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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pane nas redes levou à superfície o nosso vício de positividade tóxica

Selfie - Getty Images
Selfie Imagem: Getty Images
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

06/10/2021 04h00

Não quero me gabar, mas preciso dizer que sobrevivi, e relativamente bem, ao bug do milênio, aquela tão temida pane dos sistemas digitais que se confirmou, com mais de 20 anos de atraso, com a queda do Facebook e seus primos instalados no celular na última segunda-feira (4).

Os sintomas foram leves.

A princípio senti um desconforto com a ausência daqueles tracinhos verdes ao pé da tela confirmando que minha mensagem urgente e inadiável foi entregue. Um desconforto seguido da falta de ar, que duraria o tempo do ícone do relógio parado indicando que algum problema ocorreu.

Quando soube que a pane não era comigo, mas com o mundo, o ar voltou, e pude então fazer uma limonada sem açúcar com os limões daquela tarde.

O primeiro deles, devidamente espremido, foi anexado em um documento pronto para ser impresso e auditável em uma mensagem de e-mail — em comic sans para saberem que sou intenso.

Era como enrolar um bilhete, vedar a mensagem na garrafa e lançar ao mar — se alguém do outro lado confirmasse o recebimento, estava tudo certo. Mas quem ainda usa e-mail hoje em dia? Pior: quem ainda acusa recebimento?

Sem me atentar para isso, passei mais ou menos meia hora com os olhos presos na tela à espera da aprovação. Meia hora e dois segundos depois, avisei por SMS que a mensagem havia sido encaminhada. Oito segundos depois, encerrei a espera e fiz o que não se faz: disquei (na verdade, digitei) o número do destinatário e perguntei se eu poderia encerrar o expediente — no meu caso, encerrar e partir para a outra missão do dia.

A voz do outro lado ficou um tempo em silêncio. Parecia confusa, mas estava apenas pensando. É que, em viva voz, fica difícil formular uma resposta verossímil para justificar os minutos de vácuo que no WhastApp são facilmente contornáveis. (Lá basta dizer que a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados respondendo outras mensagens urgentes). Veio então um princípio de diálogo:

"Seu 'r' é muito caipira do interior, né?".

Vai ver meu sotaque ficou imperceptível nos áudios em velocidade 2.

O primeiro perrengue havia sido superado — com a vantagem de que, entre uma mensagem e outra, não fiz meu tour habitual por outras caixas de mensagens nem recebi do primo do interior uma corrente de alerta segundo a qual grupos esquerdistas estavam naquele momento na Baía dos Porcos apontando mísseis de origem soviética para o Palácio do Planalto.

Mas o que a gente faz quando sobra o tempo que costumamos gastar durante o expediente chamando primo de fascista e avisando que o alerta vermelho era fake news?

Senta, chora e espera tudo voltar?

Não! A gente vai à luta.

No meu caso, a força gravitacional das caixas de mensagens me levava a atualizar obsessivamente e a todo instante o feed do Instagram. De longe, foi a parte mais difícil do dia. Ok, foi bem difícil.

Passada a primeira hora da pane, cheguei ao ponto de me arrepender por não ter, nos últimos 15 anos, desenvolvido algum tipo de vício que me desse estofo emocional e um suporte habitual para uma hora dessas em que o vazio parece preencher todo o corpo. Eu que não fumo queria um cigarro. Beber àquela hora era inviável — como o patrão da parábola bíblica, os aplicativos poderiam voltar a qualquer momento pedindo atualizações. Era necessário permanecer em aleta. E sóbrio.

Esse impasse, sim, gerou um princípio de pânico. Sim, eu era capaz de trocar o WhatsApp pelo SMS ou pela versão russa do programa de mensagens instantâneas (os stickers lá, ao menos, são mais interessantes). Poderia passar a tarde numa boa sem ler textão de Facebook explicando por que diabos os protestos de sábado não foram exatamente um sucesso de público e crítica.

Mas ficar sete horas sem atualizações dos Stories no Instagram era demais.

Durante uma tarde, a interrupção de toda aquela positividade despertou em mim os sintomas de um sujeito adicto. Não é fácil atravessar um dia inteiro sem ver pelo menos um corpo bronzeado, os óculos escuros da Dolce&gabbana refletindo praia e mar, com alguma mensagem motivacional do tipo "mais uma segunda-feira dura em Geribá" e as hashtags #trip, #abencoados, #loveyourself, #sorryperiferia, #piscininhaamor.

Também não foi fácil ficar horas sem me informar das declarações postadas por casais apaixonados — eles e seus selinhos com chapéus esvoaçantes em topos de montanha —, imagens de livros perfeitamente equilibrados nas coxas mais letradas ou vídeos gravados por superpais e suas crianças de oito meses com superpoderes para soletrar a palavra "proparoxítona" sem engolir letra alguma — o desenvolvimento linguístico do meu filho de oito anos, que só esgoelava sem poder mandar áudio para o amigo, se tornou impublicável desde que ele aprendeu a xingar.

Como quem vê a porta do cativeiro aberta e hesita em dar o pé, lembrava daqueles roteiros de histórias perfeitas e afervoramento espontâneo como quem sente falta de uma penitência. Estava viciado em me culpar por não ser um deles.

Antigamente, quando a ordem divina ditava os rumos da civilização e suas leis, era fácil saber o que fazer e onde erramos. Bastava fazer o check list nos dez mandamentos. Como a gente pecava ainda assim, o sentimento de culpa estava automaticamente diagnosticado e purgado. "Ah, sim, foi ali que eu errei. Estou me sentindo culpado agora, mas se amanhã não falar o santo nome em vão vou ficar bem e pleno".

Em 2021, os novos mandamentos vêm em forma de vida intensa, alimentação saudável, cenários de academia, bomba de vitamina D e barriga tanquinho postados nos Stories. No pain, no gain, eles dizem.

A gente, tantas vezes reles, tantas vezes vil, sabe que nunca vai acessar aquela plenitude, mas é plenamente capaz de lembrar dos excessos do fim de semana e entender por que ninguém alcança aquela cenoura laranja-tonificante da vida perfeita suspensa em nossa testa.

Não fosse aquela linguiça de Bragança, qualquer um de nós, com um pouco de fé em si, disciplina e força de vontade, poderia trabalhar cada vez mais para que aquelas pessoas seguissem postando o próprio seu sucesso às custas de nossos cliques.

Era melhor ter viciado em cigarro.

Antes do fim da tarde, buscando em outras plataformas a felicidade gratuita que o gerente de TI do Mark Zuckerberg me sonegou por sete horas, caí num clipe antigo, desses que passavam na MTV nos anos 1990 e faziam qualquer moribundo levantar para malhar. Mas eu era criança e não entendia nada.

Como num Story dos primórdios, pessoas brilhantes e felizes dançavam com roupas festivas em um cenário rotativo cheio de cores, casas alegres e gente divertida, entre eles um sorridente Michael Stipe com um boné de lado, para trás.

Era o conceito mais bem acabado de imagens que trazem paz. A tremedeira da tarde sem Instagram parou por alguns segundos. Até que a música foi interrompida e nas coxias do clipe uma menina negra apareceu levando um copo de água para o senhorzinho responsável por fazer aquela engrenagem festiva, interligada a uma bicicleta, rodar com sua força de trabalho.

Maldita vida adulta. Maldita consciência de classe.

O jeito era esperar o fim do mundo passar o quanto antes para consumir a plenitude em vídeos curtos engatados um no outro para não dar tempo de pensar na vida nem em suas engrenagens, as analógicas e as digitais.

Desconfio que o nome disso é positividade tóxica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL