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OPINIÃO

Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, em 2023

Cidades podem decidir juntas sobre Carnaval de 2022 Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
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Matheus Pichonelli

Colunista do UOL

05/01/2022 04h00

Meu filho me perguntou no começo da semana se a pandemia tinha acabado.

Estávamos num lugar aberto e as máscaras anti-covid, quando haviam, pareciam ter se transformado em adereço para bolsos, pescoços e orelhas. O distanciamento social era medido em centímetros, e não mais com as marcas de um metro e meio.

Ano passado, uma hora dessas, lembro do esquema de guerra para poder visitar parte da família, isolada desde março de 2020. Ficamos num hotel com todos os protocolos existentes e inexistentes. Entrávamos na casa das avós para dar oi de longe. Levávamos nosso próprio copo descartável. E nossa própria garrafa de água. Álcool em gel era o nosso perfume, sem contar as máscaras e as luvas descartáveis sacadas sempre que a situação exigia.

Lembro de, numa dessas visitas, ter encontrado e abraçado um amigo, meio que por impulso; passei três dias sob tensão à espera dos primeiros sintomas.

Neste ano, desde que os adultos da casa tomaram a segunda dose da vacina, o relaxamento foi inevitável. As viagens se tornaram mais recorrentes. As festinhas para no máximo quatro pessoas do ano passado viram o número de participantes se expandir. Quem oferece alguma bebida em seu próprio copo já não parece apontar uma arma no rosto das visitas. Os abraços andam menos econômicos — como era na vida antes de 2020, quando as demonstrações de afeto à brasileira marcavam nossa identidade como uma troca permanente de fluidos corporais.

Desde o início da pandemia fala-se que, ao final dela, o Brasil atualizará o software do Carnaval de 1920 — registrada por alguns historiadores como a maior celebração de todos os tempos e, não por coincidência, ocorrida ao fim de uma outra pandemia, a da gripe espanhola. As imagens gravadas da época podem provar.

Como uma mola comprimida que se quer expandir, a apoteose é aguardada como uma espécie de indenização pelos dias de reclusão. E já mobiliza grupos conservadores e haters da festa popular que tentam associar a propagação do vírus ao sacrilégio de quem bota o corpo para dançar durante quatro míseros dias do ano.

Seria, claro, uma falsa discussão se a pandemia estivesse mais controlada do que realmente está. Afinal, a essa altura, ninguém está proibido, sob risco de multa, de trabalhar, frequentar cultos, circular pelos centros comerciais e cumprir com todo o fervor a performance de cidadão de bem.

Acontece que o Carnaval não é só um cordão a separar pecadores infiéis de trabalhadores injustiçados. É uma celebração que potencializa e movimenta esqueletos, almas sedentas de encontros, amizades que já não circulam pelos espaços públicos; movimenta também o comércio, a indústria da música. A economia, enfim.

O nó é que, diferentemente de outros encontros presenciais, não se pula Carnaval desejando a paz de Cristo ao amiguinho ao lado. A chance de o vírus se espalhar como bomba é razoável.

Neste ano, os impasses relacionados à covid levaram a cervejaria Ambev a notificar a Prefeitura do Rio pedindo um posicionamento sobre o Carnaval de rua.

A preocupação faz sentido. Em dezembro, mês marcado pelas festas de fim de ano, viagens, despedidas e confraternizações, o número de contaminação no país voltou a subir. Hospitais estão lotados novamente.

Não fosse a vacinação, a bomba relógio que todo mundo em algum momento ajudou a acionar se converteria em uma carnificina, como foi no começo do ano passado. Vacinas salvam, podem evitar agravamento do quadro e as internações; mas não fazem milagres.

Diferentemente de 1920, quando o mundo ainda era um arquipélago de pequenos mundos distantes e sem tantos habitantes, a velocidade de circulação de corpos, produtos e serviços que marcam a sociedade contemporânea manda a todo tempo a fatura das disparidades econômicas e geopolíticas. Regiões onde a vacinação não avança são terrenos férteis para novas variantes do vírus — o que ameaça nações supostamente protegidas, num efeito cascata que em vez de desfechos transforma a crise do coronavírus em um grande dia da marmota, agravada pela propagação de outros vírus que já mandam um "oi sumidos" à medida que saímos das tocas.

Com tanta preocupação, é compreensível que muitos gestores públicos tenham anunciado o cancelamento das festas. Isso aconteceu em Belo Horizonte, Curitiba, Campo Grande, Fortaleza e (pecado dos pecados) Salvador.

Rio e São Paulo são exemplos do dilema. Na capital fluminense, após o pedido de posição da Ambev, o prefeito Eduardo Paes cancelou o Carnaval de rua, mas manteve (por enquanto) os desfiles no Sambódromo. Há quem aposte que este será o Carnaval com o maior número de blocos secretos da história. Alguns não serão tão secretos assim. Em São Paulo, mais de 600 blocos de rua ainda estão autorizados a desfilar. A festa pode parar no Autódromo de Interlagos.

E, nos casarões abarrotados de ricaços e influencers, certamente, ninguém vai levantar barreiras sanitárias à entrada — nem exigir passaporte vacinal, como pedem as autoridades.

Depois de dois anos, vai ser difícil conter o som e a fúria de foliões. Se descambar para o lado moralista da força, essa discussão, que deve ser feita sempre sob o olhar da saúde pública e coletiva, não tem como prosperar. Hoje a avaliação dos secretários de Saúde é que o melhor a fazer é cancelar o Carnaval.

É estranho pensar em normalidade das rotinas quando a maior festa popular do país segue suspensa? É. Mas, por enquanto, os riscos envolvidos não valem a alegria. Quem sabe no ano que vem?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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