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OPINIÃO

'De novo, porra!': como Bolsonaro infantilizou conceito de liberdade

O presidente Jair Bolsonaro durante evento em maio de 2021. Foto: Marcos Corrêa/PR Imagem: O presidente Jair Bolsonaro durante evento em maio de 2021. Foto: Marcos Corrêa/PR
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

11/12/2021 04h00

No começo dos anos 1980, diante do sucesso dos brinquedos da linha Star Wars fabricados por uma concorrente, executivos da Mattel resolveram patrocinar uma pesquisa para entender como pensavam e o que queriam as crianças da época.

Os responsáveis pelo estudo notaram que o público-alvo era jovens aborrecidos com as ordens dos pais. Num ambiente longe das autoridades, eles usavam os brinquedos emprestados pelos pesquisadores para referendar a própria força, repetindo o que provavelmente ouviam em casa. "Você vai tomar banho, sim, porque eu é que mando. Eu tenho o poder. Eu tenho a força", diziam para seus bonecos.

Nasceu assim a coleção He-Man, bonecos musculosos, grandes para o padrão da época, e que de alguma forma projetavam nas crianças a experiência lúdica sobre uma força que almejavam ter um dia.

Na semana passada, Jair Bolsonaro esperneou ao saber, pelas autoridades sanitárias, que o fechamento do espaço aéreo era uma possibilidade aventada diante da variante ômicron do coronavírus. "Estamos trabalhando agora com a Anvisa, que quer fechar o espaço aéreo. De novo, porra? De novo vai começar esse negócio?".

Quem fechar os olhos poderá ouvir o presidente com a mesma voz de uma criança resistente às ordens dos pais para tomar banho. Ou fazer a tarefa. Ou ir para cama mais cedo. Quanto mais esperneia, mais parece atrair a idolatria de quem também chegou à vida adulta com as contas ainda em aberto com a infância e a maturidade.

A criança presa no corpo de um homem sexagenário já chamou passaporte da vacina de "coleira" e, como quem ameaça o esperneio no shopping, soltou essa na terça-feira (7): "Cadê a nossa liberdade? Eu prefiro morrer do que perder a minha liberdade".

Parecia chilique com alguém que o mandou escovar os dentes ("de novo?" mas já escovei ontem!"), mas era só o presidente do país fazendo bico em público diante da necessidade de agir como um adulto sem delegar os deveres, ou as culpas, aos irmãos mais novos, como prefeitos, governadores e juízes.

A contrariedade escancara a confusão do menino crescido que sonha em ser livre para levar a sua coleção de hominhos musculosos — alguns nomeados ministros, outros apoiadores notórios que arriscam ir para a cadeia por seu mestre (ou mito) — a uma sala segura, sem adultos por perto, onde possa dizer aos comandados que ele tem o poder e esse poder é ilimitado, um direito divino que não vê contenção, regras, constrangimentos ou impedimento ao gozo. Como se, guardada a fantasia, não tivesse em algum momento de lidar com os pais — no caso, as leis, as bases da diplomacia, as regras do convívio social, enfim.

Quando avisado que se não se comportar não vai ganhar a sobremesa, a resposta do presidente é quase sempre um ensaio de autoridade, como as crianças observadas pela Mattel nos anos 80: "quem manda sou eu!", "com a caneta eu tenho muito mais poder do que você", "eu ganhei, porra!", "eu não peço, certas coisas eu mando", "eu, Johnny Bravo, ganhei", "não vou aceitar decisões judiciais".

Bolsonaro chama de "liberdade" o desejo por um mundo que não diga a ele o que pode e o que não pode fazer. Nem no trânsito, onde o olhar vigilante dos pais se traduz nos radares de velocidade e regras da cadeirinha e do cinto de segurança, nem nas leis de proteção ambiental, que contêm, ou deveriam conter, os impulsos predatórios dos meninos perversos sobre as florestas e os povos originários, nem nas medidas de isolamento social, levadas a sério por países governados por adultos, cientes de que o esforço coletivo agora, mesmo que doloroso e impopular, será determinante para a sobrevivência amanhã.

No caso da pandemia, chama a atenção que até o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tenha vestido a fantasia de herói com muque inflacionado que não teme nada, nem a morte. Só teme precisar viver num ambiente com regras, noções de responsabilidade, renúncias, escolhas e a percepção de que o mundo não se encerra no umbigo e cobra as faturas da omissão e das malcriações — tudo aquilo que a turma chama de "coleira".

No livro "O Mal-Estar da Civilização", Freud descreve essa tendência humana de querer isolar do Eu tudo o que pode se tornar fonte de desprazer. Mas a dor de viver em sociedade é uma lembrança constante. É esse embate que Bolsonaro parece travar todo dia com seus bonecos desde que assumiu a Presidência.

A agressividade, o "tilt" diante da contrariedade, o desejo de impor sua vontade sobre os demais, de cortar na raiz as fontes de desprazer e dizer aos bonecos quem manda mostram que há uma criança desfraldada ao volante do país no momento mais grave da história.

É difícil não pensar quanto dentes trincados seriam poupados se a turma tivesse elaborado suas fantasias de autoridade na infância, e não nos corpos em risco de um país inteiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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