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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que nos divertimos com perrengue de humorista da cueca suja em Lisboa?

Abdiás Melo é humorista, empresário e influencer - Reprodução/redes sociais
Abdiás Melo é humorista, empresário e influencer Imagem: Reprodução/redes sociais
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

05/07/2022 04h01

Durante uma fase da vida, a criança se diverte com os sons que o corpo produz e passa a associar cocô e xixi a uma satisfação particular. A fase começa e termina perto dos dois anos de idade.

Alguns pequenos, porém, descobrem mais ou menos nessa época outro tipo de prazer, o de desafiar os adultos, e permanecem nessa fase por um período indeterminado. As gracinhas escatológicas, como ameaçar tirar meleca do nariz e arremessar na sopa de mandioquinha, viram motivos de gargalhada e temas de competição entre coleguinhas. Não há limite para quem teve o direito à atenção sonegado desde a infância.

Se a repressão com as gracinhas não for bem calibrada, a permanência nessa fase de aprendizagem das chamadas "palavras feias" torna-se uma prisão perpétua.

Na vida adulta, o humor se converte em um dos muitos filtros para entender em que momento da infância os marmanjos estão aprisionados.

No último fim de semana, o humorista brasileiro Abdiás Melo, preso havia seis dias no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, viralizou ao conceder uma entrevista a uma TV local e contar seus perrengues para conseguir voltar para casa. Seu voo de volta havia sido cancelado e o deixou literalmente apenas com a roupa do corpo. Sua mala havia sido extraviada.

A certa altura da entrevista, o passageiro indignado desabafou. Disse que estava com a mesma cueca fazia seis dias. A ausência de banho o deixara com o sovaco fedendo. Pior: Abdiás não conseguia fazer cocô fora de casa. Portanto, estava duplamente preso no aeroporto.

A ausência de cerimônia para descrever o drama se transformou em um meme instantâneo.

A menção à palavra proibida desde os dois anos de idade fez com que a repórter percebesse o estrago em potencial e interrompesse a entrevista de maneira elegante.

"É uma imagem muito gráfica a situação do passageiro", cortou a jornalista.

Desde então ficou difícil entrar nas redes sociais e não esbarrar com a imagem gráfica expressa na cara de suplício do humorista.

No filme "Terminal", o personagem interpretado por Tom Hanks desembarca nos EUA no momento em que seu país sofre um golpe de Estado. Devido ao conflito, seu passaporte é invalidado e as fronteiras de seu país se fecham, o que inviabiliza tanto o retorno quanto a continuidade da viagem. No limbo, ele descobre um mundo à parte dentro do aeroporto. Ao menos podia carregar sua bagagem para lá e para cá.

A versão pernambucana de Viktor Navorski por pouco não iniciou uma revolução a partir do aeroporto no momento em que as relações diplomáticas entre Brasil e Portugal estavam estremecidas dado o cancelamento de um almoço entre seus chefes de Estado.

Jair Bolsonaro, que dias atrás precisou ir ao hospital por se entupir, literalmente, com camarões, e que já disse ajudar a natureza fazendo cocô dia sim, dia não, estava enciumado com a visita, na véspera, de Marcelo Rebelo de Sousa ao seu adversário Luiz Inácio Lula da Silva.

Lembra da história das crianças presas à primeira infância? Pois é.

Não há notícias de que, durante o encontro, Lula tenha tratado com o líder português da questão envolvendo o intestino aprisionado de seu conterrâneo.

Mas Abdiás, sabendo que a entrevista o alçara a fenômeno internacional, soube aproveitar a extensão da fama como poucos. Pediu ajuda a Xuxa e Neymar. Puxou coro no corredor do aeroporto onde repetiu em uma micareta improvisada o mesmo texto da entrevista.

Quando finalmente embarcou, fez questão de registrar em vídeo, com a multidão ao fundo: "Quando chegar em casa, vou cagar muito".

De fato, uma imagem muito gráfica.

O perrengue rendeu. O último esquete publicado no Instagram do humorista somava até ontem pouco mais de 9 mil curtidas.

Já um dos muitos vídeos da entrevista postados no Twitter chegou a 4,2 milhões de visualizações.

Metade do engajamento provavelmente foi gerado por um conhecido que disse não conseguir fazer outra coisa na vida a não ser assistir à entrevista no repeat. Outro, igualmente dependente das pias de casa, disse se sentir representado pela fala libertadora de Abdiás.

Houve quem visse no desespero do passageiro o drama de todos os brasileiros com os sonhos aprisionados desde as eleições de 2018. Um exagero.

Com tal visibilidade, que ninguém estranhe se o humorista protagonizar em breve propaganda de reguladores intestinais ou probióticos para inchaço abdominal. E converter em lucro o prejuízo com os dias parados no limbo do aeroporto.

Enquanto, longe dali, a literatura portuguesa era a grande homenageada da Bienal do Livro em São Paulo, um humorista brasileiro roubava a cena na antiga matriz colonial com um esquete meio drama, meio comédia, baseado em fatos reais. Talvez porque boa parte da plateia mal consegue segurar as lágrimas ao ouvir palavras como xixi e cocô pronunciada por um adulto.

Com a fala encenada ou não, Abdiás virou meme porque rompeu uma cláusula que levamos à vida adulta na qual precisamos disfarçar os instintos e necessidades mais primitivas em troca de um projeto de elegância. Havia uma espontaneidade ali que perdemos de vista ao longo da vida. Um aeroporto internacional, a conexão para os destinos mais invejados, parecia o lugar perfeito para lembrar que muitas vezes tudo o que precisamos é do nosso banheiro e de roupas limpas. O resto que espere.