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Matheus Pichonelli

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Neonazi da biblioteca dá rosto ao extremismo que saiu das sombras no Brasil

Wilho foi levado à delegacia após falas racistas na biblioteca Mário de Andrade - Reprodução de vídeo
Wilho foi levado à delegacia após falas racistas na biblioteca Mário de Andrade Imagem: Reprodução de vídeo
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Matheus Pichonelli

Matheus Pichonelli é jornalista reincidente e cientista social não praticante. Trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, portal iG, Gazeta Esportiva, Yahoo e Carta Capital. Araraquarense, desistiu de São Paulo após 12 anos e voltou a morar no interior, de onde escreve sobre comportamento, cinema, política e (às vezes) futebol.

Colunista do UOL

05/08/2022 04h01

É difícil não se chocar ao assistir ao vídeo, gravado na última terça-feira (2), em que um neonazista de 39 anos ofende pessoas negras e faz uma série de ataques racistas e homofóbicos na biblioteca pública Mário de Andrade, em São Paulo.

Wilho da Silva Brito era figura conhecida dos funcionários do local. Segundo a assessoria da biblioteca, ele falava que era nazista, usava camiseta com suástica e destratava funcionários e frequentadores negros desde 2017. No começo do ano ele chegou a agredir uma das funcionárias e virou caso de polícia. Voltou pouco depois.

No vídeo, o fã de Adolf Hitler repete diversas vezes que não gosta de negros e escancara o funcionamento da mente criminosa de pessoas como ele — gente que ofende, espanca e mata para impor sua ideia pervertida de disciplina e "pureza racial" aos demais.

Alertas sobre os perigos de comportamentos assim não faltam. Eles estão expostos em livros, filmes e museus criados em memória das vítimas das mais trágicas experiências históricas.

Não vou reproduzir aqui o discurso feito diante das câmeras pelo neonazi da biblioteca. Digamos apenas que ele parece ter assimilado com índice considerável de absorção as ideias contidas no livro-manifesto "Minha Luta", em que Hitler destila toda sua burrice e ódio contra judeus e outras minorias. O livro estava na mesa do frequentador no momento em que ele chilicava contra quem o chamava de racista por proferir ofensas racistas.

Wilho foi preso em flagrante. Seu discurso choca por escancarar um raciocínio quase sempre velado ou difundido apenas nos intestinos grossos da deep web.

Erra quem pensa que esse papo é só coisa de maluco que não sabe o que diz. O argumento não só é raso como perigoso, e o deboche sobre a cor da pele de quem venera Hitler pensando ser ariano — um comentário racista por si — apenas inibe a compreensão exata do fenômeno.

O homem de cabelo moicano que aparece no vídeo está longe de ser um lobo solitário e/ou apenas perturbado das ideias. É parte de uma multidão que se expande em ritmo assustador no Brasil nos últimos anos.

De acordo com a última atualização do mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, existem ao menos 530 células neonazistas no país — crescimento de 270,6% de janeiro de 2019 a maio de 2021. O universo de seguidores é estimado em 10 mil pessoas.

Esses grupos se expandem em razão da falta de leis mais assertivas contra apologia ao nazismo, à intolerância e ao ódio. Há um pouco nesses grupos, de gente que nega o Holocausto até supremacistas das seções locais da Ku Klux Klan.

Nos fóruns administrados pelos extremistas, mais de 900 mil materiais com conteúdo neonazista foram baixados nas redes somente no último ano, segundo um levantamento da pesquisadora da Unicamp.

Os ataques verbais proferidos pelo neonazi da biblioteca acontecem em um momento em que o Brasil parece mergulhado em sua ignorância tanto do que foi o nazifascismo do período entreguerras na Europa quanto do que vem a ser liberdade de expressão.

Não faz muito tempo um influencer defendeu, no podcast de maior visibilidade do país, que essa liberdade deveria ser radical a ponto de permitir a criação de um partido de inspiração nazista no país. (Isso equivale a legalizar e colocar em termos programáticos os campos de concentração e a eliminação física de quem não se enquadra no conceito de "raça pura" inventado por adeptos de partidos do tipo. Inclusive os que confundem carta livre para esfolar com liberdade de expressão).

No Brasil, vale lembrar, discursos de ódio nunca ficam restritos apenas à expressão (e não estou me referindo só às feridas psicológicas de quem tem sua cultura e modo de vida associado a "lixo" e sente na pele as dores e o horror da intolerância).

Uma reportagem exibida em janeiro pelo Fantástico, da TV Globo, listou uma série de ataques recentes promovidos grupos extremistas no país, como a pancadaria em um bar de São Paulo onde uma suástica foi pichada, a campanha pela libertação de um homem que atirou contra manifestantes em um protesto e a prisão de um homem acusado de pedofilia que guardava um arsenal de materiais nazistas em sua casa.

Ou seja: passados 77 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, fãs de Adolf Hitler seguem promovendo e justificando a violência e os crimes de ódio em seu nome.

Por aqui, o discurso de eliminação de minorias, o passo seguinte à supressão de sua humanidade em discursos como os de Wilho da Silva Brito, ganha terreno entre quem parece convicto de que seu direito a viver em um país decente foi surrupiado pelos grupos sociais que despreza.

A certa altura, o neonazi da biblioteca reivindica o direito de estudar e ofender em paz quem quiser para poder sair um dia desse "lixo de país". Ele parece realmente acreditar que faz parte de uma casta superior por não gostar de pagode.

O raciocínio, levada ao extremo, ganha ressonância em um país alimentado pelo ressentimento de quem não foi aprovado na universidade ou no concurso público e culpou as cotas, que culpa o feminismo por não ser venerado pelas mulheres e que encontrou no ataque ao chamado "marxismo cultural" um pretexto para justificar seu déficit de reconhecimento intelectual.

Em poucas palavras, Wilho escancarou a violência que, em geral, está quase sempre encoberta pelo anonimato nas redes, onde ataques sistemáticos contra pessoas portadoras de deficiência, judias, negras e LGBTQIA+ são desferidos não diariamente, mas em intervalos curtos de segundos.

Como me disse a antropóloga Adriana Dias em uma entrevista em 2019: "O ódio não é de agora. Sempre houve ódio racial, de classe, de gênero. Neste momento você tem uma articulação e uma sistematização deste ódio. Uma capilarização como projeto político em muitos lugares. E é impossível remover esse ódio enquanto você não civilizar as pessoas. É um processo muito complexo porque o ódio dá um conforto para elas".

Wilho não é um maluco que não sabe o que diz. É alguém que encontrou no desprezo ao outro uma razão para viver. E ele é uma multidão. Está na hora de levar essa multidão a sério.