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Uma estátua de bronze para Beleléu: São Paulo celebra Itamar Assumpção

Inauguração da estátua de bronze do músico Itamar Assumpção, no bairro da Penha, em São Paulo - Reinaldo Canato/UOL
Inauguração da estátua de bronze do músico Itamar Assumpção, no bairro da Penha, em São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Breno Castro Alves

Colaboração para o TAB, de São Paulo

16/12/2021 09h28

A chuva da manhã de quarta-feira (15) empurrou turbantes, tranças e dreadlocks para dentro da igreja da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na Penha, em São Paulo.

Apertadas e silenciosas, cerca de 100 pessoas assistiam à missa em homenagem ao músico e compositor Itamar Assumpção, que adotou o bairro nos anos 1970 e lá viveu até falecer em 2003, vítima de câncer, aos 53 anos.

A celebração religiosa seria o prólogo de um dia de festa, coroado pela inauguração da primeira estátua em honra ao músico.

O padre convidou a família para ficar ao centro. De mãos dadas estavam os netos Bento, Rubi e Benedito, as filhas Anelis e Celina e a companheira Zena. Ausente apenas Serena, filha que faleceu em 2016, e o neto Cauê.

Por volta das 12h e debaixo de chuva, os presentes saíram da igreja seguindo um estandarte e duas coroas. Sapatos furados e meias molhadas juntaram-se ao cortejo. Na calçada, a caminho do auditório do CCP (Centro Cultural da Penha), cruzaram a estátua instalada no jardim, coberta por tecido vermelho.

No auditório não havia lugar vazio. Os corredores estavam ocupados e os fotógrafos moviam-se de cócoras em frente ao palco. O clima era de carinho; encontros e abraços foram constantes entre a plateia. O apresentador agradeceu pelo dia, disse que chuva é benção e alguém exclamou Ora ye ye Oxum, uma saudação para Oxum, a orixá das águas doces.

O cerimonial contou com as falas de Valquiria Gama, coordenadora do CCP, Anelis Assumpção, cantora e filha mais nova do homenageado, e Aline Torres, secretária de cultura do município. Gilberto Gil e todos os seus cabelos brancos fizeram a fala final. Gil considerou Itamar um rio de espiritualidade e força cultural, "um artista maior, com profunda responsabilidade por seu povo, seus antepassados e nosso futuro". Gil estava ali também como conselheiro do MU.ITA, o Museu Itamar Assumpção.

Gilberto Gil, Zena e Anelis Assumpção e Aline Torres, secretária de cultura de São Paulo, na inauguração da estátua de bronze do músico Itamar Assumpção, no bairro da Penha  - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Gilberto Gil, Elizena Brigo (viúva), Anelis Assumpção (filha) e Aline Torres, secretária de cultura de São Paulo, na inauguração da estátua de Itamar Assumpção
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Reconhecimento inédito

Dirigido por Anelis, o MU.ITA recém completou um ano de vida. É o primeiro museu virtual dedicado a um artista negro brasileiro. O próprio CCP atualmente recebe "Afro Brasileiro Puro", a exposição de longa duração do museu. O centro cultural tem um orquidário desenhado por Zena, que dividia com Itamar o dedo verde e até hoje mora na mesma casa cheia de plantas.

Ou seja, neste dia o CCP foi um ambiente coalhado com a poesia de Itamar em múltiplas plataformas — uma escala de reconhecimento que ele não encontrou em vida. Poeta prolífico que se negava a institucionalizar e pagou o preço por isso, faleceu com vasta obra escrita e nenhum disco impresso para vender.

Após a fala de Gil, o foco se moveu para a estátua. Às 13h, o pano vermelho foi ao chão. Lá estava Beleléu de bronze em tamanho natural, microfone na mão e óculos escuros, camisa aberta, a ginga de seu corpo magro.

Foi esculpida por Leandro Jr., artista plástico que já expôs em Nova York e é professor de artes na comunidade quilombola de Cuba, no Vale do Jequitinhonha, de onde recolheu o barro onde moldou Itamar. A família acompanhou de perto a feitura. Anelis escolheu os óculos escuros e a ginga.

O artista propõe o barro como opção política, inclusive nas telas. Leandro trocou a tinta a óleo por pigmentos de terra e o resultado é surpreendentemente colorido. Artista jovem, às 13h10 ele estava no gramado apenas assistindo à inauguração de sua obra quando um amigo providencial lhe soprou que ali estava Gilberto Gil em estado de cosmos, tirando fotos com sua estátua, talvez valesse a pena fazer imagem com o griô. Foi sorrindo.

Leandro Jr., criador da obra, posa com estátua de bronze do músico Itamar Assumpção, inaugurada no bairro da Penha, em São Paulo - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Leandro Jr., criador da estátua que criou do músico Itamar Assumpção, na Penha
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

'Dá licença, pai?'

A reportagem de TAB conseguiu conversar brevemente com Anelis, pedindo que comentasse seus movimentos de afastamento e aproximação com a obra do pai. Ela entende a necessidade de tomar distância para ouvir melhor sua própria voz, que Itamar e seus pensamentos ainda são muito presentes. "Às vezes eu preciso dizer 'nossa, pai, dá licença, dá um tempo para eu ir ali fazer um disco, por favor?'".

Bento, um dos netos de Itamar, chocou-se com a felicidade do movimento que encontrou. Ele, que chegou às 10h e sairia apenas às 20h, apoiava a reposição de estoque da lojinha que o MU.ITA armou no saguão. Seu nome é Bento Assumpção Mondeville, tem 16 anos e conversa com a reportagem de TAB no orquidário desenhado por sua avó.

Lambe-lambes de Itamar Assumpção na fachada do Centro Cultural Penha, onde foi instalada uma estátua em homenagem ao compositor - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Lambe-lambes de Itamar Assumpção na fachada do Centro Cultural Penha
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

"A Penha sempre esteve no Itamar, mas não de forma física. Representar no ambiente algo que te conecte com essa arte funciona como um resgate, uma reivindicação moral dele e da obra", dizem os olhos doces do menino que carrega sardas no rosto e um cabelo enorme.

Bento está feliz. Há poucas semanas sua escola propôs, como exercício, que a turma inventasse um monumento para a cidade, que discutisse critérios e possibilidades para a criação de uma praça renovada. Agora, dias depois, conversa com a reportagem como um dos protagonistas deste novo monumento.

Entre as 14h30 e as 20h o CCP ainda recebeu quatro apresentações musicais: Pastoras do Rosário, Bloco da Micaela, Anelis Assumpção (com participação de Rincón Sapiência) e Bloco Afro Ilú Obá De Min.

Aline Torres ainda lembrou que essa é a primeira de cinco estátuas de personalidades negras que a prefeitura está implantando. Disse que o projeto não é uma resposta ao incêndio na estátua de Borba Gato, mas reflexo do momento que debate questões de representatividade também na ocupação do espaço público.