Das aulas de tênis aos milhões: quem é o líder de contratos na gestão Nunes
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Ainda adolescente, Fernando Marsiarelli, 44, era considerado um bom jogador de tênis, mas quem o conheceu na época diz que o sonho dele sempre foi ser milionário.
A fantasia se tornou realidade incontestável nos últimos seis anos, quando o ex-tenista e ex-importador de carros viu uma de suas empresas crescer quase cem vezes.
Essa história de sucesso tem a ver com o aumento da quantidade de contratos assinados entre a Prefeitura de São Paulo e empreiteiras de pequeno e médio porte durante a administração Ricardo Nunes (MDB).
A construtora de Marsiarelli, a FFL Sinalização Comércio e Serviços, foi a que mais faturou com obras emergenciais da Siurb (Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras) nos últimos anos.
A receita bruta da empresa foi de R$ 3 milhões, em 2017, para R$ 292,7 milhões em 2023, conforme balanços enviados pela construtora à prefeitura.
Em relação a 2022, quando a receita foi de R$ 195,1 milhões, o crescimento da FFL foi de 50%.
O salto da empresa de Marsiarelli foi analisado, a pedido do UOL, pela consultoria Klooks, especializada em dados financeiros de empresas de capital fechado.
A consultoria considerou o desempenho de 68 empresas com faturamento semelhante a FLL e concluiu que:
- o crescimento da FFL representa mais que o dobro da mediana de crescimento de empresas semelhantes do setor no período, que foi de 20%;
- a margem de lucro da FFL também superou a média. Em 2023, alcançou 13,4%, enquanto a mediana de empresas do mesmo setor foi de 7,75%.
Marsiarelli é sócio de mais oito empresas, além da FFL. Entre elas, está a Imóveis Ravello, com a qual o empresário estreitou sua relação com Nunes e pessoas ligadas à administração paulistana.
Uma dessas pessoas foi Eduardo Olivatto, ex-chefe de gabinete da Siurb que acabou demitido pelo prefeito em novembro do ano passado.
Os negócios de suas empresas levaram Marsiarelli a responder a processos judiciais e administrativos em diferentes estados.
O UOL procurou Fernando Marsiarelli por telefone, mensagens e email, mas o empresário disse preferir um encontro pessoal a responder às perguntas enviadas por escrito.
A reportagem tentou encontrá-lo em três datas sugeridas por ele, mas o empresário desmarcou todos os encontros.
Primeiros saques
Antes de virar empresário, Fernando Marsiarelli foi tenista. Jogou até os 20 anos, quando decidiu continuar como amador.
Fora das quadras, chegou a dar aulas na academia Mauro Menezes, em São Paulo. Ensinava jovens atletas e também restaurava equipamentos para revender a alunos.
Hoje ele é sócio do Alphaville Tênis Clube e participa de competições na categoria de atletas com mais de 40 anos.
De tenista, Marsiarelli passou a ser vendedor e começou a importar carros.
Em 2011, no entanto, uma ex-namorada acionou o empresário na Justiça por ele não ter entregado um veículo vendido.
A ex disse ter pagado R$ 170 mil ao empreiteiro em 2010, mas afirma que nunca recebeu o carro.
Marsiarelli tinha na época um escritório em um imóvel do irmão, André.
Ele disse à polícia que sua importadora passava por "dificuldades financeiras" e, por isso, usou parte do dinheiro da venda do carro na Green Line Logistics, uma das suas empresas.
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Ele "sumiu" ao longo do processo. A Justiça não conseguiu encontrá-lo para notificações. Até o advogado que o defendia deixou o caso por falta de contato e de pagamento.
Marsiarelli só voltou a aparecer no processo em 2023, após a Justiça mandar penhorar as quotas e parte do faturamento da FFL.
Houve um acordo no mesmo ano, o que encerrou o processo.
Cobranças da prefeitura
O primeiro contrato da FFL com a prefeitura foi em 2018, ainda na administração Bruno Covas (PSDB).
A empresa venceu uma licitação da Secretaria do Verde e Meio Ambiente para adaptar o parque Raul Seixas, em Itaquera, para pessoas com deficiência, por R$ 864 mil.
A obra enfrentou problemas. Foram seis meses de cobranças da prefeitura por "morosidade" e um processo administrativo para apurar a conduta da empresa.
A FFL foi criticada por "erros grosseiros", como construir uma rampa no lugar de uma escada.
Em maio de 2020, a prefeitura encerrou o contrato e o processo administrativo com um "termo de recebimento definitivo dos serviços".
No mesmo ano, a FFL assinou seis contratos com a prefeitura, entre licitações e convites para obras emergenciais.
Uma delas, a reforma da praça Amundsen, no Alto de Pinheiros, foi alvo de denúncia anônima de superfaturamento ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo). O caso foi arquivado por falta de provas.
Foi somente em 2021, quando Nunes assumiu a administração municipal, que a empresa começou sua trajetória como umas das construtoras mais requisitadas pela Siurb para obras emergenciais.
O convite para fazer parte do grupo de empresários contratados nessa modalidade partiu, segundo pessoas ouvidas pela reportagem, do então chefe de gabinete da secretaria, Eduardo Olivatto.
Conforme reportagens do UOL e da Folha de S.Paulo, Olivatto e um filho, além do próprio prefeito Ricardo Nunes, moram ou já moraram em apartamentos registrados no nome da imobiliária de Fernando Marsiarelli, a Imóveis Ravello.
Olivatto também registrou uma de suas empresas num imóvel do dono da FFL.
A divulgação do envolvimento de Olivatto com Marsiarelli resultou na demissão do ex-chefe de gabinete da Siurb, em novembro do ano passado.
Olivatto nega conflito de interesse e apresentou à Justiça o contrato de aluguel no valor de R$ 8.000 do apartamento de alto padrão em Pinheiros.
Os Piratas
Os Piratas Holding Patrimonial é uma das empresas das quais Marsiarelli participa por meio da FFL.
A companhia foi constituída em outubro de 2023 e tem em seu quadro societário três outras empresas (FFL, Arc Comércio Construção e Administração e Serviços e Lagoa Azul Holding).
No início de 2022, menos de dois anos antes de a holding ser aberta, seus sócios se encontraram em duas disputas por contratos para obras de contenção de taludes (terreno inclinado que serve como base de sustentação ao solo), na zona leste de São Paulo.
Nos dois casos, a FFL ofereceu um desconto maior e assinou os contratos, levando R$ 42,8 milhões, em valores não corrigidos.
Nos dois casos, as empresas convidadas a fazer proposta foram a Arc (uma das sócias da Os Piratas), e a Meng Engenharia, que tem como sócio o engenheiro civil Luiz Fernando da Silva Montoro, um dos Piratas.
Para um dos convites, a Arc não ofereceu desconto em relação ao pedido da prefeitura.
No outro, ofereceu 0,98 ponto percentual de desconto. Já a Meng ofereceu desconto de 0,12 ponto percentual em ambos os casos.
Problemas em Minas Gerais
Em 2017, um ano antes de vencer a licitação da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, Marsiarelli e a FFL passaram a responder por problemas na execução de uma obra em Bom Sucesso (MG).
Em setembro daquele ano, o MP-MG (Ministério Público de Minas Gerais) ajuizou ação de improbidade administrativa contra Marsiarelli, a FFL, a ex-prefeita de Bom Sucesso Cláudia do Carmo Martins Barros e o irmão dela, Fabrício Martins de Barros, ex-secretário de obras da cidade.
A licitação previa a pintura de sinalizações viárias em 7.000 metros quadrados de ruas e estradas na cidade, mas o MP disse que só foram demarcados 1.558 metros quadrados, apesar de um aditamento de 1.750 metros quadrados.
Segundo os promotores do caso, o prejuízo à cidade foi de R$ 96,7 mil.
A ação se baseou nas conclusões de uma comissão de investigação da Câmara Municipal de Bom Sucesso. Segundo os vereadores, a FFL recebeu R$ 118,1 mil para pintar 8.750 metros quadrados, mas só entregou 1.585,41 metros quadrados.
"A contratação causou prejuízo ao erário porque a municipalidade remunera por serviços que não foram efetivamente prestados", disseram os vereadores, na conclusão das investigações.
O processo está em andamento, mas ainda não houve decisão de mérito. Recentemente, o empresário pediu o arquivamento do processo por prescrição, o que foi negado.
Contratos verbais
O processo em Minas é mais um exemplo de problemas enfrentados pela FFL em seus negócios com prefeituras.
Em 2017, a CRM Sinalização Viária afirmou ter sido subcontratada pela Rocha Sinalização para fornecer máquinas para uma obra em Rio Grande da Serra (SP).
A Rocha Sinalização pertence à esposa de Marsiarelli, Fernanda Cervoni. Ele é diretor na empresa.
Contratada por R$ 44,8 mil, a CRM diz ter recebido apenas R$ 15 mil e cobrou em um processo cível os R$ 29,8 mil restantes.
A Rocha alegou que o contrato foi apenas verbal e o que eles entenderam como devido foi pago.
A Justiça considerou o pedido da CRM improcedente e o valor pago, correto. A corte também determinou o arquivamento do caso após o trânsito em julgado, o que ocorreu em junho de 2020.
Em 2021, a EIG Construções alegou à Justiça ter sido subcontratada pela FFL para uma obra em Cubatão (SP), com pagamento acordado em R$ 180,8 mil, mas não recebeu o valor.
A FFL usou o mesmo argumento: contrato verbal e pagamento do que considerava devido. A Justiça considerou o pedido improcedente por falta de provas, e o processo foi extinto em novembro de 2022.
Imóveis Ravello
Os apartamentos de Marsiarelli em que moraram Nunes e as pessoas ligadas à Siurb estão registrados no nome de uma de suas empresas, a Imóveis Ravello.
Segundo levantamento feito pelo UOL em cartórios de imóveis de São Paulo, a Ravello é dona de pelo menos 20 imóveis.
Todos foram comprados entre maio de 2022 e setembro de 2024, segundo as matrículas.
Trata-se de um patrimônio de mais de R$ 17 milhões, desconsiderando correção monetária.
Os quatro imóveis usados por Nunes e por pessoas ligadas à prefeitura foram comprados entre maio de 2022 e novembro de 2023.
Nesse período, a FFL assinou 19 dos 21 contratos emergenciais firmados com a Siurb desde 2021.
A empresa levou R$ 475,6 milhões por essas obras, em valores não corrigidos.
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