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Racismo estrutural interfere no crescimento econômico de um país?

Em Brasília, Grito dos Excluídos faz ato contra preconceito, por trabalho e moradia - Akemi Nitahara/Agência Brasil
Em Brasília, Grito dos Excluídos faz ato contra preconceito, por trabalho e moradia Imagem: Akemi Nitahara/Agência Brasil
Ricardo Abramovay

Professor Sênior do Instituto e Energia da USP. Autor de "Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza" (Ed. Elefante/Outras Palavras). Twitter: @abramovay

Colunista do UOL

10/09/2020 04h01

O escritório de patentes e marcas registradas dos Estados Unidos responde a esta pergunta com um enfático sim. A ênfase vai até ao ponto de propor um conjunto de disposições legislativas para corrigir a sub-representação das minorias (e também das mulheres) nas invenções e nos registros de patentes. Mas, por que razão é do Ministério do Comércio da maior potência do mundo que vem um projeto de lei para acabar com a discriminação de raça e gênero no registro de patentes?

A luta contra o racismo é, hoje, sobretudo nos países de tradição escravista e mais ainda depois do assassinato de George Floyd, nos EUA, o epicentro da conquista da cidadania e dos direitos humanos. Por que então trazê-la igualmente para a estratégia do próprio crescimento econômico?

O raciocínio é simples: no mundo contemporâneo, é das inovações científica e tecnológica que depende o crescimento econômico. Por mais importante que seja o papel das grandes empresas na inovação contemporânea, seu ecossistema de inovações é restrito e conta com o protagonismo de ínfima minoria dos talentos de que poderia se beneficiar a economia do conhecimento. Alguns estudos recentes usaram a expressão "Einsteins perdidos" (lost Einsteins) para se referir a essa concentração e perda de talentos. Ampliar a base social da inovação é um dos maiores desafios do crescimento econômico atual.

O fato de a base se limitar a homens brancos que, no geral, pertencem a famílias abastadas, na prática conduz a um gigantesco desperdício de recursos, pois inibe a força e o dinamismo do que os especialistas chamam de "ecossistema de inovações". Embora as corporações tenham maioria no registro de patentes, nos Estados Unidos, a participação de mulheres e de negros na obtenção de patentes pelas grandes empresas é irrisória.

Por isso, o escritório norte-americano de patentes decidiu pesquisar os impactos da discriminação de raça e gênero sobre as invenções.

O resultado é que as mulheres e as minorias são sub-representadas nas atividades mais criativas que envolvem ciência e tecnologia. Somente 12% de todas as patentes obtidas em 2016 nos Estados Unidos o foram por mulheres. Como no registro de patentes não consta o sexo das pessoas, esse dado foi extraído por meio de um algoritmo que detectava as mulheres por meio de seus nomes.

No caso dos negros, não há sequer informação precisa, já que não se coloca a cor da pele do titular quando alguém solicita o registro de uma patente. O resultado do único estudo que obteve informação quantitativa sobre o tema é chocante: embora sejam quase 12% da população norte-americana, os negros são apenas 0,3% dos inventores.

Como explicar o fenômeno? O trabalho do escritório norte-americano de patentes refere-se a três fatores. O primeiro são as normas sociais. Crianças que moram em bairros onde há mais inventores têm mais propensão a manifestarem seus talentos nestas atividades. Os vínculos informais entre as pessoas são mais determinantes do desempenho futuro das crianças do que programas escolares formais. Mentorias, que estimulam e dão confiança a crianças e jovens sobre seu futuro na área de tecnologia, são decisivas. E, como era de se esperar, elas se fazem com base em redes sociais cuja composição racial é discriminatória.

O segundo fator refere-se a normas e práticas institucionais. Importante citar o trabalho recente de dois sociólogos (Small e Pager) numa prestigiosa revista científica, mostrando que o racismo (mas isso se aplica igualmente ao machismo, claro), longe de ser uma atitude racional e calculada, está incorporado de forma frequentemente invisível nos comportamentos dos indivíduos e das organizações. É o que Small e Pager chamam de discriminação implícita, estrutural ou institucional.

Um estudo citado por eles mostra que, na época em que enxugar o quadro de trabalhadores (o famoso downsizing) era orientação das mais importantes consultorias do mundo, em 327 estabelecimentos que o fizeram, a diversidade das gerências (mulheres e negros) caiu drasticamente.

Mais que isso, ainda com relação a normas e práticas institucionais, Small e Pager elaboram aquilo que um vídeo recente de Regina Casé com sua filha e seu genro mostra de forma chocante: ser sempre seguido por um segurança numa loja, sentar num lugar pior no restaurante, ser olhado com desconfiança pelas pessoas, ter que tomar especial cuidado para não ser parado pela polícia na rua, tudo isso traz aos indivíduos um custo emocional que afeta seu bem-estar psicológico e até físico. É claro que as pessoas que crescem nesse ambiente terão muito menos propensão à autonomia e à criatividade exigidas pela invenção do que quem não sofreu discriminação.

O terceiro fator que inibe as inovações são os recursos de que dispõem os indivíduos: embora 36% dos negócios nos Estados Unidos pertençam a uma mulher, apenas 3% dos investimentos de capital de risco em startups nos Estados Unidos dirigem-se a mulheres. O trabalho não cita dados quantitativos sobre o tema com relação aos negros, mas lembra que os afro-americanos tendem mais a empréstimos não bancários para seus negócios que os brancos.

Entre as propostas do estudo, a mais interessante é a formação de um conselho de representantes incluindo a comunidade científica, organizações não-governamentais, representantes da sociedade civil e o governo para desenvolver uma estratégia nacional para promover a participação de grupos sub-representados no ecossistema norte-americano de inovações. É o reconhecimento de que as injustiças em que se fundamentam este gigantesco desperdício de talentos não vão se corrigir espontaneamente.

Vou conversar sobre estes temas com a jornalista Flávia Oliveira e o economista Armínio Fraga na próxima sexta-feira (11), numa live do Museu do Amanhã, às 17 horas.

Não há dúvida de que o Brasil precisa crescer com urgência. A questão é saber: crescer para onde, para quê e para quem. E para isso é preciso ao menos colocar a questão: além de ser um tema político e ético incontornável, a luta contra o racismo tem que estar também no centro da estratégia de crescimento econômico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.