PUBLICIDADE

Topo

O que um influenciador pode ensinar a um intelectual -- e vice-versa

O infuenciador digital Felipe Neto - Reprodução
O infuenciador digital Felipe Neto Imagem: Reprodução

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

24/05/2020 04h00

"Precisamos de uma política de espírito público. Não ao autoritarismo, sim à democracia! Uma democracia moderna, participativa e plural."

"Estamos oficialmente contra um regime fascista, e quem se cala perante o fascismo é fascista. Ponto final. [...] E é minha função como influenciador de alcance: lutar pela liberdade de expressão, de pensamento, pela pluralidade e pelo Estado laico."

Três décadas separam as duas declarações. Mais precisamente, 32 anos. A primeira é do jurista e político André Franco Montoro (1916-1999), um dos agitadores da campanha das Diretas Já, no programa "Roda Viva" de 25 de janeiro de 1988. A segunda é do influenciador digital Felipe Neto, 32 anos, na carta (audiovisual) aberta de 9 de maio de 2020 convocando artistas e influenciadores a se posicionar contra rompantes autoritários do atual governo, como manifestações pró-ditadura.

A carta foi o passaporte de Neto para o prestigiado programa da TV Cultura que, no ar desde 1986, foi palco do pensamento de personalidades ilustres como políticos, jornalistas, diplomatas, acadêmicos e artistas. O convite sinalizava uma entrevista que já nasceria histórica, como apostou o jornalista Matheus Pichonelli, de Universa.

"Sou apenas um youtuber. Embora eu saiba a força que as minhas redes carregam, preciso manter a minha humildade de cidadão como qualquer outro, não especialista. Não posso prometer não errar, mas continuar estudando, continuar tentando evoluir", declarou o comunicador no centro da roda, na última segunda-feira (18), ao justificar o mea-culpa por inflamar o impeachment de 2016 ("o golpe", como retificou na sabatina), que derrubou a presidente Dilma Rousseff, e se omitir na disputa de 2018, que levaria Jair Bolsonaro ao poder. Na TV aberta, o jovem youtuber desengavetou o filósofo austro-britânico Karl Popper (1902-1994) para se referir ao paradoxo da tolerância: não é possível ser tolerante com os intolerantes, os fascistas.

Neto foi aplaudido por muitos como "aliado", mas achincalhado por radicais de direita e desdenhado por alas da esquerda — que, por desejo de protagonismo, purismo ideológico ou ressentimento, não demorou para dizer que Neto não é nenhum "jovem Lênin". O youtuber nunca pediu a palavra como revolucionário e teórico marxista, logo é difícil entender a expectativa.

A direita, definiu Neto, "nada de braçada" nas estratégias de comunicação na internet. A esquerda, lamentou, ainda não aprendeu a se comunicar na era digital, o que vale sobretudo para um filão definido pela cientista política Mara Telles, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), como "esquerda Barrichello".

Felipe Neto e até Anitta flertam com o posto de "comentaristas políticos". Acabam inflamando o debate público, que tem determinadas expectativas sobre quem pode ou deve opinar e discutir assuntos sérios. Mas influencers e intelectuais são tão diferentes assim? Senta que lá vem história.

Da intelligentsia ao digital influencer

Quando surgiu, o termo "intelectual" era um xingamento. A expressão tem origem no fim do século 19, na França. Data do caso do oficial judeu Alfred Dreyfus (1859-1935), acusado e condenado injustamente por traição como infiltrado alemão na artilharia francesa em 1894. O erro foi descoberto, mas a armada francesa tentou encobrir o caso e condenou o militar no seu segundo julgamento.

Na época, o escritor francês Émile Zola (1840-1902) publicou a famosa carta aberta "J'accuse!" ("eu acuso"), criticando a injustiça. Nos dias seguintes, pequenos protestos ocuparam a imprensa francesa. Membros da esquerda progressista que defendiam Dreyfus foram rotulados pela direita conservadora de "intelectuais", algo pejorativo.

Mas, desde Zola, a ideia de "intelectual" ficou marcada pela manifestação de ideias na arena pública, em defesa de valores como justiça e liberdade. Ao longo do século 20, intelectuais passaram a discutir o que define, afinal, um intelectual — como diz o historiador francês François Dosse, a palavra deixou de ser um adjetivo para se tornar um substantivo.

Figuras importantes escreveram sobre o papel dos intelectuais, a partir de diferentes definições e modelos (e expectativas): eles foram retratados como engajados (Jean-Paul Sartre), especialistas e ideólogos (Norberto Bobbio), críticos (Pierre Bourdieu), orgânicos (Antonio Gramsci), "outsiders" (Edward Said), revolucionários e românticos (Michael Löwy), entre outros.

Entretanto, a ideia de um intelectual crítico, como Sartre (que se opôs publicamente ao colonialismo de seu próprio país, a França, na Argélia) ou Said (que sempre defendeu a independência palestina frente a Israel, mas nunca deixou de criticar erros da Autoridade Palestina), foi pouco a pouco substituída pela ideia de "scholars", acadêmicos encastelados nas torres de marfim das universidades — o arquétipo do "Professor Doutor" de suéter e óculos, que "não entende de internet" ou, como diz o historiador americano Russell Jacoby, vive de "slogans surrados" e "circunlóquios inúteis".

Autor de "O fim da utopia" (1982) e "Os últimos intelectuais" (1990), Jacoby lamenta a ausência de intelectuais nos debates públicos desde fins do século 20. Reconhecidos nos corredores das faculdades mas desconhecidos pela sociedade, pouco a pouco eles deixaram de tentar escrever de modo compreensível a um público leigo — não escreveram e paulatinamente desaprenderam a escrever, tornando-se uma liga de acadêmicos festejados entre si, aclamados entre si, nas patotas universitárias. "Minha crítica dos intelectuais ausentes é também autocrítica", escreveu o historiador.

Caiu o muro de Berlim, estourou a bolha da internet, estourou a pandemia de Covid-19 e, hoje, a intelligentsia se vê na condição de disputar espaço com personalidades inusitadas, como influenciadores digitais, youtubers, celebridades de ocasião que postam opiniões no Instagram. No livro "Tempos fraturados" (2012), um de seus últimos, o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) lamenta que os pensadores já não têm condições de competir com "um Bono Vox", a menos que se reposicionem neste novo mundo.

Mas, para os historiadores franceses Jean-François Sirinelli e Pascal Ory, intelectuais na verdade não se definem pelo que são (um título acadêmico), mas pelo que fazem, suas intervenções na política. Quer dizer, não basta pensar; é preciso manifestar um pensamento político publicamente. Isso abarca acadêmicos, artistas, ativistas, escritores, campesinos, metalúrgicos, entre outros ofícios e ocupações. E os influencers, o fenômeno do século 21? O que um influencer pode ensinar a um intelectual — e vice-versa?

"Por questões históricas, intelectuais tendem a ser associados a figuras de mais idade do que o que se considera a idade média dos influencers, e que emergiram ou foram legitimados pelos campos sociais tradicionais de reconhecimento cultural: universidade e imprensa, nomeadamente o mainstream", pondera Rita Figueiras, autora de "A mediatização da política na era das redes sociais" (2017) e professora da Universidade Católica Portuguesa. Mas, lembra Figueiras, um intelectual também pode ser um influenciador digital, a partir da presença online e da habilidade de gerar engajamento, como o filósofo esloveno superpop Slavoj Zizek. "O que pode aproximar um influencer e um intelectual? A vontade de terem uma intervenção pública, serem escutados e considerados", diz ao TAB.

O que influencers podem ensinar a intelectuais

A chave é a comunicação, dizem os especialistas ouvidos pelo TAB. Para Arthur Igreja, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), é a proximidade com o público. "O influenciador é fruto do nosso tempo, um ser contemporâneo, de um estilo que acabou de surgir. Se tem gente se exibindo e alguém assistindo é porque tem interessados. Então, quais influenciadores e quantos os seguem dizem muito sobre o público, e isso é um prato cheio para qualquer intelectual", avalia.

Comunicar, diz Erisson Rosati, consultor de marketing e professor da Universidade Anhembi-Morumbi e do Centro Universitário Belas Artes, é conseguir atingir a audiência almejada. "Muitas vezes, intelectuais se expressam com uma linguagem muito hermética e complicada. Se a ideia é jogar conhecimento para o mundo, é preciso ouvir e conversar com as pessoas, dúvidas mais bobas, e 'decodificar' a informação."

Se influenciadores estão literalmente influenciando a opinião pública, e não devem ir embora tão cedo, a primeira lição é entender a horizontalidade na comunicação, diz o estrategista digital Marcelo Barcelos, professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). A linguagem coloquial é essencial, principalmente pensando no público jovem que foi "alfabetizado" na internet. "É falar de igual para igual, o que pode gerar um impacto para o mal, como as fake news, ou para o bem, como a defesa da democracia", considera. "Ser inteligível é tão importante quanto ser inteligente."

Enquanto influencers navegam a internet como profissionais pagos (e muito bem pagos, diga-se), intelectuais historicamente se movem por propósitos sociais maiores, em defesa de valores como justiça e liberdade, independentemente de filiações político-partidárias ou universitárias.

Se pesa sobre influenciadores a dinâmica de likes e a cultura do cancelamento, intelectuais deveriam ser menos reféns das "variações de humor" da audiência, diz o historiador Fernando Nicolazzi, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). A questão, destaca, é o tempo: "O intelectual é mais duradouro, substantivo. O influenciador está mais delimitado e sua atuação é mais efêmera, se esgota. Antonio Candido continuará sempre sendo lido, mas daqui a 30 anos alguém ainda falará de Felipe Neto?", indaga.

Ser inteligível é tão importante quanto ser inteligente
Marcelo Barcelos

O que intelectuais podem ensinar a influencers

Os papéis são diferentes, mas às vezes se sobrepõem, avalia a socióloga Marília Moschkovich, pesquisadora colaboradora do grupo Gênero, Mídia e Desigualdades do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença da USP (Universidade de São Paulo). De um lado, um influencer pode ser alguém só famoso por postar vídeos bobos no YouTube, mas produz profissionalmente conteúdo e a influência é o fim. De outro, um intelectual pode ter um compromisso maior além de si mesmo, como divulgação científica e politização — e a influência é um meio. "É brilhante quando essas duas figuras se unem, o que atinge um público maior com reflexões teóricas, políticas e ideias. A questão é: isso está servindo a quem? À busca individual de seguidores ou a um projeto maior?", questiona.

A socióloga e youtuber Sabrina Fernandes, autora de "Sintomas Mórbidos" (Autonomia Literária, 2019), é considerada intelectual e influencer ao mesmo tempo. "O intelectual está acostumado com palestras, escrever colunas e ser convidado para entrevistas. Muitas vezes, essas acabam sendo tarefas unilaterais — não há interação direta com o público. Já o influencer precisa interagir o tempo inteiro e ouvir o que é bom e o que é ruim", conta.

De um lado, o influencer pode ensinar a importância de manter o diálogo aberto com o público, especialmente não-acadêmico, em diferentes plataformas: Instagram, Twitter, Facebook e YouTube pedem linguagens diferentes. "Não adianta ter ideias fantásticas se elas não se encaixam na demanda de cada espaço." De outro, o intelectual tem mais experiência em engajar críticas construtivas e buscar se especializar para elevar os debates públicos, o que é especialmente importante para não ceder às pressões para comentar superficialmente tudo o tempo todo, o que Fernandes designa como "tudologia".

Há frustrações e lições dos dois lados. Intelectuais se frustram por produzirem conhecimento preciso, mas muitas vezes se veem vencidos por poucos caracteres de tuítes de influencers. Influencers tentam inovar a todo custo, o que pode custar aprendizados do conhecimento mais "old school".

"Especialmente na discussão política, como ambas categorias buscam propagar ideias, é interessante ver as parcerias que podem se formar e também quando um passa a ocupar o outro lugar também. Em uma interpretação em que todo ser humano é em si intelectual, e não apenas uma casta acadêmica e/ou política, isso demonstra que certas barreiras são muito mais em termos de meio e método de comunicação do que a ideia de que seria impossível cumprir a função intelectual enquanto influenciador também", diz.

Para Rita Filgueiras, intelectuais ensinam que:

  1. Ter acesso ao espaço público não é sinônimo de falar sobre tudo no espaço público
  2. Criticar não é sinônimo de pensamento crítico
  3. Ter direito à opinião não é sinônimo de expressá-la a qualquer custo
  4. Ter pensamento estruturado é fruto de um percurso de aprendizagem e maturação de conhecimento
  5. Se um influencer quer comentar determinado tema deve ter a humildade de estudar, ler muito, estar informado e refletir sobre esse tema antes de se pronunciar. Esta é a lógica intelectual.