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Entre crânios e crimes, Ilana Casoy desvenda enigmas além do bem e do mal

Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Tiago Dias

Do TAB

23/02/2021 04h00

Na tarde em que recebeu a reportagem de TAB, Ilana Casoy, uma das principais criminólogas no Brasil, vestia preto, em contraste com o cabelo loiro. Carregava na correntinha do pescoço, entre pingentes e pequenos patuás, a imagem de uma caveira.

Estava em seu escritório, cercada de livros, anotações e alguns crânios. Descarnados, são objeto de decoração junto com adagas e souvenires. Por acompanhar investigações criminais de perto e sentar cara a cara com autores de crimes hediondos, é como se ela própria emanasse mistério.

O cenário é um deleite para quem gosta da literalidade das coisas, perfeito para uma sessão de fotos com referências do universo do suspense, mas ela logo interrompe. "Já sou esquisita, não quero ficar reduzida a essa figura assustadora", diz, firme. "Sou um doce", revela, abrindo um sorriso.

Ilana trata os mais próximos com "meu querido" e "meu amor". É bem-humorada e sagaz: responde de bate-pronto, pontua a fala com perguntas retóricas e, quando quer demonstrar indignação, solta ironias e eleva o tom da voz grave — timbre bom para narrar histórias de terror, mas que tirou dela um sonho de garota: ser a primeira voz no coral da escola.

Durante uma investigação, um delegado quis saber dela quando um assassino foragido pararia de matar. A resposta: "Eu não tenho bola de cristal". Quando isso acontece, Eduardo Morales, seu secretário e braço direito desde 2004, costuma lhe mandar um sinal. Já chegou a escrever "Mocinha", em um pedaço de papel, para Ilana ler de longe num momento de impaciência. "Aí ela sabe que está se excedendo", diz seu braço direito.

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Imagem: Fernando Moraes/UOL

Sua personalidade, ela avalia, serve muito bem para o que escolheu fazer. Ilana Casoy deixou de ser dona de casa para se tornar peça-chave em investigações da Polícia Civil, traçando perfis de criminosos e vítimas e ajudando a solucionar crimes. O resultado está detalhado em seis livros que, somados, já venderam mais de 100 mil cópias pela editora Darkside e deram início à febre true crime no Brasil. Essa bagagem emprestou veracidade à série "Bom dia, Verônica", sensação de 2020 baseada no livro homônimo, escrito com Raphael Montes, que tocou fundo na violência de gênero.

Aos 60, ela garante que escreveria uma bíblia sobre o quanto sofreu com machismo — "aos 30, eu diria que todo mundo é legal", diz, acomodada em um sofá branco, em seu apartamento num bairro de classe média-alta em São Paulo. Ela pede para a reportagem não localizá-lo. Desde que entrou virou referência em criminologia, sofreu com ameaças e stalkers. "Não quero mais isso", diz.

Escritora e criminóloga Ilana Casoy deixou de ser dona de casa para mergulhar e pesquisar o mundo do crime - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Crime e Castigo

Ilana perdeu as contas de quantos assassinos já entrevistou. Um dos primeiros foi Marcelo Costa de Andrade, o Vampiro de Niterói. Na conversa, dentro de um manicômio, ele falou de filmes da Disney e detalhes do que fez com as 14 crianças que matou. "Saí no meio para vomitar. É difícil ouvir."

Aprendeu com outro criminoso, Chico Picadinho, que é preciso abandonar preconceitos na escuta. Falaram até de Dostoiévski. "Ele é um cara cultíssimo, faz yoga, se levantava cada vez que eu entrava na sala. Jamais diriam que ele matou uma mosca, mas aquelas mãos picaram pessoas."

Pedrinho Matador, lenda no sistema penitenciário, foi repreendido quando tentou enfiar uma bala em sua boca. "Não te dei permissão", bradou Ilana, pegando no braço do assassino. Ela ri do próprio impulso. "Dar bronca em um cara que matou cem pessoas? Jura? Fala sério." Solto em 2019, de vez em quando ele lhe manda mensagens de áudio.

Quando o papo cai em trivialidades, os policiais da escolta geralmente vão tomar um café. "Eu não. Tenho todo o tempo. Se ele quiser falar de gibi da infância, eu quero ouvir. Quanto menos você julgar, mais a pessoa vai contar quem ela é."

Essa preocupação a levou a apresentar a série "Em Nome da Justiça" (exibida na AXN e Record), sobre casos onde o réu é inocente. "Me interesso pela dúvida. Tenho medo de quem tem muita certeza."

Ao contar histórias densas, diz que o objetivo é provocar. O mal e o bem existem, "mas também tem o meio, que é enorme", diz ela, com o gesto de abrir um espaço entre o polegar e o indicador. "O ser humano me intriga em tudo." Talvez por isso ela faça análise há tantas décadas. "Graças a Deus. Como é que você segura uma intriga dessas?".

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Imagem: Fernando Moraes/UOL

Mulher do mundo

Ilana nasceu numa família judaica, filha mais velha de três irmãos. O pai era um profissional liberal, com quem ela trabalhou depois de se formar em administração. A mãe, ela diz, era uma legítima "Amélia". Lembra até hoje, quando, aos três anos, o tio, o jornalista Boris Casoy, entrou em casa com a notícia de que o presidente norte-americano John Kennedy havia sido assassinado.

Cresceu devorando livros de Agatha Christie e séries médicas. Queria ser médica-legista, mas ficou noiva aos 18 anos do engenheiro Jacques Feller. O casamento durou mais de três décadas. Manteve, como hobby, o hábito de escrever contos de amor, poesias e histórias infantis. Aos 40, teve uma crise. Parou tudo para escrever. Escolheu o tema que mais lhe interessava e foi mais fundo.

Fez o curso de perícia na Academia de Polícia do Estado de São Paulo como ouvinte e passou quase todo o ano de 2002 dentro de uma viatura, acompanhando investigadores nas cenas de crimes. "Quantas vezes meu filho ligava, e eu dentro da viatura, com a sirene tocando 'ué ué ué'", diz, girando o dedo no ar. Em casa, todo dia tinha uma novidade no jantar.

No início da carreira, uma revista descreveu Ilana como "uma grã-fina no mundo do crime". Hoje, ela diz ter uma vida mais simples. Seu filho caçula, o advogado criminalista Marcelo Feller, 34, lembra de um ambiente de luxos — e de uma "mãe em tempo integral". "De repente, ela virou uma mulher muito mais interessante", diz. O talento para descrever criminosos e olhar para além do buraco da fechadura acabou sendo reconhecido como útil entre os peritos.

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Imagem: Fernando Moraes/UOL

Esperando Suzane

A pandemia lembrou Ilana da morte do pai, uma das primeiras vítimas da H1N1 no país. Ela segue isolada desde março de 2020 porque já teve duas paradas respiratórias, causadas por um problema na glote. A primeira foi durante uma endoscopia. "Fiquei no respirador, e quando você está na máquina você não respira. Já pensou nisso?", me pergunta. "Provavelmente, não." Sem conseguir falar, no hospital, pediu papel e caneta para expressar sua maior preocupação ao acordar: "Tenho de dar uma palestra hoje".

Ela confessa que tem dias de isolamento em que acorda socando o colchão, mas só abre exceções para a visita das netas. "Você consegue me imaginar com covid-19? Parar num pronto-socorro, com uma intubação de emergência? Eu vou morrer, cara!", diz. Indignada, repete uma frase que tem ouvido muito: "'Ah, mas o restaurante tem mesa ao ar livre'. Parabéns! Mas você concorda que eu tenho que ficar isolada?".

Esse estado de coisas atrapalhou a estreia de Ilana no cinema como roteirista dos filmes "A menina que matou os pais" e "O menino que matou meus pais", sobre as versões de Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos para o crime que chocou o país em 2002.

Só o trailer já causou alvoroço por supostamente "romantizar" o caso. Ela apoia os cotovelos nos joelhos, com as pernas abertas, e a mão segura o isqueiro. "Pasmem, gente. Assassinos em série têm mãe, pai, filho, choram, sentem. Então, você tem medo de descobrir que ele é uma pessoa humana? Talvez seja isso."

O perito criminal Ricardo Salada diz que a escritora, única pessoa fora do meio policial a acompanhar os trabalhos, foi peça fundamental no caso. "O policial, de modo geral, tem uma linha de raciocínio meio fechada", diz. Com o processo na cabeça, ela destrinchou a história em "O Quinto Mandamento", em que joga luz no trabalho da polícia científica, que até então andava às mínguas.

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Imagem: Fernando Moraes/UOL

Ser estranha não é crime

Ilana guarda muitos cadernos de anotação. São rabiscos e desenhos que a fazem lembrar de cada caso. Em uma das folhas, fez um autorretrato à caneta: cabelos longos, semblante triste e lágrimas no rosto. O registro foi feito durante o júri do caso Nardoni. Sem confissão, a acusação foi feita em cima da perícia.

Agora, ela quer completar seu giro no sistema judiciário com um livro escrito a partir da defesa, que considera um ato heroico no Brasil. "A gente vive numa sociedade que banalizou muito a violência e é muito punitiva. Totalmente Datena", diz. É o caso de Gil Rugai, cuja condenação definitiva pelos homicídios do pai e da madrasta, em 2004, foi mantida pelo STF, em agosto passado. Ela integrou o time de defesa a convite do filho e lamenta o desfecho do caso.

Gil tinha um álibi, mas a hora do crime nunca foi estabelecida com precisão. "O discurso da promotoria não usou nenhuma prova, só o discurso do psicopata", diz. "Ele é meio estranho — e eu também — mas ser estranho ainda não é crime. Ele não é o tipo que sentaria com você no bar, mas eu quero saber se ele matou ou não, não se ele é bacana ou simpático."

Por isso, diz não gostar de estudos que cravam juízos a partir do comportamento dos acusados. "Outro dia ouvi que quem olha para a direita provavelmente está mentindo", diz, olhando para o lado. "Se a polícia me colocar para interrogatório, vou ficar super nervosa. Isso quer dizer que eu fiz? E se eu ficar muito calma? Quer dizer também", diz, estreitando o olhar.

Atenta, Ilana observa todos os movimentos, mas mantém o olhar no interlocutor sempre que este está a falar. A mão quase sempre segura um cigarro Marlboro vermelho, que ela pede para não sair nas fotos: "Salvem as crianças", diz, acendendo outro.

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Imagem: Fernando Moraes/UOL

No escritório, uma bola de pilates parece destoar da decoração, mas é primordial quando a coluna grita. Ilana passa a maior parte do tempo sentada — o que piorou com a sala de roteiro diária, feita à distância, da nova temporada de "Verônica". A única cláusula no contrato com a Netflix é que os crimes reais têm prioridade. "Se a polícia precisar da minha ajuda, não posso virar e dizer: 'calma aí que estou escrevendo um roteiro'."

Na tela do computador, o que aparece é um jogo de paciência russa em andamento — "um negócio louco, que você não ganha nada". Nenhum material criminal está exposto, cuidado que ela tem desde que Marcelo, aos 15, mexeu numa caixa de fotos. "Mas se for mexer no meu celular, vai ver o que não deve", adverte.

Apesar de guardar nas caixas e prateleiras histórias e detalhes horripilantes, ela afirma ser uma pessoa tranquila, ainda que de vez em quando chore e sonhe com os casos que participa. "Sempre acho que vai dar tudo certo. Olha o nível de problema que tem no universo!"

Essa convicção veio com força quando se aproximou dos 60. Na época, começou a namorar o arquiteto e escritor Carlos Alberto Ribeiro De Lima, seu namoradinho da infância, reencontrado décadas depois nas redes sociais. Diz que só agora se sente a mulher que queria ser. "Eu não fui a mesma durante esses anos. Comecei a namorar e nem era maior de idade, cara. Então faltou um pedaço."

A tarde cai, e é preciso tirar foto antes que a luz se esvaia. Mais uma vez, ela faz observações sobre a pose. "Tenho muita esperança na vida, por isso me preocupo. Só lida bem com a morte quem lida bem com a vida, entendeu?", ela diz. Vira o rosto com um sorriso: "Estranho é quem não olha pra si".

Livros de Ilana Casoy

Quer comprar as obras da autora, veja algumas delas:

Bom dia, Verônica

Serial killers: louco ou cruel? e Serial killers: made in Brazil

Casos de Família: arquivos Richthofen e arquivos Nardoni

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