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Aos 86, Alaíde Costa vive auge da carreira em sucessão de lançamentos

Alaíde Costa, em gravação em estúdio de São Paulo - Bruna Bento/UOL
Alaíde Costa, em gravação em estúdio de São Paulo
Imagem: Bruna Bento/UOL

Adriana Del Ré

Colaboração para o TAB, de São Paulo

18/12/2021 04h01

Alaíde Costa diz, sem titubear, que vive o momento mais importante da carreira. A afirmação firme contrasta com a voz suave que a pronuncia. Com 86 anos recém-completados e vivendo desde nos anos 1960 em São Paulo, a artista nascida no subúrbio do Rio de Janeiro se dedica à música há mais de 65 anos. Foi um longo caminho até aqui.

Como uma cantora de tamanho relevo é capaz de considerar esse o período de seu auge? Alaíde é ouvida desde os tempos de Ary Barroso — foi descoberta em seu programa, em 1955. Reuniu-se com a turma da bossa nova ainda na gestação do movimento. Lançou preciosidades como o álbum "Joia Moderna" (1961). Gravou "Me Deixa em Paz" em dueto com Milton Nascimento, no disco "Clube da Esquina" (1972).

Alaíde tem suas razões. Dona de um repertório sofisticado, ela nunca abriu mão de gravar as músicas que queria, com os arranjos que desejava. Não raro, ouviu: "Ah, você deveria cantar uma coisinha mais animada". Ou seja, sambas. E não que Alaíde não cante músicas do gênero. Mas, para ela, cantar samba é ao estilo de Paulinho da Viola, de Elton Medeiros. Não o "sambão", como ela define.

"Ela gosta de música triste, difícil. É uma cantora da fossa, da tristeza, o que é lindo. E tem um timbre muito propício para isso", observa Marcus Preto, um dos produtores do novo disco de inéditas da cantora, ao lado do rapper Emicida.

Ser coerente numa época em que gravadoras davam a primeira e a última palavra na carreira de um cantor tinha seu preço. Alaíde viu sua carreira oscilar entre lançamentos de álbuns e longos períodos sem gravar. O reconhecimento também não veio na medida que merecia.

Alaíde Costa, em estúdio - Bruna Bento/UOL - Bruna Bento/UOL
Imagem: Bruna Bento/UOL

Na época da bossa nova, ela batia ponto nas reuniões daquela turma branca-classe-média-zona-sul-carioca. A ponte foi feita por João Gilberto, que a viu em estúdio gravando "Conselhos". O próprio João ela só viu três vezes na vida. Quando o movimento estourou, Alaíde foi posta para escanteio.

Para a cantora, houve racismo. Anos depois ela descobriu, pelo livro "Chega de Saudade", de Ruy Castro, que, na sua ausência, era chamada de "Ameixa", por causa da cor de sua pele.

"Se eles me chamassem de 'ameixa' na minha presença, ia achar que era uma coisa carinhosa, até?", desabafa.

De todo modo, Alaíde Costa ficou marcada como uma das vozes da bossa nova. A convite da amiga, a também cantora Claudette Soares, mudou-se para São Paulo. O intuito era mercadológico: no início dos anos 1960, Claudette foi aconselhada pelo produtor Ronaldo Bôscoli a deixar o Rio e levar o então novo gênero musical para os paulistanos. Veio primeiro, e mais tarde trouxe a amiga.
Alaíde confessa que não gosta dos discos "onde tem bossa nova" de sua fase na RCA Victor -- em sua análise, as canções acabaram soando como rumbas. Ela conta que a gravadora não aceitava músicos que realmente tinham conhecimento do assunto. Até João Gilberto foi dispensado.

Na casa de Marcus Preto, segurando nas mãos alguns desses LPs, Alaíde vai relembrando as histórias por trás das gravações. A cantora olha para o bolachão de "Joia Moderna". Esse, sim, é um disco seu pela RCA VIctor que lhe dá orgulho, porque é bossa nova feita por quem dominava o gênero. O projeto só saiu porque Alaíde bateu o pé. Contrariada, a gravadora só garantiu estúdio e técnico, o resto era com ela, mas o álbum saiu do jeito que a cantora queria.

Alaíde Costa - Bruna Bento/UOL - Bruna Bento/UOL
Imagem: Bruna Bento/UOL
Alaíde Costa - Bruna Bento/UOL - Bruna Bento/UOL
Imagem: Bruna Bento/UOL

Boa memória

Para Alaíde Costa, a gravação do disco "O Anel - Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik", de 2020, simboliza o início dessa fase iluminada, a que considera "a mais importante". Até o início da pandemia, a cantora conta que fazia shows de vez em quando. Depois desse lançamento, viu seu nome ficar em evidência em outros projetos.

A síntese do momento é o lançamento do inédito "Antes e Depois", pelo selo Discobertas. Gravada em 1974 nos Estúdios Eldorado, a fita foi recuperada pelo produtor Thiago Marques Luiz e restaurada por Anderson Cesarini. Nele, Alaíde canta compositores como Ruben Rada, Astor Piazzolla e Hermeto Pascoal. "É um tipo de repertório que cantora nenhuma brasileira estava cantando naquela época. Aquilo representa bem o que ela sempre foi: corajosa", diz Marques Luiz.

Alaíde Costa, em estúdio de São Paulo - Bruna Bento/UOL - Bruna Bento/UOL
Imagem: Bruna Bento/UOL

Mas esse era um material que já existia. O que mudou mesmo a rotina de Lalá, como é carinhosamente chamada pelos amigos, foram os discos com músicas que ela teve de aprender, começando com as composições de Wisnik. Depois, vieram o álbum "Canções de Amores Paulistas - Alaíde Costa canta Eduardo Santhana", lançado em 8 de dezembro — data de seu aniversário —, e o disco de inéditas produzido por Marcus Preto e Emicida, ainda sem nome, com composições de Nando Reis, João Bosco, Ivan Lins, Céu, Joyce, Francis Hime, Guinga, João Donato e Guilherme Arantes, entre outros.

Alguns deles enviaram melodias para Emicida letrar. A de Nando Reis tem melodia composta por Alaíde. Oito canções já foram gravadas e outras duas ficaram para janeiro, embora haja material para mais. A ideia é que esse repertório dê origem a dois ou três volumes. No final de novembro, Alaíde foi ao estúdio na Vila Romana, zona oeste de São Paulo, gravar "Pedra Preciosa", de Céu e Diogo Poças, e "Ata-me", de Junio Barreto.

Alaíde conta que, depois que aprende a letra "lendo a cola" no papel, a canção automaticamente fica em sua memória. E fica tímida ao ouvir Marcus Preto falando que, quando souberam do disco, muitos compositores queriam mandar música para ela gravar. Nando Reis ficou entusiasmado com a ideia de fazer uma parceria com Alaíde - ela é a cantora predileta de seu pai e o disco "Coração" não saía da vitrola de sua casa.

Quando chega ao estúdio, Alaíde não é dada a rituais. Não aquece a voz, aceita de bom grado uma pequena dose de uísque, apelidado de "calmante", para relaxar, encontra os músicos, passa a canção uma ou duas vezes e, no aquário, grava no máximo três tomadas de cada faixa, sempre junto com a banda. Por mais que seu dia a dia esteja atualmente ocupado com novas letras para decorar, gravações, audições, suas quintas-feiras são reservadas exclusivamente para o já tradicional encontro com amigas numa sauna na Pompeia, dia da semana em que o local é frequentado só por mulheres.

Entre os amigos, Alaíde é conhecida por ser uma pessoa tranquila, mas também muito engraçada, com tiradas que arrancam risadas de quem esteja por perto. Quando encontra Claudette Soares no palco, a amiga ajuda a trazer à tona esse lado bem-humorado da tímida Alaíde. "Faço ela brincar, contar piada. Ela comigo se sente muito à vontade", comenta Claudette. Com tantos anos de estrada, Alaíde sempre tem uma boa história para contar.