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Lidia Zuin

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pesquisadores defendem que falar com negacionistas é melhor que ignorá-los

Marcha em defesa da ciência e contra o negacionismo em Washington D.C. (EUA), em 2017 - Vlad Tchompalov/Unsplash
Marcha em defesa da ciência e contra o negacionismo em Washington D.C. (EUA), em 2017 Imagem: Vlad Tchompalov/Unsplash
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Lidia Zuin

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Colunista do TAB

10/03/2022 04h01

Em 2018, muita gente entrou em atrito ou até perdeu contato com amigos e parentes que acreditavam em fake news e pseudociência. Agora, em 2022, entramos novamente em ano de eleições presidenciais e a pergunta que fica é: vale a pena dialogar com essas pessoas?

Em um artigo publicado na revista Nature em agosto de 2021, o pesquisador Lee McIntyre sugeriu que devemos, sim, continuar tentando conversar com negacionistas. Parece uma tarefa árdua e, por vezes, até inútil, mas McIntyre diz que não devemos perder as esperanças ou então temer o chamado "backfire effect" — o "tiro pela culatra".

Esse fenômeno se daria conforme uma pessoa que possui uma forte convicção é confrontada com evidências contrárias, só que, em vez de repensar seu posicionamento, só aprofunda e radicaliza sua crença. O que a pesquisa de McIntyre descobriu é que isso não ocorre com frequência suficiente para tornar as tentativas de diálogo inúteis.

McIntyre cita um trabalho feito pelos pesquisadores Philipp Schmid e Cornelia Betsch, da Universidade de Frankfurt, na Alemanha, que afirma que não falar com negacionistas é pior do que discutir com eles, principalmente se considerarmos questões que são de maior impacto social (como ser contrário à vacinação). Uma forma de tentar evitar esse cenário é, justamente, apresentar informações e dados que provem, por exemplo, a importância e efetividade das vacinas.

É o caso de projetos como Via Saber, que faz divulgação científica com a ajuda de cientistas de diferentes áreas. Segundo Caio Dallaqua, cofundador da iniciativa, a cientista Natália Pasternak já ministrou uma palestra sobre vacinação para mães e algumas participantes chegaram a comentar que haviam mudado de ideia, inclusive considerando vacinar seus bichos de estimação.

O Via Saber também organiza o projeto "Pergunte a um Cientista". Nele, diferentes especialistas ficam disponíveis em um domingo na avenida Paulista, oferecendo a possibilidade de uma conversa particular com quem quiser tirar dúvidas. O astrônomo, pesquisador e escritor Alexey Dodsworth chegou a participar de uma das edições e afirma que nunca teve de conversar com um terraplanista, por exemplo, mas que conseguiu facilmente desbancar crenças como a de que o homem não foi à Lua.

Mas há um problema nesse tipo de abordagem. As pesquisas levantadas por McIntyre sugerem que os efeitos dessa reconsideração não duram muito e não são cumulativos. Isto é, mesmo que uma pessoa mude de opinião, o efeito passa muito rápido, devido à constante atuação de fontes de desinformação, seja através de líderes políticos ou meios de comunicação.

Mais do que apresentar a informação correta a um negacionista, é importante romper a conexão que ele tem com determinados grupos identitários e falsas crenças, reduzindo sua exposição a fontes de desinformação. Ou seja, divulgadores científicos precisariam se tornar intermediários na formação e manutenção desses sistemas, de modo a tornar a estratégia mais eficaz e perene.

Fora isso, McIntyre também comenta que há evidências de que oferecer refutações técnicas é mais eficiente do que simplesmente apresentar um conteúdo técnico. Segundo o pesquisador, apresentar conteúdo como argumento é uma técnica bem familiar: ao receber uma informação afirmativa, como, por exemplo, que homeopatia funciona, você pode oferecer diferentes fatos sobre química e biologia que provam o contrário. Nesse caso, porém, McIntyre diz que, apesar de existirem evidências sobre a efetividade da abordagem, é preciso que as pessoas envolvidas tenham certo nível de conhecimento técnico — tanto o cético quanto o negacionista.

No caso da refutação técnica, a abordagem tem mais a ver com princípios gerais, de modo que seja possível desafiar o negacionista a explicar por que ele acredita em determinada informação. Esse tipo de estratégia é mais eficiente porque negacionistas tendem a confiar em algumas técnicas específicas que são facilmente refutadas: uso de evidências muito específicas e excepcionais, teorias da conspiração, especialistas em falsificação e a insistência de que a ciência precisa apresentar respostas completas e imutáveis para ser uma fonte verdadeiramente confiável. Portanto, fazer com que um negacionista reflita sobre suas próprias práticas epistêmicas (isto é, de onde eles tiram tais conclusões e como buscam informação) é mais importante do que fazê-los refletir sobre uma informação em específico, já que essa abordagem funciona em qualquer caso, independentemente de qual seja a crença falsa.

McIntyre também afirma em seu estudo que ouvir é mais importante do que falar — por mais difícil que isso possa ser. A evidência para isso está na pesquisa feita por Thomas Lemaitre e colaboradores do Centro de Pesquisa do Centro Hospitalar Universitário de Sherbrooke (Canadá). Em conversas de 20 minutos, pais compartilharam suas dúvidas e receios com relação às vacinas e, em seguida, foi checado se houve mudança depois do experimento.

A pesquisa aponta que os filhos desses casais que participaram da pesquisa tiveram um aumento de 9% na chance de receberem um cronograma de vacinação completa entre três e vinte e quatro meses após o evento, em comparação ao grupo-controle que não passou por essas sessões de conversa. Apesar de parecer uma porcentagem muito baixa, o que os pesquisadores indicam é que a repetição desse tipo de abordagem pode aumentar as chances de mudança.

No caso de McIntyre, ele chegou a ir a uma conferência de terraplanistas. Em vez de zombar de suas crenças, o pesquisador perguntou o que poderia fazê-los mudar de opinião. Quando a resposta era algo sobre apresentar evidências, McIntyre perguntava a eles por que as evidências atualmente disponíveis não eram suficientes para fazê-los repensar algo, e também questionava quais eram as fontes de conhecimento dessas pessoas, o motivo pelo qual confiavam nelas.

Isso não significa que precisamos ir a congressos antivacina e terraplanista para poder fazer algo. Na verdade, os pesquisadores sugerem que isso pode começar com conversas com vizinhos, amigos, parentes ou mesmo com voluntariado em projetos como o Via Saber. Fora isso, McIntyre também publicou o livro "How to Talk to a Science Denier: Conversations with Flat Earthers, Climate Deniers, and Others Who Defy Reason" (Como conversar com um negacionista: conversas com terraplanistas, negacionistas climáticos e outros que desafiam a razão), no qual ele faz uma comparação entre o método de conversa socrática e como abordar negacionistas — caso alguém queira ideias para se preparar para as próximas eleições.