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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como inimigos largaram as armas e celebraram Natal nas trincheiras em 1914

22.dez.2014 - Homens vestidos como soldados alemães (ao centro) e britânicos (à esq.) participaram neste domingo (21) de uma partida de futebol entre os Exércitos em um evento de encenação que relembra a trégua de Natal da Primeira Guerra Mundial, em Warneton, na Bélgica. O Natal marcou um pequeno cessar-fogo não oficial entre alemães e britânicos em 1914 e até hoje é celebrado na região - Stephanie Lecocq/ EPA/ EFE
22.dez.2014 - Homens vestidos como soldados alemães (ao centro) e britânicos (à esq.) participaram neste domingo (21) de uma partida de futebol entre os Exércitos em um evento de encenação que relembra a trégua de Natal da Primeira Guerra Mundial, em Warneton, na Bélgica. O Natal marcou um pequeno cessar-fogo não oficial entre alemães e britânicos em 1914 e até hoje é celebrado na região Imagem: Stephanie Lecocq/ EPA/ EFE
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

25/12/2021 04h00

No começo deste ano, em um dos momentos mais tensos da pandemia, por alguma razão achei que seria uma boa ideia começar a ler o livro "A Primeira Guerra Mundial - os 1.590 dias que transformaram o mundo", do historiador britânico Martin Gilbert. Trata-se de um calhamaço com mais de 800 páginas sobre um dos períodos mais sangrentos da história da humanidade. Coisa leve para distrair em dias tensos.

A leitura, interrompida e retomada diversas vezes, me custou horas de sono, dentes rangidos e conexões inevitáveis sobre o presente — a começar pelo percepção de que o mundo é desde sempre governado por ineptos mimados e que a guerra poderia ter sido facilmente evitada caso os primos da Alemanha, Inglaterra e Rússia chegassem a um acordo mínimo para botar panos quentes em um barril de pólvora, desconfiança e medo semeado durante anos, e que só precisou de um estopim para explodir. O estopim, como todo mundo sabe, foi o assassinato do arqueduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Áustro-Húngaro que estava no lugar errado e na hora em meio a uma sucessão de ameaças e desentendimentos que resultaram, quatro anos depois, em mais de 10 milhões de mortos.

Mas por que escrever sobre isso no dia do Natal?

Bem. É que lá pelas tantas Gilbert reconstitui o momento em que as zonas de guerra, após quase cinco meses de confrontos, em 1914, foram tomadas por um espontâneo sentimento de paz. É um dos momentos mais incríveis da humanidade.

No livro, Gilbert reproduz trechos do diário do batalhão de um tenente britânico chamado Sir Edward Hulse, de 25 anos. Na véspera de Natal, o tenente anotou que, já ao fim do dia, quando escurecia, alguém do seu lado do front decidiu puxar papo com os alemães. Descobriu que, assim como eles, os inimigos estavam ansiosos por um armistício. Um batedor saiu ao encontro dos rivais e recebeu, em vez de balas, cigarros e um copo de uísque. Recebeu também a promessa de que, se ninguém disparasse em direção às suas trincheiras, ninguém dispararia contra eles também. Assim foi feito.

Na manhã seguinte foi a vez de os soldados alemães deslocarem-se até a linha de arame farpado britânico. Eles trocaram lembranças e objetos como estrelas para os bonés e insígnias. Os ingleses ofereceram aos inimigos pudins de ameixa.

Em troca, as tropas germânicas autorizaram os ingleses a ultrapassar as linhas inimigas para buscar os corpos de seus soldados que jaziam no local, sem possibilidade de enterro, após uma dura batalha em 18 de dezembro. Os alemães, inclusive, ajudaram na tarefa, levando os corpos até metade do caminho. Dois capelães improvisaram uma cerimônia de sepultamento, alternando orações em inglês e em alemão.

Na chamada terra de ninguém — lembrada na música "All Together Now", da banda inglesa The Farm —, inimigos juntaram suas armas e improvisaram uma brincadeira de caça a lebres. E chegaram a jogar futebol no local.

Houve confraternização dos alemães com praticamente todos os inimigos, inclusive belgas e franceses, com quem trocaram chocolates e tabaco.

Em uma área próxima a Ploegsteert, escreve Gilbert, um oficial britânico que falava alemão pediu aos algozes que cantassem uma serenata. Foi-lhe oferecido "Die Beiden Grenadiere", de Schumann. Do outro lado os ingleses cantavam "Christians Wake!".

"Naquele dia não houve um átimo de ódio pelo lado deles; pelo lado nosso, nem por um momento houve um sentimento de guerra ou o desejo de derrotá-los", anotou o escritor Bruce Bairnsfather, autor de "Bullets & Billets", sobre sua experiência nas trincheiras. Bairnsfather, naquele dia, cortou e deu de presente a um oficial alemão dois botões de seu casaco. Um barbeiro britânico foi escalado para cortar os cabelos de um inimigo, pacientemente ajoelhado enquanto a máquina raspava a parte de trás de seu pescoço.

Camaradagens do tipo irritaram profundamente o alto comando britânico, que sentiu que poderia perder o controle diante da humanidade demonstrada pelos subalternos no chamado Boxing Day.

O respiro no livro foi como um respiro na história daquela guerra. Durou pouco mais de duas páginas.

No dia seguinte, o autor conta que um turco desavisado ergueu-se da trincheira e quis brincar do outro lado. Foi alertado por um soldado português que o clima já havia mudado. Ao se tocar e virar para o outro lado, na tentativa de retornar ao posto, uma bala atravessou a parte de trás de seu crânio. Morreu ali mesmo. A guerra, como sempre, recomeçava.