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Lidia Zuin

Reality shows, fama e a máquina de reatrolimentar solidão na era das massas

BBB 21: Brothers na primeira noite de formação de paredão - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Brothers na primeira noite de formação de paredão Imagem: Reprodução/Globoplay
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

04/02/2021 04h00

Mais um ano, mais uma edição do Big Brother Brasil. Mas esta não vai ser mais uma crítica aos reality shows e sim uma análise sobre a solidão e o isolamento, duas palavras que ganharam muita força no último ano devido à pandemia de covid-19. Nem por isso esses temas são novidade — como demonstra o historiador francês Georges Minois no livro "História da Solidão e dos Solitários" (2019), publicado pela Editora Unesp.

O autor, já conhecido por outros títulos como "História do Futuro" e "História do Suicídio", nos oferece um panorama sobre como a solidão foi buscada e percebida ao longo dos séculos no Ocidente. Com ele, viajamos no tempo desde a antiguidade pagã — na qual se constituiu a ideia do homem como um animal social — até a solidão devota dos padres do deserto, e então chegamos na solidão intelectualizada do Humanismo, no individualismo do Liberalismo no século 19, desembocando no cenário contemporâneo de 7 bilhões de solitários conectados.

Em linhas gerais, Minois comenta que a solidão completa nunca foi algo interessante ou mesmo viável para os seres humanos. Seja pelo seu significado cultural e social ou pelas afetações psicossomáticas que o isolamento completo pode causar, entendeu-se que mesmo eremitas precisavam de um pouco de comunidade para se apoiarem nas tarefas diárias ou mesmo para um mínimo de socialização pelo bem-estar psíquico. Isso, no entanto, não poupou todas as pessoas de um isolamento infligido pela comunidade (expulsos e excomungados) ou por si mesmo. Vemos exemplos de intelectuais como Descartes ou Rousseau, que enxergaram na solidão a oportunidade para filosofar e o único exílio possível para ser quem realmente se é — e não quem se deve ser para ganhar aceitação em sociedade.

Rousseau gastou muito tempo tentando persuadir os outros de que ele não era uma má pessoa por ser um homem solitário. Não era um misantropo. Só que todos os seus esforços elucidativos acabaram fazendo com que amigos como Hume, Grimm e Voltaire rompessem com ele, no fim das contas.

Em seus escritos, como "Rousseau juiz de Jean-Jacques", ele ponderou o fato de os solitários não serem aqueles que odeiam a humanidade e por isso se afastam dela, mas aqueles que "amam o repouso e a paz, (...) fogem do tumulto e do ruído. (...) Qualquer um que se baste a si mesmo não quer fazer mal a quem quer que seja." Isto é, "o verdadeiro solitário", escreve Minois, "não é o que foge da presença dos outros, mas o que compreendeu a diferença irremediável entre o que se é, ou se crê ser, e o que se parece ser. Confinado em sua própria consciência, ele faz dessa solidão uma virtude." Citando diretamente Rousseau, então, o historiador comenta que "o homem civil quer que os outros fiquem contentes com ele, o solitário é forçado a ser ele mesmo, ou sua vida é insuportável. Assim, o segundo é forçado a ser virtuoso, e o primeiro pode ser somente um hipócrita."

O solitário, portanto, é aquele que busca por uma liberdade dificilmente conquistada nas cidades, onde "sempre somos solicitados por vizinhos, clientes, amigos; não podemos nunca ser nós mesmos, é preciso sempre fingir: 'Eles não choram nem riem segundo seus próprios sentimentos, mas em função do sentimento dos outros; agem, pensam e vivem como estranhos [a si mesmos].' As pessoas se medem de alto a baixo, se julgam umas às outras. Pode-se dizer que, literalmente, na cidade, o inferno são os outros." Apesar disso, não é todo mundo que se dá bem com a solidão e com a perene convivência consigo mesmo, e, por isso, optar pela "hipocrisia" da convivência faz mais sentido para alguns.

Consequentemente, solitários foram muitas vezes vistos como pessoas egoístas ou mesmo arrogantes, que não aceitavam ceder às convenções da vida em sociedade e que acabavam se isolando como selvagens. Só que, a partir do século 20, com a instauração da era das massas, tivemos um ponto de virada no qual uma pessoa seria capaz de encontrar, em um curto passeio pelo centro da cidade, muito mais pessoas do que um camponês da Idade Média conseguiria encontrar em toda a sua vida. Desde então, somos forçados a pegar trens e ônibus lotados nos horários de pico — e tentar encontrar na superlotação um mínimo de dignidade física para nossos corpos e psíquica para nossas mentes. Vivemos em uma época de superlotação e não menos solitária; vivemos em um momento no qual o isolamento se tornou um luxo pago com dinheiro.

Na confusão dos valores pós-modernos, do hiperconsumismo e do constante apelo para que estejamos sempre conectados, sociabilizados e compartilhando, solidão e felicidade se tornam antíteses, uma vez que a sociedade contemporânea é aquela que "rompeu os laços tradicionais que entravavam a liberdade — corporações, casamentos etc —, defendeu a autonomia, e que, de outro lado, se indignou com a persistência da solidão." Somos uma sociedade que vivenciou historicamente processos de emancipação e liberação feminina, por exemplo, além do culto meritocrático do self-made man, que empurra o indivíduo a esforçar-se para se tornar um símbolo de sucesso profissional enquanto suprime suas relações pessoais e sua saúde mental.

Minois comenta que, se por um lado, temos SOS Amizade "porque a solidão é um sofrimento", de outro, temos sites e aplicativos de encontros "porque a solidão é a oportunidade, em todo caso para aqueles que fazem parte do clube muito exclusivo do 'trio humor-alegria-prazer de viver'". Se, por um lado, países como o Reino Unido fundam um Ministério da Solidão, por outro, empresas como o Tinder ou OkCupid lucram em cima da tentativa de formar casais e proporcionar encontros que só continuam acontecendo enquanto o indivíduo está disponível e, portanto, sozinho e/ou insatisfeito.

Minois não aborda a questão da poligamia em seu contexto atual, porém, ele traz à tona o argumento de Gilles Lipovetsky que, desde 1983, evocava que os distúrbios psicológicos que enfrentamos na contemporaneidade são mais ligados ao narcisismo do que a um desvio de caráter:

"Homens e mulheres aspiram sempre igualmente à intensidade emocional das relações privilegiadas, porém, quanto mais a espera for forte, mais o milagre da fusão parece tornar-se raro, e, em todo caso, breve. Quanto mais a cidade desenvolve as possibilidades de encontro, mais os indivíduos se sentem sós; quanto mais as relações se tornam livres, emancipadas das antigas restrições, mais a possibilidade de conhecer uma relação intensa se faz rara. Em todo lugar se encontra a solidão, o vazio, a dificuldade de sentir, de ser transportado para fora de si; daí vem uma fuga na direção das 'experiências' que apenas traduz a busca de uma 'experiência' emocional forte. Por que não posso, pois, amar e vibrar? Desolação de Narciso, por demais programado em sua absorção em si mesmo para poder ser afetado pelo Outro, para sair de si mesmo, e, entretanto, insuficientemente programada, já que ele ainda deseja um relacional afetivo."

Minois também traz as reflexões de Lipovetsky no sentido de que apesar de termos tentado romper com a moralidade e estruturas antigas, não fomos suficientemente preparados para lidar com toda essa liberdade que nos tornou carrascos de nós mesmos. À primeira vista, esse argumento pode parecer moralista e conservador, assim como se sugerisse que voltássemos a cultivar os valores antigos e tradicionais, mas talvez o cerne da questão esteja mais no nosso despreparo para viver a partir desses novos modelos do que necessariamente a impossibilidade de mudarmos. Assim, procuramos válvulas de escape, como escreve Minois:

"Psicologicamente perturbado, o Eu investe cada vez mais no corpo, e por causa disso cresce sua solidão: obcecado por sua saúde, sua higiene, sua boa forma, sua beleza, seu 'look', 'o corpo designa nossa identidade profunda'; o indivíduo vigia o menor sinal de decrepitude, faz esporte, consome em excesso produtos farmacêuticos. O Eu é cada vez mais o corpo, e o corpo é o que nos distingue, nos separa, nos isola."

O sucesso de redes sociais como Instagram, na qual o algoritmo beneficia imagens de corpos nus e perfis de bem-estar, autoajuda e fitness, está justamente na exploração dessa nossa ferida existencial. Nesse contexto, somos empurrados para um desespero por proximidade que, mais uma vez, age como um tiro pela culatra. O autor comenta que, em busca de conexão e identificação, portanto, de erradicação do sentimento de solidão, o indivíduo hoje

"...revela sua intimidade, exige uma implicação pessoal, faz confidências, publica sua autobiografia, se desnuda no Facebook, se exibe, se expõe, se confessa, e com isso, em vez de se aproximar dos outros, afasta-se deles, pois uma verdadeira troca, uma verdadeira sociabilidade, requer regras e barreiras que delimitem o indivíduo, lhe dão uma personalidade, uma consistência e uma necessária parte de mistério. Ao tornar-se transparente, ele se torna indiferente, não o vemos mais. Quanto mais entrega de si mesmo, mais desaparece para os outros, e nada é mais solitário do que um fantasma, que ninguém vê porque se vê através dele."

O fenômeno das celebridades hollywoodianas já apontava para esse tipo de desdobramento, mas agora a mecânica dos influenciadores digitais apenas injetou mais esteroides nessa equação. É curioso encontrar no livro a seguinte citação: "Apenas alguns fragmentos de nós tocarão um dia os fragmentos de outro — a verdade de alguém na realidade é apenas isso —, a verdade de alguém. Pode-se somente partilhar o fragmento aceitável para o saber do outro, assim somos quase sempre sós."

Minois brinca que essa frase poderia ter sido dita por Pascal, mas na verdade foi tirada de uma carta escrita por Marilyn Monroe em 1961, um ano antes de seu suicídio. Para o historiador, Marilyn é um símbolo desse paradoxo da solidão que enfrentamos desde o século 20: a era das massas é a era que "erige ídolos, adora os heróis solitários e lhes censura em seguida seu isolamento. O ídolo deve ser ao mesmo tempo único e familiar, não pertencer a ninguém e pertencer a todo mundo."

O fato de as últimas edições do BBB estarem incluindo participantes que são influenciadores digitais ou mesmo celebridades massivas apenas arremata essa costura de voyeurismo e mecânica da fama que desumaniza, objetifica, erradica o indivíduo que, em última instância, tenta curar sua solidão buscando conexão com os outros que também querem se conectar com a sua essência mais exposta e, no fim, também acabam tão mal sucedidos quanto o próprio ídolo.

Mais do que cair numa conclusão moralista ou até mesmo resgatar o discurso sobre privacidade na Internet já bem elaborados em documentários como "O dilema das redes", o que vemos aqui é que o mesmo desejo de se relacionar, de ser um animal social, permanece presente hoje — agora explorado e transformado em armadilha comercial e existencial, sustentada por novas tecnologias que retroalimentam a solidão através da exposição.

Aquele meme que diz "Ela me pediu um nude. Eu mandei um poema e ela me bloqueou. Acho que ela queria um nude do corpo. Eu, tolo, mandei da alma" pode parecer esdrúxulo à primeira vista, mas é meio que por aí. Nudes, hoje, não são mais sinônimo de proximidade, intimidade, mas talvez de esvaziamento do eu reduzido ao corpo e à imagem. Nas diferentes plataformas, assumimos diferentes imagens (a variação de avatares para o Facebook, LinkedIn e Tinder) na esperança de que consigamos controlar a percepção alheia do nosso "eu", mas, novamente, é uma ilusão: "O sentimento de solidão não é superado porque o indivíduo conectado perde seu caráter único", escreve Minois.

O fato de a edição de 2021 do BBB já estar causando tantas polêmicas e desilusões pode ter a ver com isso. Ao colocarmos pessoas já públicas numa casa em que elas são 24 horas vigiadas, não apenas adentramos sua intimidade como descobrimos que o excesso de exposição acaba por transformar esses indivíduos em estereótipos, personagens que tentam passar conexão, empatia e verdade, mas que acabam apenas gerando mais solidão para si mesmos e para os outros que não mais se reconhecem naquele espelho que é falso.

Ok, então o melhor é parar de ver reality show e seguir grandes influenciadores e celebridades? Não sou eu quem vai dizer isso, porém, achei importante trazer essa questão da solidão que nos leva a buscar a fama e a exposição para nos conectar. Isso acaba se voltando contra nós mesmos porque, nessa mecânica, acabamos despersonalizados e, afinal, nunca conseguirmos de fato conectar com os outros. Seja porque nosso ídolo já não é mais um indivíduo e sim um produto, uma imagem, ou porque nós mesmos caímos nessa mesma cilada em busca de conexão através da fama e do exibicionismo.