar as desqualificações técnicas nem o que pretendia fazer com os dentes afiados quando teve a chance de brilhar.

Ele só não está no posto até agora porque deixou o chefe em maus lençóis ao chamar de "vagabundos" e defender a prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Em seu lugar, Jair Bolsonaro buscou no livro "A vida como ela é", de Nelson Rodrigues, um personagem tipicamente rodrigueano (Zenóbio?), para capitanear os esforços de destruição do que restava da educação brasileira.

Saía o lobo, entrava o pastor.

Um tinha garras e uivava. Outro era discreto, pudico, falava baixo e transpirava recalque.

Um ostentava suas armas. Outro as escondia e dava aulas de imperícia ao colocar até os passageiros do aeroporto de Brasília em risco com um tiro acidental.

Em seu período à frente do MEC, Milton Ribeiro alimentou polêmicas e a fantasia de senhores e senhoras de Santana sobre suas intimidades à meia-luz. Nelson Rodrigues talvez apostasse que ele era capaz de dormir e tomar banho sem tirar a meia escura.

Como todo ministro do atual governo, Ribeiro tinha um botão de emergência toda vez que alguma crise ou questionamento se avizinhava. Em caso de emergência, bastava perguntar aos interlocutores: "Mas e a ideologia de gênero?"

Era a senha para que os desconfiados logo baixassem as armas e focassem as atenções sobre o que realmente importa no debate educacional no país.

Rodrigueano nos costumes, o figurino de Milton Ribeiro tinha ao menos um par nos cinemas: o professor interpretado por Alex McAvoy no musical "The Wall", do Pink Floyd -- reparem nos óculos, no bigode, na testa lustrosa e na repulsa a qualquer sensibilidade desenvolvida em sala de aula. (No filme, o jovem Pink é constrangido diante dos outros alunos quando o professor descobre que ele preenche o tédio das aulas escrevendo poemas).

"Não vamos permitir que a educação brasileira vá por um caminho de tentar ensinar coisa errada para as crianças", dizia o então ministro, para quem a escola deveria ensinar "o que é bom, o correto, o civismo, o patriotismo".

Lá, como cá, tudo era apenas um tijolo no muro.

Na cabeça de Ribeiro, a escola é um lugar onde professores não só toleram como incentivam e ensinam com cartilha os caminhos para convencer pequenos que nasceram homens a se transformar em mulheres e vice-versa. Mas o cruzado nomeado por Bolsonaro jurava com a própria vida: "Não vou permitir que ninguém violente a inocência das crianças nas escolas públicas".

Promessas do tipo fizeram com que o pastor ganhasse o respeito de lideranças religiosas que viam sua chegada ao ministério como uma tomada definitiva do poder.

Duas dessas lideranças levaram tão a sério a missão que construíram à entrada do ministério um balcão de negócios onde, suspeita-se agora, trocavam agilidade na liberação de verbas por dinheiro, barras de ouro e até Bíblias.

Da alcova para fora, os dentes de Ribeiro se revelavam conforme ganhava prestígio e confiança.

Um canino ficou à mostra quando disse que "universidade deveria, na verdade, ser para poucos". Ou quando autorizou a produção de Bíblias com a sua imagem a serem distribuídas em um evento religioso.

Em uma ocasião, ele disse que era impossível conviver com alunos com algum grau de deficiência na sala de aula. Em outra, afirmou que a opção [sic] pelo "caminho do homossexualismo" [sic, sic] era resultado de conflitos vivenciados em "famílias desajustadas" [sic, sic, sic]. Sociologia pura.

Enquanto espalhava bobagens, servidores do ministério relatavam uma constante vigilância e pressão psicológica dos superiores até na escolha de perguntas que não desagradassem o presidente no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Ribeiro foi, acima de tudo, um lobo disfarçado e leal a Bolsonaro. A ponto de a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, deixar a Deus a tarefa de provar que o ex-ministro por quem o marido botava a cara (ou só a mão, vai) no fogo é "uma pessoa honesta" e que merece sua confiança e seu amor.

Bolsonaro e família tiveram tempo de conhecê-lo a fundo. Ribeiro era um dos quatro ministros que posaram com o capitão ao lado de uma placa escrita "CPF Cancelado" oferecida pelo apresentador Sikêra Júnior após uma entrevista. Aquela imagem resumia um governo interno. Sua alma estava ali. No sorriso do então ministro da Educação havia mais a ser revelado do que em todos os estudos dedicados a Monalisa.

Foi para atender a uma ordem do presidente que Ribeiro disse, em um áudio obtido pela Folha de S.Paulo, priorizar as demandas de prefeituras indicadas pelos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura.

Alvo da Polícia Federal, Ribeiro e os dois pastores dão agora razão para desconfiar de quem fala em nome de Deus para disfarçar as pretensões políticas.

Como quase sempre, a performance do sujeito envolto na castidade e na vigilância dos bons modos em defesa das nossas crianças e famílias serve só como escudo a quem mal disfarça alguma outra perversão.

Irmãos em essência, o pudico Ribeiro só aparenta ser o polo oposto do antecessor orgulhoso da própria ignorância e da fama de malvadão. Weintraub saiu correndo em direção aos EUA para não ser preso no Brasil.

Ribeiro chegou para substituí-lo e moralizar os costumes. No cargo, apontava com um dedo para inimigos imaginários enquanto a outra cumprimentava os pastores agora investigados.

No vácuo passava uma pequena boiada marcada com homeschooling, compra suspeita de kit robótica para escolas sem água e o esvaziamento do Enem. Um verdadeiro apagão.

Preso na quarta-feira (22), foi liberado pouco depois por um desembargador em campanha por uma cadeira no Superior Tribunal de Justiça — para desespero do delegado responsável pela Acesso Pago, nome providencial da operação. A suspeita é que o ex-chefe entrou em campo para dar o alerta e melar a ação.

O ex-ministro terá direito a responder em liberdade sobre as andanças e movimentações financeiras atípicas junto com os amigos do presidente, que não demorou para passar o pano na história enquanto tirava a cara do fogo.

As investigações prosseguem. Ribeiro é suspeito de corrupção passiva, advocacia administrativa e tráfico de influência.

Alguém se lembra dos ideólogos do Escola sem Partido, grupo empoderado por Bolsonaro e seus ministros rodrigueanos? O fim (ou começo?) dessa história mostra que está na hora de pensar uma Igreja sem Partido.

Em tempo: diferentemente do que diz o ditado, política e religião devem ser tema de debate sempre. Ação política é parte fundamental dos trabalhos de base de igrejas e lideranças de quaisquer denominações, visando as transformações sociais e a denúncia de injustiças.

O problema é quando se usa o púlpito para o culto de personalidades humanas com as mais terrenas das intenções — inclusive com o ódio a minorias. Isso não é politização. É compreensão indevida da laicidade do Estado para enriquecer partidos e lideranças políticas em nome de Deus.