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Após censura, a saga de Paulo Cesar de Araújo para biografar Roberto Carlos

Roberto Carlos para Paulo Cesar de Araujo no último (e dramático) encontro: "Livro fica pra sempre" - Lucas Seixas/UOL
Roberto Carlos para Paulo Cesar de Araujo no último (e dramático) encontro: "Livro fica pra sempre"
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Tiago Dias

Do TAB

23/04/2021 04h00

A última vez que Paulo Cesar de Araújo esteve frente a frente com Roberto Carlos foi dentro de uma sala da 20ª Vara do Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Era 27 de abril de 2007. Inicialmente, a audiência de conciliação aconteceria no dia 13, mas, supersticioso, Roberto pediu uma nova data. Naquele dia, eles não se cumprimentaram e Paulo Cesar suspeitava que o cantor sequer sabia quem das pessoas presentes era seu biógrafo — e, ali, alvo de uma ação no âmbito cível e criminal.

Após anos tentando ouvir o cantor para o livro "Roberto Carlos em Detalhes", lançado quatro meses antes, o biografado finalmente estava a alguns passos, devidamente vestido de Roberto Carlos: calça jeans, terno azul e tênis branco. Paulo Cesar automaticamente se lembrou da capa do disco de 1973, que viu pela primeira vez aos 11 anos, na casa de uma vizinha mais abastada que ele. Estava com semblante sério.

O cantor pedia uma alta indenização em dinheiro e a condenação de Paulo Cesar a uma pena que, segundo seus advogados, poderia chegar a dois anos de prisão, sob acusação de ilícitos contra sua privacidade, honra e imagem. De um lado, pesquisadores e profissionais da música viam no livro um trabalho irretocável, que dava ao cantor o devido valor que a crítica sempre negou. Do outro, Roberto dizia em frente ao juiz: "Vocês pensaram que podiam mesmo publicar essa biografia sem minha autorização? Com eu aqui vivo?", disse, batendo a mão no peito. "A minha história é um patrimônio meu."

Ele se ressentia das histórias mais íntimas retratadas no livro, como romances do passado e detalhes da doença de sua mulher Maria Rita (morta em 1999). Paulo Cesar argumentou que aquelas informações haviam sido publicadas antes em revistas na época, sem nenhum questionamento. Roberto Carlos rebateu: "Livro é diferente, é algo que fica pra sempre".

"Ali foi mais que o Roberto, foi o homem", Paulo Cesar diz hoje. "Não era o Roberto da Globo, sempre sorrindo, fazendo piadinha. Eu nunca tinha visto Roberto tanto tempo sério."

A conciliação se deu nos seguintes termos: aconselhada pelo juiz, a editora Planeta deveria se comprometer a não mais publicar, distribuir e comercializar o livro. Roberto Carlos quis mais: para desistir do pedido de indenização e da cobrança de multa, solicitava os 10 mil exemplares que a editora tinha em estoque. "Eu via uma incompatibilidade entre essa obra maior e ideias tão rasteiras, uma visão de mundo tão pequena. Como é que esse cara que escreveu 'Jesus Cristo' e 'Detalhes' podia estar falando aquelas barbaridades?", recorda-se o escritor.

O acordo era um bom negócio para a Planeta, mas uma perda irreparável para a liberdade de expressão. Representado apenas pelos advogados da editora, o escritor percebeu que seu maior trabalho, um best-seller, estava prestes a virar pó em tão pouco tempo. E chorou. "Eu me senti só numa audiência com um juiz parcial, o artista querendo queimar livros, a editora lavando as mãos. Naquele ambiente hostil, eu sucumbi. Chorei pela situação absurda. Não foi um choro por causa do Roberto."

A ação terminou com o juiz, músico nas horas vagas, distribuindo um CD de sua autoria para os presentes da sala, inclusive para o cantor e o réu. Queria a opinião sincera de profissionais da área. E, claro, uma foto com o Rei.

Os efeitos do processo foram vários, mas Paulo Cesar nunca parou a pesquisa: "Sou um profissional da memória. Não tenho raivinha"" - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Outra vez

Quatorze anos depois, Paulo Cesar está com os olhos voltados para os boletos. "Hoje é dia de pagar conta. Aqui no Estado do Rio, a gente recebe na metade do mês", diz, com os óculos quase na ponta do nariz, cercado de CDs, vinis e livros, no escritório que mantém no seu apartamento perto da praia, em Niterói.

É nesse ambiente que o jornalista e escritor, mestre em memória social e doutorando em ciência política, passa a maior parte do tempo dando aulas online como professor de História da MPB na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e de História na rede Faetec — desde 1994, seu principal ganha-pão e a atividade que segurou a bronca após a tumultuada experiência na Justiça.

Os efeitos da ação que causou indignação no meio jurídico e artístico foram vários. "Se não tivesse havido a ditadura, aqueles presos políticos teriam feito outras coisas. Quantos destinos mudaram ali? A História é isso, você é arrastado pela História. Eu poderia ter deixado tudo de lado também, mas meu comportamento é outro, é de resistência", observa.

A penúria foi esmiuçada em "O Réu e o Rei", seu livro de "exílio", lançado em 2014, e ajudou a guiar a discussão em torno das biografias não autorizadas, que em 2015 levou o STF a considerar inconstitucional a aplicação da autorização prévia do retratado. O tribunal reconheceu que a exigência representaria uma censura, o que é incompatível com a Constituição.

Nos últimos dois anos não foi diferente. No intervalo das aulas, Paulo Cesar continuou com a lupa sobre o artista. "Eu sou um profissional da memória. Não fui tomado por mágoa ou raivinha. Não tem esse negócio comigo. Eu não brigo com fonte. Minha memória afetiva também não mudou, a música não ficou feia", ele pontua.

Há algumas semanas, o escritor botou o ponto final na obra definitiva sobre seu maior objeto de estudo. Resgatou o material do primeiro livro, ouviu novamente as 173 entrevistas e ampliou mais ainda a pesquisa. O primeiro volume chega às livrarias em maio, pela editora Record, e leva o nome de "Roberto Carlos, Outra Vez", referência ao sucesso popular de Roberto, de autoria de Isolda, mas também à própria saga. "O outro livro não morre. Daqui a 50 anos, quando ninguém se lembrar de nada, tem essa pista: porque 'outra vez'?".

Paulo Cesar ouviu Roberto Carlos no natal de 1965. As músicas ainda trazem lembranças da infância pobre em Vitória da Conquista (BA) - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Agora, a história de Roberto é contada a partir das canções, declaradamente inspiradas na própria vida do compositor. "Essa coisa de compartilhar com o público seus amores e suas dores criou essa intimidade, essa confiança. Todo compositor é biográfico, mas ele é mais. As canções dele me conduziram a isso", explica, mostrando o calhamaço de páginas.

Para Paulo Cesar, o foco do que é Roberto Carlos tem se perdido com o passar do tempo. Seja pelo TOC, pelas fofocas ou polêmicas. "Ele é o que é hoje porque ele fez essas canções. Foi isso que o tornou Rei. E esse patrimônio é coletivo, foi incorporado ao patrimônio brasileiro."

Detalhes tão pequenos

Paulo Cesar de Araújo se lembra até hoje da primeira vez que ouviu Roberto Carlos. Era Natal de 1965 e as rádios não paravam de tocar "Quero que vá tudo pro inferno", o que o levou durante anos a associar a figura do Papai Noel ao inferno.

De origem humilde, vivia com a mãe e os irmãos em Vitória da Conquista, no interior da Bahia, sem pai, vitrola e TV, apenas um rádio. Hoje, aos 59 anos, ele sente efeitos sinestésicos ao ouvir aquelas canções. "Jesus Cristo" marcou a época do primeiro emprego, como engraxate. Já "Detalhes" ainda hoje traz à tona o cheiro da cera no piso da casa dos avós. "Estou vendo a cena aqui agora", diz, ao relembrar os episódios da época.

Não demorou para ele ser visto pelos amigos como uma referência quando o assunto era o ídolo da Jovem Guarda. Certa vez, numa conversa sobre namoradinhas com os amigos, um "cara de pau" apontou para ele: "Esse namora é com o Roberto Carlos". A gracinha o incomodava. Assim como o incomoda quando alguém o chama de "fã". "Vocês insistem nessa coisa de fã", diz, contrariado, mas sem perder o bom humor. "Por que vocês não falam que todo livro do Chico Buarque é escrito por fã? A palavra fã está mais associada a Roberto. Se está fazendo uma coisa positiva do Roberto, deve ser fã", diz.

Percebeu isso com clareza quando era estudante de jornalismo na PUC-Rio e desenvolveu os primeiros trabalhos dedicados à música realmente popular. Seu primeiro livro, "Não sou Cachorro, Não", já era uma análise social e comportamental da chamada música brega, que vendia como água, mas era esnobada em estudos e debates intelectuais. "A memória produzida sobre a música popular é autoritária e excludente. O tratamento que esses cantores bregas e o Roberto Carlos recebiam e recebem é resultado disso", explica.

Biógrafo volta a se dedicar ao seu maior objeto de estudo com o novo livro "Roberto Carlos, Outra Vez" - Lucas Seixas/UOL - Lucas Seixas/UOL
Imagem: Lucas Seixas/UOL

Com 80 anos de Roberto, Paulo Cesar segue firme com o objetivo de enaltecer a obra do artista que mais influenciou o comportamento do brasileiro e ajudou a criar o imaginário de todo um país. Teria ele ficado menos conservador? "Isso não muda, não. Não é à toa que chega 2018 e ele vota em Bolsonaro. Aquela visão autoritária da história combina com o personagem dele", responde.

Às voltas de mais um lançamento, ele mantém a esperança de que o biografado possa finalmente conhecer seu trabalho. Apesar da briga na Justiça, ele acredita que Roberto, que já disse não ter o costume de ler livros, sequer abriu a primeira biografia. "É possível haver esse encontro do Roberto consigo mesmo. Se ele se permitir, vai ser uma revelação pra ele. A história tem esse poder."

No último encontro entre os dois, Roberto Carlos, em dado momento, chegou a apontar o dedo na direção do réu: "Paulo Cesar, me conhecendo como você me conhece, você sabia que ia me magoar com este livro". Hoje, o escritor acha que o risco ainda existe, mas lança mão dos versos da canção "Nossa Senhora" para sintetizar a relação entre biógrafo e biografado: "Se ficaram mágoas em mim, mãe, tira do meu coração / E àqueles que eu fiz sofrer, peço perdão."

"Eu espero que a prece dele tenha sido atendida", torce o biógrafo.