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Lidia Zuin

Não, a Era de Aquário ainda não chegou (e que bom!)

A atriz Renn Woods, em cena do filme musical "Hair" (1979), inspirado no musical homônimo de 1967 - Reprodução
A atriz Renn Woods, em cena do filme musical 'Hair' (1979), inspirado no musical homônimo de 1967 Imagem: Reprodução
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do UOL

24/12/2020 04h01

Nessa semana, acompanhamos pela primeira vez em 400 anos a conjunção dos planetas Saturno e Júpiter. Na segunda-feira (21), o acontecimento astronômico tomou conta das redes sociais não apenas por sua raridade histórica, mas também por ter se iniciado em um Solstício e por anunciar a suposta chegada da "Era de Aquário". Mas, como já elucidou Alexey Dodsworth em um artigo especial, não entramos em nenhuma nova era, e menos ainda na de Aquário.

Mais do que explicar os pormenores desse equívoco, o que quero abordar nesta coluna é a euforia causada por um suposto evento astrológico. Isto porque o advento da "Era de Aquário" marcou o imaginário popular no século 20, em clássicos musicais como o espetáculo "Hair" e também por toda a simbologia do evento para o movimento hippie. A Era de Aquário é tida como um momento de inovação tecnológica, rebelião, humanitarismo, idealismo, liberdade e democracia. Mas o que isso tudo tem a ver e por que algumas pessoas deram tanta importância a isso?

Em "História do Futuro" (2016), o historiador francês Georges Minois faz uma retrospectiva sobre o papel de figuras como o vidente, o oráculo, o astrólogo, o tarólogo e todos os praticantes de "mancias" (quiromancia, piromancia, necromancia etc) na formação da cultura ocidental, dos povos mesopotâmicos até o fim do século 20.

Fazemos uma viagem aos templos antigos, onde oráculos, como o de Delfos, eram visitados e pagos para prever o futuro, em especial no caso de guerras e arbitragens políticas. Da Grécia Antiga às Guerras Napoleônicas, Minois mostra que sempre houve a figura do clarividente como alguém capaz de orientar e organizar o raciocínio de grandes líderes como o próprio Napoleão Bonaparte, mas também escritores como Robespierre e o jornalista Marat — afinal, como defende Minois, "prever um acontecimento já é favorecer sua realização, graças ao impacto psicológico produzido desse modo". Se a visão é positiva, então há um fortalecimento do moral, mas se é negativa, então se reflete nas decisões e em prevenções.

O historiador comenta como as ciências ocultas, o misticismo e, em especial, a astrologia, sempre estiveram pairando pela cultura ocidental, mesmo em momentos de soberania da Igreja Católica e até mesmo com a chegada do Iluminismo. Se, em determinados momentos, esse tipo de serviço era acessado e acreditado apenas pela plebe, em outros, videntes e astrólogos se tornaram celebridades e atração nas festas da elite. Minois conta que, mesmo durante os momentos de proibição e de prisão desses profissionais, eles continuavam atuando clandestinamente. Ali celebravam o ocultismo e culturas distantes, como a ideia de um Egito esotérico que, como se sabe hoje, foi criada por gregos e demais europeus e nada tinha a ver com os verdadeiros hábitos daquele povo.

De qualquer modo, todos os conhecimentos esotéricos prestavam menos serviço à sua cientificidade do que à sua capacidade de, na verdade, criar narrativas atraentes que fossem lidas através do baralho de tarô ou da borra de café. Como argumenta Minois, muitas vezes as pessoas nem procuravam saber seu destino, mas encontrar um alento antes de a psicanálise e a psicologia se desenvolverem, o que os transforma, na verdade, em "médicos da alma, e seus consulentes, doentes. De certa forma, fingir predizer é curar". O exame de consciência e o aspecto confessionário outrora exercido pela Igreja passam a ser desses oráculos. Em suas palavras:

"Como o padre, o astrólogo é um confidente, ao qual revelamos nossos segredos, e que em troca desvenda nosso futuro pessoal. Existem profundas semelhanças entre o psicanalista e o astrólogo, e as videntes do século 19 já haviam compreendido esse papel de psicólogas e consoladoras que foram conduzidas a interpretar. Os consulentes dos astrólogos e dos videntes são doentes, aflitos, desequilibrados, que vêm procurar consolo e segurança, e atrair atenção para a sua pessoa. Os astrólogos sabem bem disso, basta ler suas predições estereotipadas: afagar o ego é muito mais importante do que predizer o futuro."

Com a chegada da Revolução Francesa e da "era das massas", era ainda mais necessário ter uma narrativa que movimentasse esses milhões de cidadãos com novos ideais como nação, pátria, liberdade, democracia, e a mobilidade que advinha desse momento de mudança. Apesar de parecer contraditório, Minois defende que a ascensão do Liberalismo desta época, na verdade, traz um elemento individualista complementar, porque este era um momento em que a vida já não era mais engessada pela ordem monárquica e hereditária, mas marcada por uma flexibilidade que precisava ser canalizada por especialistas — videntes ou astrólogos, por exemplo. Qualquer semelhança com nosso presente povoado por coaches, videntes, astrólogos e místicos não é mera coincidência.

Quando essas narrativas grandiosas traziam inspirações ao povo, elas não apenas sugeriam visões do futuro, mas criações de utopias que, em última instância, poderiam até se tornar ideologias — ou não seriam elas mesmas utopias propositivas que tentam convencer as pessoas de que é possível chegar lá? No fim do século 19, diferentes comunidades libertárias e anarquistas foram criadas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Mas o que se percebe na virada para o século 20 é que a utopia só é boa enquanto sonho, porque quando concretizada, transforma-se no que o autor chama de contrautopia, ou o que hoje mais popularmente conhecemos como distopia.

Cena do filme '1984' - Reprodução - Reprodução
Cena do filme '1984'
Imagem: Reprodução

Isso fica claro no trabalho dos autores de ficção científica, que abandonam o otimismo de extrapolação de Júlio Verne para encontrar um caminho mais reflexivo em H. G. Wells e, finalmente, desembocar no pessimismo escancarado dos romances "Nós" de Yevgeny Zamyatin, "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "1984", de George Orwell.

Entende-se que a utopia se daria em um momento em que felicidade, estabilidade e plenitude foram conquistadas, o que significa que o sistema já entrou em homeostase e não precisa mais de conflitos e evoluções, porque já estaria em sua "forma ideal".

Acontece que, como parafraseou Eduardo Galeano, "a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Isto é, a utopia nunca deve ser o destino, apenas a inspiração.

O que "Admirável Mundo Novo" e "Nós" mostram é a conquista da utopia: não há pobreza, não há infelicidade, violência ou criminalidade. O preço a ser pago? Manipulação genética para designação de castas, fim da privacidade, sexualidade ritualizada para fins estritamente reprodutivos, indivíduos como partes de uma massa. Já em "1984", porém, Minois argumenta que a plenitude é alcançada não pela conquista da felicidade individual, mas pela manutenção de um estado neurótico de medo, desconforto e angústia reforçados pela narrativa de uma guerra que nunca encerra, pela simplificação da língua em prol de uma limitação de raciocínio, pela manipulação da história para fins de controle do presente e do futuro, pela extinção da libido para controle das emoções, entre outras estratégias.

Fica claro nesses grandes romances que os autores trazem à tona reflexões sobre como as inovações tecnológicas podem vir a ser as grandes salvadoras de uma utopia tecnocrática ou então que, na realidade, nossa busca pelo prazer e pela liberdade acabam sendo o grande problema que nos impede de ser felizes. Em "Nós", Zamiatin escreve:

"Sabe, a velha lenda do paraíso somos nós, é absolutamente real. Propuseram a escolha aos dois habitantes do paraíso: felicidade sem liberdade ou liberdade sem felicidade, sem outra solução. Os idiotas escolheram a liberdade e, naturalmente, suspiraram pelas correntes durante séculos. Nós acabamos de descobrir a forma de restituir a felicidade no mundo."

Na apresentação de "Admirável Mundo Novo", Nikolai Berdiaev escreveu também que "as utopias são muito mais realizáveis do que se acreditava. Hoje, somos confrontados com uma questão nova, que se tornou premente: como podemos evitar a realização definitiva das utopias? As utopias são realizáveis. A vida caminha na direção das utopias". Faria sentido, então, estarmos em um momento saturado de distopias e pessimismo? Minois diz que não "julga" esse humor do século 20 porque, afinal, foram cem anos marcados por duas guerras mundiais, genocídios, Chernobyl, Hiroshima e Nagazaki, fim da União Soviética, crises econômicas como a de 1929, entre outros incidentes. Assim, seria justo cobrar que nós, em 2020, durante uma pandemia (para dizer apenas o óbvio), sejamos otimistas?

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Imagem: Reprodução / Internet

A questão talvez esteja, então, menos no sentimento do que na tentativa de estruturar esses pensamentos. Foi algo que não apenas astrólogos, mas também economistas e filósofos tentaram fazer, ao criar modelos para explicar a história. Curiosamente, em 1982 e 1988, vivenciamos uma outra conjunção, desta vez de Saturno-Júpiter-Plutão na constelação de Capricórnio, mas ela também fez com que as pessoas recorressem a todo tipo de esoterismo representado, por exemplo, através do movimento New Age. Para Minois, o New Age é um exemplo de milenarismo astrológico americanizado, que se preocupa em anunciar "o advento iminente de um mundo renovado, em que cada um reconhecerá a presença de Deus dentro de si, como fragmento da consciência cósmica do espírito universal. O cristianismo, que coincide com a era de Peixes, chega ao seu fim. Todas as religiões vão se unir, e vai começar, com a entrada no signo de Aquário, uma era paradisíaca de 2.160 anos, que permitirá que os homens concentrem todas as suas aspirações positivas".

Estamos tendo um revival desse sentimento durante essa semana? Se sim, o quanto disso revela o nosso desespero, a nossa crendice e, em última instância, a nossa impaciência para que as coisas mudem e, de preferência, para melhor? Para Minois, "há algo de patético nesse otimismo forçado, ambíguo, que recita como uma ladainha a lista dos males da humanidade, como que para exorcizá-los", mas o New Age não deixa de ser esse filho dos hippies com a ficção científica pacifista que "sonha com certa libertação do espírito, até agora dolorosamente cativo das imposições materiais. Na verdade, trata-se mais de um sonho do que de uma predição". Semelhantemente, essas previsões e visões de um futuro menos têm a ver com o porvir do que um sentimento sobre o presente e o reflexo adquirido do passado.

De lá para cá, a futurologia ou o campo mais amplo de estudos do futuro têm se estruturado em publicações como "Future Shock", de Alvin Toffler, e em organizações como a World Futures Studies Federation, o que torna cada vez mais importante ressaltar que esses profissionais da prospectiva nada têm a ver com vidência e astrologia, porque sequer anunciam seu trabalho como previsões, mas sim reflexões, estudos sociológicos do presente e do passado para se pensar o futuro. As prospectivas são mais conservadoras e até mesmo um tanto óbvias, segundo Minois, justamente para não cair na tentação do profetismo, bem como pelo fato de se basearem em projeções econômicas e estudos sociológicos, em vez de uma anunciação ou canalização de vozes do além.

Ainda assim, nos sentimos atraídos por grandiosas visões de novas eras e eventos astrológicos. Se nos basearmos na retrospectiva apresentada por Minois, estamos menos preocupados em descobrir de fato o que será o futuro do que buscar um alento em personalidades carismáticas que irão nos falar o que queremos ouvir, mesmo quando é algo negativo — é sobre prevenção, não sobre maldição. Para o historiador, conforme o tempo passa, mais complexa fica a realidade e "impossível" de uma mente humana conceber, tanto que usamos inteligência artificial para alguns cálculos e projeções. Mas, assim como no problema das fake news, será que preferimos fazer cálculos de projeção de expansão do universo ou acreditar que a conjunção de Júpiter e Saturno em Aquário trarão boas novas?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL