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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em governo de sociopatas, perfil de Pedro Guimarães é regra, não exceção

Pedro Guimarães ri com Jair Bolsonaro durante evento - Antonio Cruz/Agência Brasil
Pedro Guimarães ri com Jair Bolsonaro durante evento Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

03/07/2022 04h01

Há exatos três anos e meio Jair Bolsonaro assumiu a Presidência e ainda há quem se impressione com sua capacidade de reunir no mesmo governo um conjunto de indigentes intelectuais e subordinados incapazes de viver em sociedade.

Um amigo incrédulo tem duas hipóteses para o fenômeno.

A primeira é a menos plausível: a pororoca de indivíduos sem senso de responsabilidade ou consciência moral é resultado de uma conjunção histórica que levou ao poder um esquisitão sem amigos e que no fundo não acreditava na possibilidade de chegar onde chegou. Ao ser eleito no susto, ele saiu catando às pressas quem surgisse no caminho da viagem entre a Vivendas da Barra e o Palácio do Planalto com parada estratégica em Rio das Pedras.

A outra hipótese, mais provável, visualiza uma espécie de RH paralelo montada ainda durante a campanha na qual Bolsonaro e equipe ungiam seus escolhidos por meio de um teste de personalidade.

O teste consistia em trancar na sala alguns postulantes a ministros, secretários ou chefes de autarquias e estatais sem grandes feitos na vida pregressa e jogar para o alto uma caneta. Quem, pensando se tratar de uma prova de redação, demonstrasse alguma capacidade de coerência e concisão por escrito era eliminado; ficava com a vaga quem mastigasse o objeto ou o usasse para retalhar o rosto do amiguinho.

O prêmio para os vencedores era algumas dezenas de viagens ao lado do presidente com tudo pago.

Para ficar no time, o acordo era um misto de pacto de silêncio com despedida de solteiro: o que acontece em Brasília fica em Brasília (pode ser também Porto Seguro ou outro destino turístico).

O problema é que de vez em quando alguém coloca no fogo em brasa a cara e as costas largas do chefe e precisa ser eliminado do jogo. Não sem dor no coração por parte do parceiro de lives e motociatas.

Na última quinta-feira (30), Pedro Guimarães deixou a presidência da Caixa Econômica Federal porque, segundo relatos de quem trabalhava com ele, o economista passava a mão em funcionárias, chamava mulheres para entrar em seu quarto de hotel com trajes e em horários impróprios, convidava subordinadas para a sauna, para a piscina e para festas onde ninguém seria de ninguém. Isso quando estava de bom humor.

Nos dias de fúria, como mostraram áudios obtidos pelo repórter Rodrigo Rangel, do site Metrópoles, ele berrava com funcionários para mostrar que sua gestão não era democrática e que ali quem mandava era ele. Um caso típico de quem nunca teve prestígio na vida e estava disposto a degustar a oportunidade como se não houvesse testemunhas nem amanhã.

Seus alvos preferenciais eram chamados por uma coletânea de expressões do novo dicionário do assédio moral: "pau mole", "júnior" e "faixa branca".

Quando atualizar o LinkedIn, vai ser difícil convencer os futuros empregadores de sua capacidade de gerenciar equipes e trabalhar em grupo.

Com tal currículo, não é difícil entender como Guimarães caiu nas graças do chefe. Difícil é entender por que não foi bancado até o fim pelo chefe.

A proximidade das eleições e a necessidade de ganhar algum terreno entre o eleitorado feminino talvez expliquem a dispensa. Não pega bem defender os valores familiares e manter na garupa um suposto predador.

Antes das suspeitas virem à tona, Guimarães havia subido como um foguete na carreira ao se tornar homem de confiança do bolsonarismo. Mesmo tendo colecionado demissões na iniciativa privada por mau desempenho profissional ou pelo conjunto da obra quando o assunto (já) era assédio. Foi o que mostrou a repórter Malu Gaspar em sua coluna no jornal O Globo.

Sua derrocada reforça o talento do atual governo em reunir, como insetos em volta da lâmpada, todo tipo de bandalho.

Guimarães não era uma ilha de aberração; era parte de um continente onde só em 2022 já foram registrados 214 casos de assédio moral — quase um novo episódio por dia, segundo a Controladoria Geral da União.

Esse continente já contou com um secretário de Cultura que copiou e colou discurso nazista em rede nacional. E com um substituto, cidadão ilustre da lendária Ratanabá, que gostava de despachar armado para intimidar os subordinados.

O governo já abrigou também um ex-ministro da Educação que dizia odiar o termo "povos indígenas" e "povos ciganos". E um defensor de castigos físicos em crianças que sonhava com o dia em que universidade boa seria universidade para poucos.

Um ex-ministro da Saúde queria saber qual era o motivo para tanta "ansiedade" por vacinas quando milhares de compatriotas morriam sufocados e sem oxigênio nos hospitais. Outro mandou o dedo do meio quando seu chefe foi vaiado em uma viagem a Nova York.

Para o meio ambiente, o escolhido foi um militante que não podia ver árvore em pé e que costumava passar suas tardes livres chamando coleguinhas nas redes de "Nhônho", "maria fofoca" ou "banana de pijama".

Uma das poucas mulheres do primeiro escalão acreditava que a falta de calcinhas era a razão para o alto índice de estupro de crianças na Ilha de Marajó. Ela defendia abstinência sexual para prevenir a gravidez na adolescência e fez de tudo para constranger, expor e impedir e o aborto legal de uma criança de dez anos estuprada por um parente.

Entre os que permanecem no posto até hoje está um ministro da Economia que faz o Caco Antibes, personagem com alergia a pobres do antigo "Sai de Baixo", parecer o padre Júlio Lancelotti perto dele.

Só a Síndrome de Estocolmo explica os resquícios de respeito que o tal Posto Ipiranga ainda mantém com os endinheirados: "Deixa o cara se foder" é a frase que define sua temporada em Brasília. Referia-se aos milionários viciados em jogos de azar que poderiam torrar o que tinham e o que não tinham em cassinos que sonhava em legalizar no país.

Foi o rascunho mais palpável de política pública que conseguiu desenhar até hoje. Lembra do teste da caneta?

Personagens do tipo vivem e sobrevivem ao redor de um fã de torturador que ri de pessoas mortas, incita golpe dia sim, outro também, e que em seu tempo de deputado dizia que só não estuprava uma colega porque ela não merecia.

Onde e com quem, então, um suposto predador, convicto de sua posição na chamada hierarquia de gênero, poderia se sentir mais à vontade?

De vez em quando alguma dessas formigas aladas e sem luz própria estoura a testa no vidro que ainda protege o capitão e despenca.

A lista dos quadros que vieram abaixo é o melhor resumo de um governo que empoderou a sociopatia e levou o ressentimento ao centro da direção.