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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BBB 22 inaugura a temporada de tretas do calendário nacional

Tadeu Schimidt na casa BBB 22 (Divulgação)  - Reprodução / Internet
Tadeu Schimidt na casa BBB 22 (Divulgação) Imagem: Reprodução / Internet
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

19/01/2022 04h00

Eu, você, minha mãe, meu tio e meu filho de oito anos recebemos no WhatsApp, semana passada, o calendário oficial das tretas de 2022. A essência é a mesma das tabelas de 2021, 2020, 2019 e assim sucessivamente até pelo menos 2002, quando foi ao ar a primeira edição do Big Brother Brasil — ainda na era pré-Facebook.

De lá pra cá, o ano só começa quando alguém chuta a primeira bola quicando da briga entre "assistir ao reality show x ler um livro". As leis da física, da semiótica e da economia de atenção nada dizem sobre a incompatibilidade de ocupar os dois programas no mesmo córtex cerebral, mas não importa: nessas horas o que se quer é um passaporte de distinção para atravessar o ano pensando ser mais inteligente do que a massa de audiência supostamente alienada.

A discussão, como todos os anos, não chega a lugar algum, mas preenche com paus e pedras o vácuo existencial dos primeiros dias do ano.

A exibição do programa coincide com a chegada dos dias mais quentes do ano, em janeiro. É hora de pegar em armas e marcar posição na treta calor: amo x odeio. (Nunca vou me esquecer do dia em que confessei em voz alta que sentia falta do frio e fui acusado de insensibilidade com as pessoas que dormiam sem agasalho nas ruas).

Até dezembro, outras tretas virão. Em fevereiro passaremos pelo choque entre quem ama e quem odeia Carnaval, a batalha de Waterloo do nosso calendário. Tudo piora no Dia da Mulher, em março, com a chegada da contenda embutida na pergunta: é ou não é para oferecer (e postar fotos com) flores durante a data?

Antes que a coisa (e a temperatura) esfrie, nos alegraremos chamando os usuários de ovos de Páscoa de otários empilhando nossos lotes de chocolate em barra comprados no mercado pela metade do preço.

Outros conflitos nos esperam. Em maio, já virou tradição a guerra de textões sobre se podemos ou não dar parabéns às mães de pets no Dia das Mães. Em junho, a previsão é de chuvas e tempestades sobre as homenagens aos eternos (as) namorados (as) recicladas ano a ano, o nosso jogo de "Eu tenho, você não tem" que define as identidades das relações virtuais graças ao pai do João Doria — outro tema da mesma treta, aliás.

Passaremos ainda pela batalhas "frio: amo x odeio" de junho/julho e do "Halloween x Dia do Saci" em outubro antes de encerrar o ano como iniciamos: brigando sobre temas urgentes do tipo panetone x chocotone (em risco de atualização com o avanço do panetone salgado e das nhá bentas sabor panetone nos anos anteriores), a ditadura da uva passa no arroz da festa e as exposições não requisitadas a respeito de conquistas pessoais narradas como corrida de obstáculos num ano marcado por coisas terríveis que acontecem todos os anos.

Vence quem chega a 31 de dezembro cantando que naquele ano morreu, mas no ano que se inicia não morrerá — a senha para tirar os fãs do Belchior do silêncio para expressar a amargura em ver o ídolo vulgarizado pelas correntes-modinha da época. Sou desses.

Se organizar direitinho, dá para deixar prontos e agendados os seus textões de Facebook para cada ocasião e acordar apenas em outubro — só para chamar de fascista o parente preconceituoso que reativará o Facebook do sono de quatro anos no momento mais tenso da temporada. A depender do resultado, é possível que as tretas natalinas nem comecem por falta de quórum. Vai ser difícil reunir dois ou mais parentes na mesma ceia depois da eleição.

No calendário deste ano ainda haverá muito pano para forca das querelas sobre futebol, para uns o culto ao orgulho ogro, para outros a expressão legítima da cultura popular. 2022 é ano de Copa do Mundo e a camisa amarela, como em 2018 e 2014, estará novamente em disputa.

Desde que as redes sociais tomaram conta dos nossos afetos, a vida é o que deixou de acontecer enquanto estamos ocupados tretando no Facebook. Algumas brigas, como mostrou o meme compartilhado por meio mundo, são previsíveis e já fazem parte do calendário. Outras dependem da conjuntura, mas apostaria que ainda vai longe a treta entre vacinados e negacionistas que têm em Novak Djokovic um novo mártir.

O bizarro é que não há paz nem nos recantos mais improváveis. Dias atrás, a jornalista Rita Lisauskas contou ter testemunhado uma treta monstro no grupo dos amantes de Air Fryer do Facebook.

A polêmica aconteceu quando alguém compartilhou uma dica para não sujar o equipamento e sugeriu que os usuários usassem um cesto de alumínio das marmitas descartáveis. Foi a brecha para alguém revidar dizendo que aquela era uma dica estúpida que feria a alma do dispositivo — que seria justamente escorrer o óleo. O ataque logo virou uma discussão sobre a relatividade da sujeira. Esta, afinal, seria medida pelo volume de detergente usado na limpeza ou das toneladas de marmitinhas jogadas no lixo? A gangue dos usuários de tapetinho de silicone, perseguidos por serem chamados de porcos preguiçosos, entrou na briga e o tribunal da Air Fry precisou ser acionado.

"O último recanto de paz nas redes foi contaminado", lamentou a Rita em uma postagem no Twitter.

Não tive outra alternativa se não entrar no grupo. Até agora, não briguei com ninguém, mas já aprendi a fazer cestinhas recheadas com massa de pastel. Não sei como vivi sem isso até outro dia.

Como alguém definiu em outro viral que todo mundo recebeu em algum momento deste ano, os pets viraram os novos filhos, as plantas viraram os novos pets e as air fryers viraram as novas plantas.

E os filhos? Os filhos viraram novos deuses, a quem questionamos o tempo todos se eles podem nos ouvir.

Mas isso é assunto para outra treta.