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Lidia Zuin

Por que tem feminista que acha que sexualizar o corpo é empoderador?

Cena de "Cam", suspense da Netflix - Divulgação
Cena de 'Cam', suspense da Netflix Imagem: Divulgação
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

16/12/2020 04h01

Há alguns meses, comecei uma empreitada particular de leituras para tentar entender dois fenômenos isolados, mas que têm muitos pontos de intersecção: por que as pessoas ainda almejam ser famosas hoje em dia e por que algumas feministas acham que sexualizar o próprio corpo nas redes sociais é empoderamento?

Uma amiga dedicada aos estudos de gênero me passou algumas recomendações que casaram muito com leituras prévias.

Uma pesquisa feita pela Universidade de Michigan, em 2013, concluiu que estudantes com maior tendência ao narcisismo postavam com mais frequência em suas redes sociais. Não sei se estou forçando a barra, mas, por ter ouvido recentemente o episódio do podcast "Naruhodo" sobre o "efeito Pigmaleão", lembrei da hipótese de que, quanto mais se faz um reforço opinativo, mais as pessoas começam a acreditar que aquilo é verdade e agir conformemente.

Aquela criança inteligente que foi muito elogiada durante a infância cresce achando que era mesmo inteligente, quando na verdade, não é. Nas redes sociais, conseguimos controlar essa exposição no nível do detalhe: do momento em que escolhemos tirar uma selfie, o ângulo que usaremos, a iluminação desejada, o filtro que melhor combina e o FaceApp para últimos ajustes. Ganhamos muitos likes, dizem que somos lindos e passamos a nos comportar como se fôssemos mesmo aquela imagem alterada. Até almejamos "cristalizá-la".

Pesquisadores da Universidade Flinders, na Austrália, descobriram que quanto mais tempo meninas adolescentes passam na internet, mais sua autoestima e satisfação com a imagem corporal diminuem. Depois das redes sociais, as conversas sobre aparência se tornaram mais frequentes entre o grupo observado. É aí que entra o desejo de fixar essa imagem perfeita por meio de intervenções cirúrgicas que emulem o efeito dos filtros (dismorfia de Instagram), técnicas de maquiagem que afinam o rosto, cintas que afinam a cintura, sutiãs que aumentam o peito e calcinhas que empinam a bunda.

Hoje qualquer pessoa pode se transformar em seu próprio "personal paparazzo" e encarar isso como estratégia de marketing digital. Se antes os fotógrafos perseguiam as estrelas que concorriam ao Oscar, hoje tem blogueira conquistando espaço no carpete vermelho pelo número de seguidores, não necessariamente por algum feito nobre. A lógica dos influenciadores digitais do século 21, portanto, não é muito diferente da lógica da fabricação de celebridades do século passado, mas existem algumas distinções importantes.

Guy Debord, autor do livro "A Sociedade do Espetáculo", dizia que celebridades são aquelas pessoas que são famosas simplesmente por serem famosas. Já nos anos 1960, Andy Warhol dizia que, no futuro, todos teriam a chance de obter 15 minutos de fama, uma profecia que se cumpriu até certo ponto. Talvez os minutos não sejam todos esses e talvez a fama não tenha ocorrido por um bom motivo — talvez tenham te filmado numa situação constrangedora. Mas, assim como os memes nascem, também morrem e meses depois, é provável que ninguém mais se lembre do "tapa na pantera" porque já tem outro bombando.

Em outros casos, como é o das Kardashians ou ainda de Paris Hilton, a fama começou de maneira friamente calculada: bastou "vazar" uma sextape de Kim Kardashian para acender o rastilho de pólvora que continua queimando até hoje, levando consigo toda a família que virou personagem de reality show e, depois, marca própria. Os Kardashian são os perfis mais seguidos do Instagram. De acordo com os autores do livro "Objectification: On the Difference Between Sex and Sexism", o que Kim e Paris fizeram consigo mesmas foi apenas "hackear" a lógica do capitalismo e da indústria da fama a seu favor. Afinal, se mulheres são constantemente transformadas em objetos sexuais e têm seus corpos explorados na mídia e pelo capital, por que nós mesmas não fazemos isso?

Parece uma boa ideia, mas como diria a autora feminista Audrey Lorde, não se destrói a casa do opressor com suas próprias ferramentas. Em "Testo Junkie", aprendemos com Paul B. Preciado que vivemos em uma "era famarcopornopolítica", isto é, um momento da história definido pelas indústrias farmacêutica e pornográfica e por uma política em torno desses mercados.

Preciado argumenta que, desde a invenção da pílula concepcional, do Viagra, da indústria pornográfica e do feminismo liberal, vivemos em um mundo no qual o sexo se tornou produto audiovisual com performance melhorada a partir de hormônios, estimulantes, drogas sintéticas.

Essa exposição à pornografia começa muito cedo na vida das pessoas. Um estudo publicado no jornal Paediatrics estima que 42% das crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos já foram expostos a conteúdos pornográficos. Segundo outro estudo, da Psychology of Addictive Behaviors, a pornografia também pode afetar nossa saúde mental: viciados em conteúdo pornô têm maior propensão a depressão e ansiedade.

Certo, mas o que isso tem a ver com o povo no Instagram? Um relatório publicado em julho pela Algorithm Watch, uma instituição sem fins lucrativos da Alemanha, mostrou que fotos de mulheres de biquíni ou lingerie no Instagram tinham 54% mais chances de aparecer na timeline, enquanto que fotos de homens sem camisa alcançaram o marco de 28%. O algoritmo favorece a exibição do tipo de conteúdo mais curtido: como as pessoas curtem mais esse tipo de imagem, é isso que o algoritmo vai priorizar.

Faz todo o sentido que influencers adotem esse tipo de foto para poder ter mais engajamento e exposição, que leva a firmar mais parcerias com marcas e ganhar dinheiro com a própria imagem, lapidada em cirurgias e procedimentos. Como alguém disse no Instagram: aqui está o publi da blogueirinha com o chá que desincha e que paga pela sua próxima lipo.

Ser blogueiro hoje em dia não é só postar foto e publicar resultado de teste em gif no Blogger, mas ter agentes e profissionais de marketing digital contabilizando e orientando passos e estratégias. Filmes como "Cam", disponível no Netflix, mostram a lógica mercadológica por trás de influenciadoras digitais e camgirls. Controladas pela sua audiência, agentes e patrocinadores, essas personalidades da internet seguem a cartilha do que Preciado chamou de farmacopornopolítica.

Desde que Kylie Jenner assumiu que havia feito preenchimento labial, buscas pelo procedimento aumentaram 70% no Reino Unido. OTikTok registrou em março um aumento de 27% nos downloads do aplicativo, comparado ao mês anterior. Alguns influencers migraram para o OnlyFans, onde seus nudes poderiam ser mais bem pagos e gerar receitas de US $110 mil a US$ 200 mil por mês, como foi o caso de Lee, a Goth Egg.

Agora somos nós mesmos que tornamos nossos corpos e identidades produtos reprodutíveis e vendáveis em marketplaces online. Empoderamento ou encarceramento, tudo depende do ponto de vista. Para os autores de "Objectification: On the Difference Between Sex and Sexism", criticar esse tipo de estratégia de exposição e comercialização do corpo feminino é ser moralista, o que igualaria as feministas radicais aos conservadores religiosos. Ambos querem controlar a sexualidade e o corpo feminino com narrativas diferentes, mas objetivos iguais.

O sociólogo Edgar Morin chamou as celebridades hollywoodianas de Novos Olimpianos. O que ocorreu com Elvis, Marilyn e qualquer outra grande celebridade é que, na verdade, elas abdicaram de suas individualidades para se tornarem imagens reprodutíveis que não deixaram de existir após a morte do corpo — de onde vem a ideia de que "Elvis não morreu".

De um ponto de vista psicanalítico, a vontade de ser famoso pode ter a ver com o conceito grego de kléos, fama imorredoura que advém de uma conquista notável. Aquiles abria mão de sua vida pelo seu povo, e hoje abrimos mão da nossa privacidade e complexidade para nos tornarmos imagens bem diagramadas numa linha do tempo bem organizada e um tom de voz coerente em todas as plataformas. E, nesse ponto, tudo é válido: de chatbot de celebridade até assinatura para ser amigo próximo nos stories do Instagram. Afinal, quando eu deixo de ser uma pessoa e passo a ser um produto, tudo que faz parte de mim pode ser vendido.

O conceito de capitalismo gore da filósofa mexicana Sayak Valencia, trabalhado em livro de mesmo nome, a autora analisa como o capitalismo tardio e o narcotráfico se baseiam em uma lógica de transformar corpos e vidas em produtos descartáveis. De forma semelhante ao conceito de necropolítica, Valencia aborda o fato de que tanto empresas comerciais quanto organizações criminosas transformam a vida e os corpos em elementos descartáveis no processo de manutenção do hiperconsumismo. Seu corpo, sua imagem, sua privacidade e sua existência são apenas troco de bala no esquema de lucratividade capitalista. Entramos numa lógica do ovo ou da galinha: se não houvesse demanda por esse tipo de coisa, elas deixariam de ser oferecidas?

Talvez não. Mark Fisher defende, em "Realismo Capitalista", por exemplo, que faz parte do próprio mecanismo do capitalismo incluir narrativas contrárias e expurgatórias para te fazer sentir menos culpado na hora de participar de sua dança fúnebre. Ele cita o filme "Wall-E" e a cena de super-crítica tecnológica, em que aparecem humanos gordos em cadeiras flutuantes, comendo hambúrguer e viciados em telas. Esse tipo de conteúdo já nos faz nos sentirmos "woke" (conscientes). No fim das contas, temos a sensação de que fizemos a nossa parte quando, na verdade, não fizemos absolutamente nada.

Por que continuamos a seguir perfis com milhões de seguidores no Instagram? Por que continuamos dando like nas fotos biscoiteiras que alimentam o algoritmo de bolha e nos escondem de outras possibilidades de conteúdo? Profissionais da saúde, como a nutricionista Marcela Kotait e a psicóloga Vanessa Tomasini, têm defendido o "unfollow consciente", isto é, a decisão de parar de seguir os perfis de grandes influenciadores para a gente não se sentir mal ou com inveja.

Faz muito mais sentido seguir perfis mais próximos da sua realidade, seja do ponto de vista de corpos parecidos ou então de rotinas e interesses compartilhados. Acompanhar uma rotina mais sincera e próxima da nossa realidade nos faz muito melhor do que acompanhar aquela blogueirinha que tem um chefe em casa e faz crossfit com personal trainer todos os dias. É normal que a gente se compare aos outros. Somos seres sociais, mas há um limite.

Talvez alguns ainda busquem fama hoje em dia porque isso significa uma massagem no ego (já sabemos da história das dopaminas e dos likes), mas ainda existe o lado mercadológico, no qual, ao nos transformarmos em produtos, somos comprados e podemos continuar comprando (Valencia).

Para conseguirmos nos "produtizar" e angariar fãs, mais parcerias e mais dinheiro, precisamos nos despir e seguir a lógica pornográfica do capitalismo atual. Não significa que precisamos vender conteúdo pornográfico, como argumenta Preciado, mas que continuamos a vender prazeres, seja pela nossa beleza, pelas mentiras que contamos, pelo personagem que interpretamos. E, assim como nas produções cinematográficas, para manter esse personagem precisamos passar por procedimentos, usar substâncias que nos permitam obter a máxima performance. Farmacopornografia. Se isso é o que chamam de empoderamento feminino, em quantas vezes eu posso passar esse produto no cartão?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL