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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Trinquem os dentes: 2022 promete ser um 'Sete de Setembro' em tamanho real

Bolsonarista estacionou camionete no gramado em frente ao Congresso Nacional durante protesto no Sete de Setembro - Rubens Valente / UOL
Bolsonarista estacionou camionete no gramado em frente ao Congresso Nacional durante protesto no Sete de Setembro Imagem: Rubens Valente / UOL
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

02/01/2022 04h00

O Brasil tinha acabado de entrar em estado de sítio.

Em Brasília, soldados e civis patrióticos marchavam em direção à Praça dos Três Poderes e anunciavam que o novo dia do novo tempo tinha começado. Quem não tivesse bandeira do Brasil na sacada, no adesivo do carro ou no broche da camiseta seria logo identificado como traidor e expurgado, com uma passagem só de ida para a Venezuela.

Na cidadezinha onde minha avó vivia até setembro daquele ano, foi esse o cenário traçado por uma amiga da minha mãe, enquanto tentávamos almoçar. A informante veio ao nosso encontro para dar os pêsames pela nossa perda. Minha avó seria sepultada dali a algumas horas, e precisávamos comer alguma coisa naquela tarde quente e seca de setembro.

As condolências duraram dois minutos, talvez três. Enquanto minha mãe, meu pai, meu irmão e eu mastigávamos com o paladar afetado pela perda, dali em diante o foco da conversa foi a revolução, noticiada via WhastApp da informante.

A euforia da nossa conhecida receberia um grande balde de água gelada oferecido por Michel Temer. Escalado às pressas para ir ao encontro de Jair Bolsonaro em Brasília, foi ele quem ensinou como o capitão deveria redigir uma carta em que avisava que as ameaças ao Supremo Tribunal Federal, feitas na véspera, o Sete de Setembro, eram fruto do calor da hora. Justo Temer, que seis anos antes havia jogado gasolina na crise política ao divulgar à nação outra carta, esta endereçada a Dilma Rousseff, ameaçando abrir a caixa de Pandora.

Naquela conversa que tentávamos encerrar o quanto antes — digamos que fake news e fantasmas do perigo comunista não eram exatamente a preocupação da família no dia em que perdemos minha avó —, ficava evidente o nível de raiva, ressentimento e tudo mais que deveria ser guardado e trabalhado em terapia dentro de uma pessoa que já não tinha freios entre o estômago e os dentes triturantes da boca.

"Exterminar" e "limpar" o país do "câncer" eram algumas das expressões usadas na conversa. Como se estivéssemos já numa espécie de apocalipse zumbi, o luto da nossa família não parecia constranger a militante, animada em nos apresentar e nos converter para a causa levantada por seu mito na véspera.

"Vocês não são esquerdistas não, são?", perguntou ela, diante de nossa indiferença.

Um voluntário hutu talvez fizesse o mesmo para identificar um elemento tutsi na Ruanda dos anos 1990.

Meu irmão, jornalista como eu, era o único com um pouco mais de paciência. Ele tentou explicar que não éramos nada. À certa altura, avisou que nem notícia acompanhávamos, para parecer que concordávamos com o diagnóstico de que a imprensa estava levando o país ao abismo soviético.

***
Já se passaram pouco mais de três meses daquele encontro. Desde então, um aparente armistício parece ter se instalado nos lares brasileiros.

Jair Bolsonaro foi enquadrado. O ministro que ele chamou de "canalha" seguiu prendendo quem o ameaçava de porrada. O Centrão bancou o presidente na cadeira e, de quebra, ajudou a aprovar projetos chave para a sobrevivência do governo, como a "PEC do Calote".

Espero que alguém tenha avisado a antiga amiga de minha mãe que a revolução não partirá, ou não partiu, do WhastApp. Mas aquele espírito dizendo "eu autorizo" todas as sandices presidenciais certamente não desapareceu; no máximo tirou um cochilo.

Dias atrás, o general Augusto Heleno contou que precisa tomar dois Lexotans diários na veia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação ao STF. Mais drástica do que chamar ministro de canalha e estimular o descumprimento de decisão judicial? Só se amanhã levar um cabo e um soldado para a Corte e enfileirar 80% dos ministros que não escolheu num paredão.

O presidente que precisou recuar para não enfrentar um processo de impeachment tem exposto novamente as asinhas golpistas. Há poucas semanas, voltou a atacar o STF, defendeu aliados presos (um deles prometeu sair na porrada com um ministro, e outro cansou de gravar vídeos armados) e retomou a conversa sobre a crise institucional — aquele papo todo de "corda esticada", ruptura, armas pela liberdade, chiliques contra passaporte vacinal, uso de máscaras, obrigatoriedade da vacina etc.

Como fez Donald Trump nos EUA em 2020, as eleições por aqui terão início sob a névoa da paranoia plantada dia sim, outro também, por Bolsonaro e sua turma para desacreditar o sistema de votos e instituições como o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Muita gente pretende entrar no novo ano de sola para garantir, mesmo no tapa, que não aconteça o que as pesquisas de intenção de voto apontam que deve acontecer.

Na dúvida, tem até general recrutado para as fileiras do TSE para servir de barreira de contenção a delírios golpistas. Começamos o ano "assim" de saúde.

Regados de ressentimento, ignorância e ódio, os ímpetos golpistas estão por toda parte, inclusive nas melhores famílias. Trinquem os dentes. 2022 será o nosso Sete de Setembro em tamanho real.