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Lidia Zuin

Testes de DNA com previsão de comportamentos não são totalmente confiáveis

Mapeamento genético está na moda, mas nem sempre melhora a performance ou a vida de usuários - iStock
Mapeamento genético está na moda, mas nem sempre melhora a performance ou a vida de usuários Imagem: iStock
Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

27/01/2021 04h00

Testes de DNA têm se tornado cada vez mais acessíveis e populares, mesmo aqui no Brasil. Depois do boom nos EUA com empresas como 23andMe e MyHeritage, chegam ao Brasil concorrentes como Genera e Multigene, que oferecem mapeamentos genéticos a partir de R$ 199. Resolvi fazer o meu e comprar o pacote Genera completo para dar uma olhada nos resultados — apesar de ainda ser bastante cética no que diz respeito às informações que receberia: ancestralidade global, busca de parentes, saúde e bem-estar (nutrição, performance esportiva, envelhecimento), linhagens e resposta a determinados medicamentos.

Os pacotes mais simples são aqueles focados na ancestralidade do cliente. Como já esperava depois de ter conferido esta matéria do TAB, há pouquíssima informação de ancestralidade nativa ou mesmo africana nos meus resultados — numa proporção de 69% de origem europeia, 14% das Américas, 10% Oriente Médio e Magrebe e 7% da África. Foi interessante, porém, descobrir na aba Américas o detalhamento das regiões Amazônica, Andina, América Central e também uma referência aos Tupi.

Esse tipo de informação pode ser útil para entender não apenas a formação de um povo (entremeando genética, história, sociologia e antropologia), mas também pode ajudar a entender melhor nossas raízes e a combater o racismo, idealmente. Por outro lado, dependendo da empresa que você contrate para fazer o teste e da base de dados a que ela tem acesso, pode ser que essa porcentagem mude em alguns dígitos. Ou seja: este número não é totalmente preciso.

O que me chamou a atenção no teste foram alguns resultados que diziam respeito aos meus padrões comportamentais. O mais esdrúxulo foi apontar que eu tenho um perfil mais diurno, sendo que eu tenho a maior dificuldade de dormir e acordar cedo, ao ponto de precisar de remédios para regular meus horários e muito café para ficar acordada de manhã — mas se eu tomar muito, algo como duas xícaras, diz o teste, posso ter uma crise de ansiedade. Outros dados, como menos capacidade de sentir saciedade, me fizeram entender por que eu costumo comer mais (e também ter problemas de transtorno alimentar), enquanto a afirmação de que performo melhor com exercícios de alta resistência e força me fizeram querer chorar, porque odeio correr e fazer exercícios de alta intensidade, tipo HIIT ou Crossfit.

Vale a pena confiar -- e se basear -- nesses resultados?

Segundo o geneticista Adam Rutherford, "a genética é uma ciência probabilística, e não há nenhum gene para algo em particular." Em entrevista à Scientific American, o pesquisador confessou ter reservas sobre a utilidade dos testes de ancestralidade: "Se você não tem um doutorado em genética, esses resultados podem confundir ou serem até mesmo problemáticos." Isto porque, por mais que uma pessoa tenha uma versão de um gene que aumenta a probabilidade de desenvolver Alzheimer, por exemplo, a maior parte não irá desenvolver a doença, já que isso depende muito do estilo de vida das pessoas e, bem, do acaso. Mesmo assim, há quem faça como Angelina Jolie, que decidiu remover os seios ao descobrir que teria altas chances de desenvolver câncer de mama devido a uma falha genética diagnosticada.

Em atendimentos psiquiátricos, não é incomum que médicos peçam aos pacientes que façam testes genéticos para entender a quais remédios ele responderia melhor, mas não se trata do mesmo que eu fiz. Costuma ser mais caro. Alguns nutricionistas e treinadores passam dietas e cartelas de exercícios baseadas em dados genéticos dos clientes, mas uma pesquisa de 2019 mostrou que esse tipo de informação é bastante impreciso.

Dois estudiosos da Stanford resolveram comprovar se esses testes conseguiam fornecer dados suficientemente precisos para mudar o comportamento das pessoas — e até proporcionar melhores reações fisiológicas. Só que ao fazer um teste com 200 voluntários, os cientistas forneceram, propositalmente, algumas informações falsas sobre a presença de determinados genes que poderiam limitar habilidade nos exercícios ou a saciedade dos testados. E... no fim das contas, pouco importava o que o DNA dizia: importava mais o que os pesquisadores diziam às pessoas do que os verdadeiros dados genéticos.

Os voluntários que foram informados sobre uma melhor tendência à performance física a partir de seus genes performaram pior do que as pessoas que foram informadas de que tinham menor capacidade. No caso da dieta, os voluntários consumiram as mesmas refeições e depois receberam informações sobre seus genes, o que mostrou que aqueles que haviam sido informados sobre uma menor predisposição à saciedade, de fato, se sentiram menos satisfeitos do que as pessoas que foram informadas de terem uma maior percepção de saciedade. Ou seja, a pesquisa levou à conclusão de que, mais do que a predisposição genética, os voluntários tenderam a demonstrar uma reação fisiológica baseada no que ouviam — e não no que seu DNA ditava.

Ok, então de nada vale fazer um teste genético hoje em dia? Não necessariamente. Segundo esses mesmos pesquisadores de Stanford, nossos dados genéticos são apenas uma parte do quebra-cabeça, enquanto nossa mentalidade é outra e, pelo jeito, os cientistas se sentiram mais desafiados a dar mais atenção a esse aspecto. Então quer dizer que tudo é uma questão de mindset e que você pode fazer uma reprogramação neurolinguística para mudar seu DNA através de processos quânticos? Não. Absolutamente não.

O campo da Genética do Comportamento, porém, está se desenvolvendo — e tem melhorado conforme as pessoas fazem mais testes e fornecem dados para a análise. Em sites como a Sano Genetics, você pode enviar seu documento de dados brutos e participar de pesquisas acadêmicas no campo da genética, por exemplo. Por outro lado, tenho visto pelas redes sociais um interesse cada vez maior por esses dados para fins de biohacking, estudos etológicos e até mesmo um certo retorno da frenologia e da eugenia, no que diz respeito a tentar encontrar um "gene do mal" ou os que podem influenciar na performance acadêmica, física, intelectual de um indivíduo.

Biohacking

Já comentei sobre a questão do biohacking aplicado à performance em outra reportagem especial. Pode parecer uma boa ideia quantificar os alimentos e exercícios que você precisa para obter "a melhor versão de si mesmo", mas isso é uma boa estratégia somente para atletas de alta performance. Não faz muito sentido para pessoas comuns, principalmente pelo potencial de se desdobrar em distúrbios psicológicos como transtorno alimentar, distorção de imagem corporal, ansiedade ou transtorno obsessivo compulsivo. Na virada de 2020 pra 2021, por exemplo, já vimos algumas influenciadoras falando abertamente sobre compulsão alimentar e dietas restritivas depois de erguerem seu império a partir de publicidade de produtos emagrecedores, vídeos de treino e fotos com legendas motivacionais.

É curioso como isso aparece em Byung-Chul Han, quando ele fala sobre a proliferação de academias de ginástica, da cultura do bem-estar e do transbordamento da "influência fitness": vivemos numa sociedade de performance, na qual o indivíduo explora a si mesmo — e a máxima do sucesso está na saúde (normalmente, apenas em seu aspecto físico e na estética). Descobrir no nosso DNA, algo tão profundo e "imutável", pode ser algo arriscado se não levarmos em conta a sua falta de dados confiáveis e a deliberada exploração pseudocientífica.

Talvez, no futuro, quando tivermos mais precisão nesse tipo de análise, poderemos absorvê-la de forma mais utilitarista e estratégica. Suspeito que, devido à complexidade da nossa mente (e aqui não apenas no sentido da consciência, mas na definição das emoções, impulsos e personalidade), seja muito difícil de conseguir quantificar esse tipo de coisa sem correr o risco de errar bastante. Saber que determinado comportamento é nocivo não impede uma pessoa de continuar com o hábito — como roer unhas até sangrar ou arrancar fios de cabelo. Então, saber se determinado exercício ou dieta me favorecem não implica necessariamente minha capacidade enquanto indivíduo de obedecer friamente a essas orientações.