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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Leão passou dos 80 jogando bola como menino. A covid o tirou de campo

Álvaro Leão comemorou os 80 anos jogando futebol todo fim de semana. Morreu de Covid aos 89 - Acervo Pessoal
Álvaro Leão comemorou os 80 anos jogando futebol todo fim de semana. Morreu de Covid aos 89 Imagem: Acervo Pessoal
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

20/07/2021 04h00

No dia em que Álvaro Leão completou 80 anos, em abril de 2012, um amigo cavou um pênalti e chamou o aniversariante, postado na defesa, como sempre, para a cobrança. Não seria a primeira nem a última vez que nosso parceiro de bola, agora octogenário, bateria um pênalti. Naquele front da quadra do Clube 22 de Agosto, em Araraquara, não havia nada de novo, a não ser o silêncio.

Daquela vez ninguém ameaçou sequestrar a bola, jogar o colete no chão nem acusar com o dedo em riste a dissimulação. Era pênalti e pronto.

O seu Leão deve ter estranhado, como deve ter estranhado o pulo exagerado do goleiro. Não é que ele saltou para longe da bola. Ele pulou para longe da trave, indo parar na pequena grade de ferro que separava a quadra de taco e a arquibancada.

Gol.

Quando a rede balançou, uma equipe da EPTV, a afiliada da TV Globo na região, entrou no ginásio e todo mundo começou a cantar parabéns. Atrás da câmera apareceram de surpresa os filhos gêmeos do seu Leão com um bolo e uma vela de número 80.

O repórter queria saber o segredo da longevidade, uma pergunta que Álvaro Leão respondia toda vez que assistia inconformado à debandada dos colegas de quadra depois de uma, uma hora e meia, às vezes mais de duas horas de jogo. Ele ficava sozinho, perguntando por que paramos, paramos por quê. E a gente se perguntava de onde ele arrancava tanto fôlego, mesmo tendo o dobro, às vezes o triplo, da idade dos parceiros de futebol.

Todo sábado e domingo era a mesma coisa. Ele era o primeiro a chegar e o último a sair. Ao fim do jogo, enchia o copo americano de cerveja, trocava o almoço pela porção de amendoim e subia a pé a ladeira do clube até sua casa no bairro São Geraldo. No caminho, ia chamando todos os cachorros da vizinhança pelo nome.

Na reportagem, que foi ao ar no dia seguinte, ele contava que tinha parado de comer carne vermelha fazia 17 anos. Que nunca fumou e sempre preferiu caminhar a andar de carro.

Na festa pós-jogo, uma entre tantas em que seria homenageado pelos amigos, seu Leão lembrou-se do dia em que escrevi sobre ele no jornal da cidade, cerca de dez anos antes. Eu tinha acabado de entrar na faculdade de jornalismo e reivindicava um espaço no diário O Imparcial, onde semanalmente despejava uma fórmula torta entre a insegurança patológica dos iniciantes com uma presunção que me levava, nos primeiros rabiscos, a escrever cartas abertas a George W. Bush naquela seção.

Foi quando percebi que, melhor do que falar do mundo em pandarecos, poderia retratar alguns dos personagens da nossa cidade. Naquela semana o seu Leão tinha feito um gol driblando um time inteiro e o goleiro. E eu escrevi uma crônica sugerindo aos dirigentes do clube que criassem o Torneio Álvaro Leão, em homenagem ao amigo, então com 70 e poucos anos, e que ainda dava um baile nos moleques da quadra.

Baile mesmo.

No domingo seguinte, a crônica estava afixada à entrada do ginásio e seu personagem correu, entre lágrimas, para me dar um abraço. Meu colega de quadra virou, ali, um amigo para a vida. Desde então o Natal em casa só começava depois do telefonema do seu Leão.

No dia do meu casamento, em 2015, a cerimônia já estava começando quando o vi descer de um táxi e entrar pela lateral da capela do salão. Estava de calça de moletom e um presente na sacola. Uma das mesas da festa era dos amigos de quadra. Ele era nosso camisa 10.

Apesar do fosso geracional, seu Leão estava longe de ser café-com-leite na quadra onde virou lenda. Sobre ele havia algumas histórias, nunca confirmadas nem desmentidas. Uma delas é que ele havia sido jogador profissional nos anos 1950. E que havia trocado uma carreira promissora pela estabilidade do funcionalismo, pelo qual se aposentou.

Das disputas, lembro quando mirei o ângulo do gol e acertei a testa do meu amigo. Ele foi ao chão. Antes que eu ensaiasse uma desculpa, ele já havia se levantado, tirado a bola do meu pé, lançado o parceiro na ponta — que perdeu o gol e foi xingado pelo resto do domingo. Boomers, millenials e centennials que já dividiram a quadra com ele poderiam contar outras histórias do tipo.

A faculdade em São Paulo, a 280 quilômetros do clube, não me afastou daquela turma. Quase todo fim de semana eu voltava para minha cidade. E o futebol ao domingo era sagrado. Era assim desde os 14 anos.

Só virei peça ausente depois que meu filho nasceu.

A última vez que encontrei o seu Leão foi no fim de 2018, quando estava no centro da cidade e me lembrei que naquele horário deveria falar ao vivo em uma rádio sobre alguma refrega política do dia. Esperando na linha, não pude seguir a conversa com o amigo que passava por ali por acaso. Só lembro da pergunta dele depois que falei rapidamente de um amigo em comum que queria reunir a turma para um futebol de domingo: "quem é ele mesmo?".

Um velho ditado, desses compartilhados aos montes nas redes sociais, fez então sentido. Em algum momento da vida os amigos saíram para brincar de bola e não sabiam que era a última vez. Seu Leão seguiu atuante até 88 anos. De lá pra cá, o corpo já não era o mesmo. A saúde também.

Na pandemia, imaginava como alguém tão ativo estaria lidando com o confinamento, sem as andanças diárias nem o futebol de fim de semana.

A filha, Carla, dava notícias sempre que podia.

Foi por uma postagem dela, no Facebook, que soube de sua internação na semana passada. Apesar de já vacinado, seu Leão foi contaminado pelo maldito vírus da covid e precisou ser hospitalizado. Sua companheira e filhos, também vacinados, tiveram apenas sintomas leves. Mas ele, já debilitado por comorbidades anteriores à infecção, não resistiu. (A vacina, vale lembrar, diminui as chances, mas não garante que a pessoa não será infectada enquanto o vírus circular. Será assim até que a maioria da população esteja devidamente imunizada)

Fossem outros tempos, a cidade pararia para se despedir do ídolo.

Sem ter o que dizer, lembrei do Otto Lara Resende ao escrever sobre a morte do amigo Paulo Mendes Campos: "Não, não estamos preparados. Confuso sentimento de que era preciso ter feito alguma coisa. Sim, era previsível. Mas não precisava ser irreparável".

Da UTI, conta a filha, o seu Leão teve febre e alguns delírios. Em um deles, tentou convencer os médicos de que precisava sair logo do hospital. Tinha futebol naquele sábado e não poderia faltar.

Em tempo. Enquanto espero a visita dos amigos em sonho, recebo do médico Beto Neves, sobre quem escrevi recentemente, a notícia de que ele transformou em música as palavras ouvidas durante um sonho com...John Lennon. "When you feel hopeless/Things seem so hard to do/You just have to wait and believe/Because love will find its way".

A canção foi inscrita em um festival de Liverpool. Como ele mesmo diz, parece feita sob medida para os tempos atuais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL