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Como foi o último dia de trabalho de Ático, o maître mais antigo de SP

Ático Alves de Souza, maître do Parigi, em São Paulo Imagem: Tadeu Brunelli/Divulgação

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB, de São Paulo

23/01/2022 04h01

Ático Alves de Souza ficou parado no caixa do restaurante Parigi, enquanto a filha contava para uma funcionária da casa que tinha surgido uma vaga para ele numa casa de repouso, no bairro do Morumbi.

Tido pelos colegas como um grande contador de histórias, naquele momento o maître economizou nas palavras. Nem seu rosto, cujas linhas bem marcadas revelavam a carreira longeva, entregou o que ele estava sentindo no último dia de trabalho, depois de 70 anos na ativa. A ficha dele não tinha caído.

Naquela quarta-feira, no final de 2019, Ático tinha trabalhado normalmente. Serviu os clientes, alguns deles amigos de longa data que conhecia desde que eram crianças. "Se não repetir, é porque não gostou", brincava, como era de costume. Durante a conversa entre a filha e a funcionária, ele já não vestia o smoking de todos os dias para empurrar o carrinho de prata com o qual transportava o bollito misto — cozido italiano de carnes, legumes, molho e raiz-forte — de mesa em mesa.

Em vez do traje clássico, usava um suéter cinza igualmente alinhado. Foi com a costumeira elegância que seu Ático, como era conhecido pelos clientes, saiu do restaurante pela última vez. A decisão não partiu dele, mas dos filhos, preocupados com as falhas de memória do pai. Se dependesse do maître, continuaria mais tempo no salão servindo o bollito e distribuindo cumprimentos, simpatia, sorrisos e conversas aos clientes.

Amava tanto o ofício que adiou a aposentadoria várias vezes. Apesar de ter 92 anos, achava que era cedo para parar de trabalhar. Dava expediente às quartas e domingos. Chegava ao restaurante por volta das 11h30 e ia embora às 15h. Pegava um ônibus de Guarulhos, onde morava, até o Tucuruvi, na zona norte de São Paulo, e outro até a av. Brigadeiro Faria Lima. Só deixou de ir ao restaurante sozinho quando vieram os esquecimentos. Passou então a ir ao trabalho com um dos filhos.

Os funcionários foram pegos de surpresa com a notícia, embora soubessem que esse dia não demoraria a chegar, já que nos últimos tempos Ático andava se esquecendo das coisas.

"Ele era maravilhoso comigo. Quase um pai brasileiro, já que sou francês", lembra Eric Berland, 58, chef do Parigi, que trabalhou com ele por 21 anos. Ático gostava de contar histórias do passado, do dia a dia com a adorada esposa Dolores e com os filhos. Também era um ouvinte habilidoso e extremamente gentil. Por isso, os colegas se emocionaram tanto com a saída dele.

Eric Berland (à esq), e Ático Alves de Souza, em seu último dia de trabalho, no final de 2019 Imagem: Eric Berland/Arquivo Pessoal

Começo difícil

Nascido em Monte Santo, no interior da Bahia, Ático passou por maus bocados. Aos oito anos, já trabalhava na roça. Passava o dia inteiro com o cabo da enxada na mão e vira e mexe via cangaceiros sertão adentro. Quando cresceu, tentou ganhar a vida plantando feijão, mas o sol não colaborou e a colheita ficou muito aquém de suas expectativas. Descontente, decidiu abandonar a terra natal.
Foi de pau de arara até Minas Gerais, pegou carona num caminhão até o Rio de Janeiro e depois um ônibus para São Paulo.

Chegando à capital, em 1949, conseguiu um emprego de faxineiro numa casa noturna que também tinha restaurante, no centro da cidade. Também trabalhou no escritório da Confeitaria Fasano, mas logo passou para os salões de três restaurantes tradicionais de São Paulo. Primeiro abraçou a chance dada por Fabrizio Guzzoni, proprietário do Ca'd'Oro. Começou de baixo, como cumim, mas em pouco tempo ascendeu ao cargo de maître. Por lá ficou 37 anos.

Saiu para voltar ao grupo Fasano. Depois de nove anos no restaurante principal, permaneceu os últimos 21 no Parigi. Dono de uma carreira bem-sucedida, serviu vários presidentes brasileiros. Entre eles Getúlio Vargas, que descrevia como um homem sério, mas não aborrecido. Em suas palavras, João Figueiredo era o mais brincalhão de todos. "Só não atendi mesmo o Lula como presidente. Ele eu atendi como deputado federal", contou em uma entrevista no YouTube. Além de políticos, perdeu a conta de quantos artistas e personalidades conheceu no exercício da profissão.

Tinha orgulho de atender tanta gente importante, mesmo sendo semianalfabeto. "Minha vida é um romance", dizia, referindo-se à trajetória de menino pobre a um dos maîtres mais conhecidos de São Paulo. Nunca deixou de ser um homem simples, que tinha os clientes como professores. Com eles aprendeu a falar, a calar-se e a se aproximar de uma mesa na hora certa.

A educação, uma das marcas de Ático, ele aprendeu com a mãe, mulher humilde que teve 18 filhos e criou 12. Seu jeito agradava às pessoas de todas as idades. Tanto que muitas frequentavam o Parigi só por causa dele. Gabava-se de, em 67 anos nos salões dos restaurantes, nunca ter recebido uma queixa de um cliente. Fez por merecer a aprovação. Jamais se queixou de passar horas a fio em pé, correndo de um lado a outro para dar conta de atender com perfeição.

Ático Alves de Souza, em seu último dia de trabalho, ao lado de Sebastião Brito, carregador de pratos Imagem: Eric Berland/Arquivo Pessoal

Reconhecimento até o fim

Embora nunca tenha comandado uma cozinha, esse era um talento não explorado de Ático. Uma vez, quando ainda trabalhava no Ca'd'Oro, recebeu um pedido inusitado do amigo Geraldo de F. Forbes: fazer pastéis de arroz, carne e feijão. Mesmo tão afeito a regras, decidiu infringi-las. Preparou os salgados e, de quebra, fritou bananas de sobremesa. Sentindo o aroma de longe, os clientes também quiseram e, a partir daquele dia, a nova opção foi incluída no cardápio. Fez tanto sucesso que foi imitado por outros restaurantes.

Parte do mérito do bollito do Parigi, um chamariz de público, era de Ático. Os anos deram a ele experiência e uma precisão cada vez maior na hora de cortar e compor o prato. Exigente que era, sempre achava que podia se aperfeiçoar mais, apesar de seu trabalho beirar a perfeição. E o reconhecimento sempre vinha, de um jeito ou de outro. Décadas atrás, o serviço irretocável rendeu a ele a Comenda da Ordem do Trabalho, outorgada pelo ex-ministro do Trabalho Almir Pazzianotto.

Nos últimos anos, a mão de Ático foi perdendo a firmeza. Seu cansaço também era evidente. Mas ele amava tanto estar entre os clientes que evitava pensar que não tinha mais condições de prosseguir no salão. Coube a Odair Brito, o garçom que trabalhava com ele, assumir a tarefa de cortar o bollito.

O maître ainda ficou mais um tempo, até que seus filhos se viram forçados a tomar a decisão por ele. Após o derradeiro dia de trabalho do veterano, Odair ficou responsável pelo serviço, até hoje oferecido no Parigi.

Ático não estava deixando apenas a profissão para trás. Também começou uma vida nova na casa de repouso, ao lado de Dolores. Muito querido pelos antigos colegas de trabalho, recebeu a visita de alguns nos dois últimos anos. "Tenho vontade de voltar a trabalhar", certa vez confessou a Bruno Ribeiro Moreira, 37, ex-gerente do Parigi. Valdemir Melo, 54, maître do restaurante e enfermeiro, foi outro que continuou visitando o amigo e levando presentes, inclusive os que os clientes deixavam no restaurante para ele.

Em julho de 2021, Valdemir levou à casa de repouso a encenação de Lampião e Maria Bonita, interpretando o papel-título. Vendo a história familiar, o senhor de 95 anos chorou durante a peça inteira. Antes do Natal, quando recebeu uma nova visita do amigo, Ático repetiu: "Quero sair daqui para trabalhar". Em janeiro escorregou, quebrou o fêmur e foi submetido a uma cirurgia. Voltou para casa para se recuperar. Dias depois, já na casa de repouso, sofreu um mal súbito à noite e faleceu. Deixa mulher, dois filhos e netos.

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