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Florestan Fernandes antirracista: intelectuais negros refletem sobre a obra

O deputado constituinte Florestan Fernandes (PT/SP) discursa na Câmara dos Deputados, em Brasília - Tadashi Nakagomi/Folhapress
O deputado constituinte Florestan Fernandes (PT/SP) discursa na Câmara dos Deputados, em Brasília
Imagem: Tadashi Nakagomi/Folhapress

Beatriz Sanz

Do UOL

23/07/2020 04h01

O experimento social brasileiro sempre chamou atenção do mundo. Logo após a Segunda Guerra Mundial, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) queria entender como um país marcado por escravidão, exploração e pobreza não mostrava nenhum sinal aparente de conflito.

Na época, imperava no imaginário internacional a ideia, criada e amplamente divulgada pelo sociólogo Gilberto Freyre, de que o Brasil vivia uma democracia racial.

Para examinar essa teoria, a Unesco patrocinou uma série de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil nos anos 1950, no que ficou conhecido como Projeto Unesco. "O Projeto Unesco basicamente foi: 'vamos olhar esse laboratório de experiência racial harmônica que é o Brasil e reaplicar esse laboratório para outros países'", explica o professor de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Cristiano Rodrigues.

Seus resultados, contudo, foram inesperados — e extraordinários.

O sociólogo Florestan Fernandes, um dos responsáveis por encabeçar o Projeto Unesco, acabou desmontando a teoria criada por Freyre. Por meio de suas pesquisas e análises, Florestan entendeu que o Brasil "não era um laboratório de experiência harmônica; na realidade, era [um país] muito desigual, onde o racismo é persistente", prossegue Rodrigues.

Nas palavras do próprio Fernandes, o Brasil é um país onde o racismo é "ultrajante para quem sofre e degradante para quem pratica", segundo seu livro "O Negro no Mundo dos Brancos", de 1972.

A derrubada do mito da democracia racial

Os especialistas ouvidos por TAB foram unânimes em afirmar que Florestan Fernandes, que além de sociólogo foi Deputado Constituinte, inaugurou uma nova era nos estudos das relações raciais no Brasil.

"Eu o considero um autor paradigmático entre aqueles que interpretaram o Brasil", diz o professor Ramatis Jacino, que leciona no curso de Ciências Econômicas da UFABC (Universidade Federal do ABC).

Para Jacino, a maioria dos autores pregressos "interpretavam que, ao final da escravidão, os negros não tinham se inserido no mercado de trabalho porque eram indolentes, incapazes, não se adequavam ao mercado de trabalho", explica. "Florestan inova, ao dizer que a razão pela qual os negros não se inseriram teria sido uma omissão das elites, que não criaram alternativa para a população negra nessa transição."

Rodrigues destaca que a diferença entre Florestan e seus antecessores — em especial Gilberto Freyre — é que o primeiro traz dados empíricos e busca produzir uma "sociologia científica". O sociólogo percebeu a fragilidade da democracia racial quando analisou o mercado de trabalho e percebeu que, quando o negro começa a disputar uma vaga com o branco, os conflitos raciais ficam mais explícitos.

"Com os estudos de Florestan, o movimento social negro passa ter subsídios para questionar não só o Estado brasileiro como a sociedade civil, de modo a inaugurar uma agenda para integrar os negros com condição de cidadania", afirma o professor de História da UFJ (Universidade Federal de Jataí, em Goiás), Pedro Barbosa.

Curso de Formação Política, ministrado em 1986 por Florestan Fernandes e Hector Benoit, para lideranças sindicais - Pedro Barbosa/Arquivo pessoal - Pedro Barbosa/Arquivo pessoal
Curso de Formação Política, ministrado em 1986 por Florestan Fernandes e Hector Benoit, para lideranças sindicais
Imagem: Pedro Barbosa/Arquivo pessoal

O sonho da integração

Apesar de notar a dificuldade da população negra em acessar o mercado de trabalho desde o fim da escravidão, o pesquisador acreditou que a integração racial e, posteriormente, o fim do racismo, aconteceria quando o país concluísse o processo de modernização e toda essa população estivesse devidamente empregada.

O professor Dagoberto José Fonseca, livre-docente em Antropologia Brasileira na Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho) explica que a leitura de mundo de Florestan sobre a necessidade de emprego para os negros foi impactada por militantes e ex-integrantes da FNB (Frente Negra Brasileira).

"Florestan captura a análise de Francisco Lucrécio [um dos fundadores da FNB, a Frente Negra Brasileira] e outros ideólogos da FNB. Eles informam que a população negra saiu do escravismo e entrou na República sem ter sido reconhecida como cidadã", explica Fonseca.

Apesar de a integração pensada pelo sociólogo nunca ter acontecido, Ramatis Jacino destaca que seu trabalho lançou as bases para a discussão de políticas compensatórias como as cotas.

Influência do ativismo

Para basear seu trabalho sobre as relações raciais no Brasil, Fernandes pesquisou a atuação dos movimentos negros no período seguinte ao fim da escravidão.

"Mostrar as aspirações dos intelectuais e ativistas negros que lutaram no pós-abolição foi algo importante para a época. Os movimentos negros tinham um papel central na difusão dos valores igualitários na sociedade brasileira", destaca Flávia Rios, professora de Ciências Sociais da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Mas, além de se voltar para o passado, o sociólogo também fez trocas com pensadores negros que foram seus contemporâneos, como Abdias do Nascimento e Alberto Guerreiro Ramos, e ajudou a preparar uma nova geração de lideranças.

"A influência maior do Florestan, a partir dos seus escritos, foi na elaboração teórica e ação de uma geração posterior — a geração que, em plena ditadura militar, lançou a ideia de um movimento unificado, o que viria a ser o MNU (Movimento Negro Unificado)", frisa Jacino.

Pedro Barbosa, professor de História da UFJ, foi um desses. Ele frequentou alguns dos cursos de formação que o então candidato a deputado pelo PT dava na cidade de São Paulo, nos anos 1980.

"Ele foi uma das pessoas que mais me influenciou a fazer pesquisa sobre a questão étnico-racial, quando eu entrasse na faculdade", recorda.

O sociólogo Florestan Fernandes, em manifestação pela educação pública, em 1988 - Florestan Fernandes Jr./Arquivo pessoal - Florestan Fernandes Jr./Arquivo pessoal
O sociólogo Florestan Fernandes, em manifestação pela educação pública, em 1988
Imagem: Florestan Fernandes Jr./Arquivo pessoal

Fruto do tempo

Por outro lado, lembra o professor Fonseca, também é verdade que o sociólogo paulista teve mais visibilidade do que outros intelectuais negros como Francisco Lucrécio, Aristides Barbosa e José Correia Leite, lideranças da FNB com quem ele dialogava.

"Florestan foi porta-voz de um grupo, um intelectual orgânico daquele grupo ou ele simplesmente retirou a palavra do grupo e trouxe para si? As duas coisas são verdadeiras", garante Dagoberto Fonseca, que também é Coordenador do Centro de Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

De acordo com Fonseca, isso se deve ao período em que o sociólogo viveu e produziu e também à branquitude. "Nas condicionantes do tempo, ele é o acadêmico, ele tem os títulos, ele pode falar e ser ouvido. Isso também tem uma dimensão de branquitude que a gente não pode desconsiderar."

O professor Cristiano Rodrigues, da UFMG, recorda que Florestan também teve "discordâncias" com Abdias do Nascimento, Alberto Guerreiro Ramos e Virgínia Bicudo.

Para ele, o fato de o pensamento de Florestan Fernandes ter tido mais visibilidade que outros pensadores do mesmo período "revela um pouco como o racismo operou e quais foram os conhecimentos sobre o debate racial que vieram à tona, e quais foram silenciados".

Florestan e a pandemia

Apesar de ter iniciado seu trabalho sobre a questão negra há quase 70 anos e analisado com especial interesse o fim da escravidão, sua obra continua atual.

Em "O Negro no Mundo dos Brancos", o político e estudioso demonstra que, ao fim da escravidão, a população negra não foi incluída no mercado formal de trabalho e teve de permanecer no que ele chama de "economia de subsistência" — na prática, viver na informalidade e de bicos.

O quadro não se alterou. Segundo a última Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), metade da população brasileira em idade de trabalhar estava desocupada no primeiro trimestre de 2020.

Flávia Rios destaca que a semelhança entre o cenário que Florestan retratou e a pandemia do coronavírus é a posição estrutural de fragilidade dos negros no mercado de trabalho.

"No contexto da pandemia, a população negra está vivendo na base da solidariedade. Essa população negra está também nos trabalhos informais e precarizados, mais expostos, portanto, a condições implacáveis de contaminação pelo novo coronavírus", enfatiza.