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Dilma e outras torturadas protagonizam filme sobre presídio na ditadura

Dilma Rousseff, no documentário "Torre das Donzelas", de Suzanna Lira - Reprodução
Dilma Rousseff, no documentário 'Torre das Donzelas', de Suzanna Lira Imagem: Reprodução

Kaluan Bernardo

Do TAB, em São Paulo

19/09/2019 05h30

"O filme é um manual de resistência para os dias de hoje", diz Susanna Lira, sobre seu documentário "Torre das Donzelas", que explora a histórias de mulheres presas durante a ditadura militar brasileira. O longa-metragem, que estreia em cinemas de 15 cidades nesta quinta-feira (19), traz senhoras que relembram, entre lágrimas e sorrisos, os anos em que passaram no presídio Tiradentes, na cidade de São Paulo. Entre as dezenas de entrevistadas, está a ex-presidente Dilma Rousseff, que chegou lá em 1970.

A prisão ficou conhecida como "Torre das Donzelas" por ser onde ficavam as presas políticas. O prédio foi demolido em 1972 mas, para o documentário, a diretora Susanna Lira reconstruiu uma réplica das instalações com base nas memórias das ex-detentas. Alternando entrevistas individuais a conversas em grupo dentro da réplica da prisão, o filme também traz cenas com jovens atrizes que simulam teatralmente alguns dos momentos descritos.

"Existe um sistema de apagamento no Brasil. Não temos sítios de memória, como em outros países que tiveram ditadura. Achei interessante recuperar esse espaço para ser um dispositivo de lembrança para as entrevistadas", explica Lira sobre a decisão de recriar o presídio.

Segundo a cineasta, foram quatro anos para convencer as mulheres a participarem. Naturalmente, muitas estavam traumatizadas e optavam pelo silêncio. A situação mudou a partir das manifestações de 2013 e, principalmente, durante o processo impeachment de Dilma.

"Falar sobre a tortura que se viveu não é fácil. O silêncio acontecia muito entre nós. Mas também houve a consciência de que se eu não falasse sobre a tortura, o torturador permaneceria dentro de mim. Esse entendimento nos fez romper o silêncio. É uma noção que veio junto da ideia de que falar faz com que o passado não se perpetue", diz Rita Sipahi, advogada, ex-conselheira da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e uma das entrevistadas.

Uma das conversas mais emblemáticas do filme, no entanto, aconteceu apenas depois do processo de impeachment de Dilma. Foi com a própria ex-presidente, descrita por Sipahi, sua ex-companheira de cela, como "uma grande amiga e uma pessoa muito afetiva, que foi muito solidária, ética e alegre com as outras". Na entrevista, Dilma discorre abertamente sobre como se sentia na prisão, quais técnicas psicológicas usou para resistir à tortura e como analisa aquele momento na atualidade.

Segundo Lira, a entrevista mais difícil de conseguir foi a dela. "As pessoas dizem que ela fez coisas que não fez, que praticou atos que não aconteceram. Ela evitava o assunto. Mas, acho que depois que sofre o impeachment e vê um deputado homenageando um torturador sem acontecer nada, ela fica abalada", opina a diretora.

O deputado em questão é Jair Bolsonaro -- que, no dia da votação na Câmara para autorizar a abertura do processo de impeachment, dedicou o seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro oficial condenado na Justiça brasileira em uma ação declaratória por sequestro e tortura durante o regime militar.

"Aprendi várias coisas na torre. Aprendi que, mesmo quando a gente é frágil, é possível resistir. Fomos capazes de fazer isso sem culpa (...) Fugimos de uma visão penitente da cadeia", defende a ex-presidente no filme.

Cena do documentário 'Torre das Donzelas', de Suzanna Lira - Reprodução
Cena do documentário 'Torre das Donzelas', de Suzanna Lira
Imagem: Reprodução

Sororidade é o fio condutor da história

"Torre das Donzelas" mostra que, apesar de confinadas, as prisioneiras encontraram no companheirismo um mecanismo de sobrevivência psicológica no confinamento. "O que aquelas mulheres viveram naquele contexto é um exemplo máximo de sororidade. Elas mostram que é preciso parar de competir, debater ideias que talvez não sejam tão relevantes no momento. O importante é se unir em torno de um único propósito: preservar a democracia. Foi o que elas fizeram na prisão", defende Lira.

Quando se encontraram na réplica do presídio, o grupo de mulheres lembrou os tempos de cárcere com histórias afetivas, como o dia em que Dilma e outra detenta fizeram uma sopa de quiabo intragável.

Suzanna Lira, diretora do documentário 'Torre das Donzelas' - Sofia Paschoal/Divulgação
Suzanna Lira, diretora do documentário 'Torre das Donzelas'
Imagem: Sofia Paschoal/Divulgação

Outro episódio ameno, mas emblemático, narrado no documentário: elas recebem uma mala cheia de vestidos de festa — o que, naquele contexto, era completamente inútil. Decididas a rir da situação, improvisam um desfile. Ao ver a cena, o diretor do presídio acha que elas estão enlouquecendo e institui o banho de sol. A cena é reinterpretada por jovens atrizes em um dos planos mais sublimes do filme.

"Elas reagiram bem a um evento ruim [a chegada de algo inútil] e ganham o banho de sol. É uma metáfora para hoje também: estamos vivendo uma situação ruim, mas, quem sabe, se reagirmos bem, não podemos sair desse momento horrível e ir para o sol novamente?", reflete Lira.

"O filme representa bem nossos momentos de alegria. Somos mulheres que continuaram", diz Sipahi. "Apesar das dificuldades, estávamos transformando aquele espaço da prisão. É claro que a realidade bate pesado, mas ainda podemos criar alegria. E a história é assim mesmo: em alguns momentos ela está indo para uma direção e depois toma outra. Mas há uma forma de se pensar e agir para transformar essa realidade", defende.

"Demos felicidade para nós na pior situação possível. Tentar humanizar o absoluto desumano é uma tarefa hercúlea. E aquele número de mulheres fez isso um pouco. Nós ganhamos deles [o regime militar] ali", diz Dilma ao final do filme.

Um passado presente

"Sem memória não há justiça", defende Sipahi. Para ela, é fundamental relembrar histórias como as da "Torre das Donzelas" para combater opressões. "Valorizo a memória como direito humano. As pessoas têm que se apropriar dela para entender sua história e, assim, ter consciência das necessidades do país, ser contra injustiças, torturas etc", defende.

Para ela, o filme traz esperança e uma reflexão para os jovens "assumam formas e métodos para transformar realidades de violência".

Lira vai em uma linha semelhante e defende que, por termos falado pouco da ditadura nos últimos anos, "abrimos brechas para que esse discurso de opressão e ódio voltasse com força nas redes". "Não ter um projeto de memória para o país abre portas para pensamentos nocivos", opina a diretora.

As entrevistas de "Torre das Donzelas" foram gravadas há mais de três anos e o filme já circulou em diversos festivais em 2018. Nesse meio-tempo, Lira acredita que ele ganhou outro sentido perante o contexto nacional. "Antes era um filme de memória. Hoje, é um filme de resistência. Assista para conseguir sobreviver aos próximos anos ao lado de seus amigos e companheiros", diz.

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