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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sob chuvas e escombros, Minas revela nação refém da ganância e do abandono

Casarão histórico destruído devido a um deslizamento de terra na cidade de Ouro Preto (MG) - Ane Souza/Folhapress
Casarão histórico destruído devido a um deslizamento de terra na cidade de Ouro Preto (MG) Imagem: Ane Souza/Folhapress
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do TAB

14/01/2022 04h01

Tínhamos chegado a Capitólio, já no fim da tarde, e o Waze apontava que faltavam ainda duas horas para o destino.

Refeito o cálculo, começava a fazer sentido que o rancho alugado à beira da represa de Furnas, encontrado numa busca na internet, tivesse saído tão mais barato que os locais mais badalados da cidade turística. Fazia sentido também a velha máxima de que, para os mineiros, tudo é pertinho, logo ali. Nosso objetivo era passar o fim de ano em Capitólio ou num lugar perto dali. Mas a estadia parecia ficar do outro lado do mundo.

No fim, não foi mau negócio andar um pouco mais e fugir do hype dos passeios nos cânions, pousadas e restaurantes de preços abusivos. Para não perder a viagem, estacionamos o carro junto a uma fileira de automóveis manobrados à beira de um precipício de pedras rochosas para almoçar.

Lá de cima era possível ver os barcos circulando ao som de música sertaneja. Havia um pouco de tudo, menos sossego — o que precisávamos para reabastecer as baterias de um ano cheio.

"Quem comprou terreno aqui há alguns anos hoje é dono de uma mina", disse meu pai, ao observar a fila para conhecer um dos muitos mirantes de uma fazenda.

Uma mina. Parecia irônica a referência ao nome que batiza o estado. Minas Gerais.

Dias depois, já em casa, vimos com assombro o deslocamento de uma rocha em Capitólio em direção aos barcos que navegavam na represa, similares aos que queríamos alugar se nosso plano tivesse dado certo. Dez pessoas morreram na tragédia que poderia ser evitada se as autoridades tivessem decidido que a grana que jorra daquela mina valesse ao menos a segurança dos turistas.

Não sei dizer o quanto a multidão que ocupa a cidade impacta o movimento natural daquelas encostas, mas é fato que o movimento natural das encostas, em dias de chuva, não comporta tanta gente.

Como explicou um geólogo a um programa de TV, aquela era uma tragédia adivinhável: as chuvas torrenciais elevam a pressão hidrostática sobre o maciço rochoso, o que provoca o desabamento de blocos. Absurdo é ter alguém logo abaixo, como se as fissuras já não fossem alerta suficiente.

A mina de dinheiro tem também suas maldições. No começo do ano passado, duas turistas foram encontradas mortas na cidade, após uma cabeça d'água, um dos efeitos da chuva, atingir a cachoeira de Cascatinha.

Por ironia trágica, foi justamente a ação milenar das chuvas, que roeram os filões de ouro das rochas e os depositou nos rios, no fundo dos vales e nas depressões de montanhas, que levou os primeiros exploradores a identificar os traços de ouro aluvial em quantidades visíveis para lá da Serra da Mantiqueira. Era o começo da história da ocupação de Minas Gerais.

Ao longo do século 18, a produção brasileira do metal já superava o volume total de ouro que a Espanha extraía de suas colônias nos dois séculos anteriores. É o que conta Eduardo Galeano no livro "As Veias Abertas da América Latina", citado por aqui em coluna recente.

Ali, como turista, era difícil não conectar a atividade mineradora do passado e do presente com as minas de dinheiro dos passeios turísticos.

O problema é que nem sempre é prosperidade o que se vê ao fim dos ciclos de exploração econômica.

Na região de Ouro Preto, símbolo maior da febre dos metais — e onde Bauxita é nome de bairro —, Galeano conta que "apenas a explosão do talento restou como lembrança da vertigem do ouro, para não mencionar os buracos das escavações e as pequenas cidades abandonadas".

Esse buraco ficou ainda mais escancarado desde quinta-feira (13), quando um barranco desmoronou com o efeito das chuvas e destruiu sem dó um casarão do século 19, a primeira construção de estilo neocolonial da cidade, datada de 1800. O imóvel que ruiu tinha forro almofadado com madeira de lei.

A natureza mandou a conta da negligência — embora isoladas devido aos riscos de desabamento, as construções poderiam ter sido salvas por telas e muros de contenção. Estavam a perigo. A perigo ficaram.

Ninguém ali se feriu. Não dessa vez.

As águas férreas, hoje nome de rua, seguem provocando interdições em Ouro Preto, cidade também cercada por barragens, como a vizinha Mariana.

No livro, publicado em 1971, Galeano vaticinava que o ferro não deixaria nada pela região além do que deixou o ouro. E lembrava uma sentença do mineralogista francês Henri Gorceix, segundo quem "Minas Gerais tinha um coração de ouro num peito de ferro".

No coração do Brasil, esse peito de ferro, um pote até aqui de águas sujas das barragens, tem nos rastros de Mariana e Brumadinho a atualização mais desastrosa dos instintos predatórios nacionais. Há quem, cinicamente, chame o assassinato provocado pelas grandes mineradoras do país de acidente. Esse assassinato tem no atestado o conluio com grupos políticos que se revezam no poder no estado.

A grana que ergue e destrói coisas belas também mata. Como evitar as próximas tragédias se nem o edifício da História ficou de pé?

Parafraseando o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, é por isso que somos uma nação triste, orgulhosa. De ferro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL