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Matheus Pichonelli

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Dino que homenageia deus do sexo provoca recalque e euforia em Monte Alto

O dinossauro Kurupi itaata pertence à família dos abelissaurídeos e foi encontrado no município de Monte Alto (SP) - Divulgação/Museu de Paleontologia de Monte Alto
O dinossauro Kurupi itaata pertence à família dos abelissaurídeos e foi encontrado no município de Monte Alto (SP) Imagem: Divulgação/Museu de Paleontologia de Monte Alto
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

02/10/2021 04h00

Quase 20 anos após a primeira escavação, pesquisadores do Museu da Paleontologia de Monte Alto, no interior de São Paulo, apresentaram ao público, no último fim de semana, os fósseis e a réplica do primeiro dinossauro carnívoro encontrado na cidade: o Kurupi itaata.

Um dos últimos terópodes que viveram na região, cerca de quatro milhões de anos antes de sua extinção, o bicho foi descrito como uma criatura de cinco metros de comprimento, membros anteriores reduzidos, crânio curto, dentes achatados e carenas serrilhadas.

Nada que se assemelhasse a uma divindade do sexo, como leva a crer seu nome científico, uma homenagem a Kurupi, o deus da fertilidade guarani, com a junção das palavras tupi ita (pedra) e atã (dura), em referência ao solo da Formação Marília, a formação geológica que engloba São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

O deus guarani só entrou na história, segundo o biólogo e doutor em Paleontologia Fabiano Vidoi Iori, 44, porque seu primeiro fóssil — os ossos da cintura pélvica do terópode — foi encontrado, em outubro de 2002, perto de um motel da cidade. O apelido "Dino do Motel" pegou entre os outros cientistas responsáveis por desencavar, em outras incursões realizadas até 2014, não só o restante dos fragmentos fósseis de um réptil de família (no caso, a dos abelissaurídeos) mas também o recalque da comunidade científica em pleno século 21.

Aos pares estrangeiros parecia uma brincadeira de mau gosto fazer, no registro científico da espécie, uma referência às andanças pecaminosas dos deserdados filhos de Eva pelas suítes perto dali.

O paleontólogo Fabiano Vidoi Iori com um fóssil da sua descoberta, localizada perto do motel em Monte Alto (SP) - Divulgação/Museu da Paleontologia de Monte Alto - Divulgação/Museu da Paleontologia de Monte Alto
O paleontólogo Fabiano Vidoi Iori com um fóssil da sua descoberta, localizada perto do motel em Monte Alto (SP)
Imagem: Divulgação/Museu da Paleontologia de Monte Alto

"Achavam que esse nome ia gerar constrangimento. É até compreensível. Estranho mesmo foi ver pesquisador estrangeiro achar que era uma escolha de mau gosto e que eu não estaria levando a ciência a sério", relembra Iori. "Quando li sobre o deus guarani, achei plausível por ser uma cultura que se difunde nos países da América do Sul e por ser um local onde os abelissaurídeos dominaram. Acho que não aconteceria o mesmo se o dinossauro chamasse Eros, outro deus do erotismo", completa o cientista.

Além do Kurupi, Iori é "pai" também de outras espécies de nomes sugestivos encontradas perto dali, como a tartaruguinha Amabilis uchoensis — descoberta no município de Uchoa —, o crocodilo Caipirasushus e o Thanos Simonattoi, nome de um outro dinossauro batizado por ele e pelo parceiro Rafael Delcourt em homenagem ao vilão da Marvel, da qual é fã, e ao sitiante Sérgio Simonatto, que ajudou nas escavações. "Gosto de dar nomes regionais ou que dê identidades locais aos bichos que descrevo. A gente acaba tendo um carinho muito grande pelas espécies. São meus filhos do passado."

Iori conta que, diferentemente do "Dino do Motel", os outros nomes não desencavaram qualquer recalque. Quando descreveu o Caipirasushus, por exemplo, seu orientador pediu apenas que ele consultasse os colegas da cidade se o termo "caipira" não soava ofensivo. Não houve qualquer restrição. Já o Thanos caiu no gosto geral.

Nascido em Monte Alto, o pesquisador conta que desde a infância acompanha as notícias sobre os pedaços de dinossauros encontrados em sua cidade — epicentro de grandes descobertas desde 1910. Isso fez com que, diferentemente dos paleontólogos de sua geração, ele desenvolvesse fascinação pelos fósseis, e não pelos dinossauros em si. "Acho incrível que restos de animais virem 'pedra'."

A paixão virou profissão depois que ele começou a frequentar as exposições do Museu de Paleontologia, inaugurado em Monte Alto em 1992. Lá ele fez sua primeira escavação, trabalhou durante dois anos e, desde então, atua como voluntário. Foi lá também que ele apresentou no sábado (25) seu mais recente "filhote".

A relação com uma descoberta do período Cretáceo pegou de surpresa o proprietário do motel, Fernando Roberto Cau Uzai. Na cidade desde 1999, ele só ficou sabendo que seu empreendimento havia inspirado o nome do dinossauro brasileiro quando a reportagem entrou em contato. Ao menos ali, a euforia venceu o recalque.

"É uma grande alegria não só para nós, mas também para os nossos clientes e todos os munícipes. Com certeza esse fóssil e seu nome serão eternamente relembrados", comemorou o empresário, que promete fazer em breve uma ação de marketing para celebrar a dupla descoberta.

Ele não detalhou como, mas é possível que em breve os frequentadores do local tenham uma opção de decoração com ares pré-históricos no menu que hoje tem como carros-chefe as suítes em estilo country, futurista, egípcia e sultão.

Localizado às margens da Rodovia SP 323, o Paraíso Motel guardou no nome uma última ironia da história toda. Paraíso certamente não era a melhor definição para a vida de um terópode que tentava sobreviver no Brasil do Cretáceo.

A realidade da época era árida, marcada por períodos longos de estiagem e incursões por duras rochas calcíferas em busca da carne de alguma presa. A atual alta no preço da carne e o tempo seco do acalorado interior paulista não permitem comparações.

Os bípedes que sucederam o Kurupi naquela área antes inóspita do interior paulista levariam 70 milhões de anos para encontrar ali, se não uma vida em mar de rosas, ao menos uma cama cheia delas numa das alcovas decoradas do Paraíso.

Dinossauro foi localizado perto de motel no interior de SP - Divulgação/Museu da Paleontologia de Monte Alto - Divulgação/Museu da Paleontologia de Monte Alto
Dinossauro foi localizado perto de motel no interior de SP
Imagem: Divulgação/Museu da Paleontologia de Monte Alto