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Todo mundo está de mal: o que a cultura do cancelamento diz sobre nós

Anitta recebe Nego do Borel em seu show no Camarote N1/CarnaUOL - Manuela Scarpa/Brazil News
Anitta recebe Nego do Borel em seu show no Camarote N1/CarnaUOL Imagem: Manuela Scarpa/Brazil News

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB, em São Paulo

20/09/2019 04h00

A cerimônia do Oscar de 2019 não teve apresentador, lembra? O comediante Kevin Hart havia sido escolhido para fazer a performance anual com as tradicionais piadinhas entre um prêmio e outro, mas acabou não subindo ao palco porque foi "cancelado".

No início de setembro, numa tentativa de deixar o passado racista para trás, o youtuber sueco PewDiePie anunciou que iria doar dinheiro para a Liga Antidifamação, uma ONG de Nova York que combate o racismo contra os judeus. Só que a instituição já foi criticada antes por movimentos de esquerda e mais ainda pela ultradireita conservadora. Resultado: parte de seus seguidores, de todos os espectros políticos, decidiu cancelá-lo.

Se você não usa o Twitter, a expressão pode ter soado meio confusa. Mas é isso mesmo: Kevin Hart e PewDiePie foram cancelados.

As redes sociais cancelam pessoas a valer. Anitta, Taylor Swift e Nego do Borel já foram alvo da chamada cultura do cancelamento. O termo se refere ao boicote a um artista ou celebridade que tenha dito ou feito algo considerado moralmente errado — ou politicamente incorreto — pelos padrões de determinado grupo.

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Hart, por exemplo, foi cancelado quando a internet desenterrou tuítes homofóbicos que ele postou em 2016 (e se recusou a pedir desculpas). Anitta também recebeu o carimbo vermelho ao levar Nego do Borel ao palco de uma apresentação do Bloco das Poderosas. Isso porque ele tinha sido "cancelado", após ter feito comentários transfóbicos no Instagram sobre Luisa Marilac.

A hashtag #AnittaIsOverParty (Festa "Acabou a Anitta", em tradução livre) bombou no Twitter, em janeiro de 2019 — adaptação de um bordão que vem de fora ao nome da mais nova celebridade cancelada.

É fácil achar um novo cancelado por dia, mesmo que sejam figuras de nicho, como cantores de K-Pop ou youtubers. Depois de um ou dois dias em alta no Twitter, as hashtags costumam perder força e os cancelados seguem suas vidas e carreiras.

Essa é uma das grandes críticas nas redes à cultura do cancelamento: ela não parece surtir tanto efeito assim. Veja o caso do youtuber PewDiePie: mesmo depois de fazer comentários racistas em seus vídeos e ser "cancelado" (a segunda onda está apenas começando), seu canal no YouTube é o segundo maior do mundo em número de inscritos, mais de 101 milhões.

O mesmo não aconteceu com a banda brasileira Carne Doce, que tem sofrido ataques recorrentes desde o fim de 2018. Tudo começou quando uma mulher revelou ter sido abusada por um integrante do grupo. Em resposta, os membros da banda afirmaram ter expulsado o baterista ainda antes de a denúncia vir a público. Só que o cancelamento à banda não parou aí: em agosto de 2019, a cantora Letrux, que faria uma turnê com o Carne Doce, decidiu atender aos pedidos de boicote por parte do público e cancelou a turnê conjunta.

A especialista em direitos da mulher Loretta Ross não é contra apontar ações e discursos preconceituosos. Ela só acredita que o linchamento virtual (antigamente, público e figurado) não é a melhor maneira de apontar erros alheios. Em um texto de opinião intitulado (em tradução livre) "Eu sou uma feminista negra. Eu acho que a cultura do cancelamento é tóxica", publicado no jornal New York Times, ela argumenta que há maneiras melhores de se fazer justiça social.

Ela compara essa prática ao ativismo da década de 1970, com o qual ela se envolvia como feminista negra. "Criticava duramente mulheres brancas por não entenderem mulheres negras. (...) Raramente questionava se a forma como eu abordava o privilégio branco delas era, na verdade, contraproducente", reflete. Ela ainda lembra das vezes em que lhe passaram o pito publicamente (em inglês, usa-se o termo call-out, além de cancel), ao usar linguagem inapropriada para se referir a alguém. "Faz parte da curva de aprendizagem de todo mundo, mas eu ainda me sentia machucada, envergonhada e na defensiva."

Por que cancelamos

"Em termos de comportamento de grupo, toda vez que a gente aponta alguém e a coloca em situação de evidência, despersonaliza essa pessoa", afirma Fabiane Friedrich Schütz, doutora em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como as pessoas se relacionam em interações mediadas por tecnologias. Expor e xingar alguém em massa seria, portanto, um reflexo disso. Esquecemos que aquela figura pública é, no fim das contas, gente como a gente, e temos mais dificuldade de empatizar.

Essa prática vem desde antes da internet, como observa Loretta, mas é ampliada pelas novas formas de participação nas discussões sociais, avalia André Luiz Maranhão de Souza Leão, professor e pesquisador do programa de pós-graduação em Administração da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do grupo de pesquisa Círculo de Estudos de Fãs, Mídia e Entretenimento.

"O ser humano, em toda a sua história, sempre usou pessoas públicas e renomadas como uma referência de comportamento", observa. "Você soma o fato de a vida social ser mais participativa e engajada a um relacionamento diferente com as celebridades. Nas redes sociais elas se colocam de forma mais próxima do público, mais vulnerável", avalia Leão.


Com a polarização -- sim, sempre ela -- , defender de forma apaixonada seus princípios pode parecer ainda mais urgente. Medidas mais radicais, como cancelar alguém em vez de chamá-lo para um debate (mesmo que online), se tornam usuais.

A psicóloga explica que esse comportamento também reflete nossa necessidade de pertencimento. Cancelar alguém em grupo ajuda a reforçar uma identidade, para o bem ou para o mal. "Quando a gente está na internet, tem mais possibilidade de encontrar pessoas parecidas conosco do que no cotidiano — seja nas potencialidades, seja no que não é tão legal assim", afirma.

Em defesa do cancelamento

Se por um lado prolifera o movimento contra o cancelamento sob o pretexto de que ele não serve para educar alguém que fez um comentário preconceituoso, há quem defenda que a prática é importante para estabelecer limites publicamente.

"É inevitável que a redenção chegará para o cancelado. Mas, antes disso, a melhor ferramenta continua sendo que a corte da opinião pública exija um pedido de desculpas e use as redes sociais para cobrar responsabilidade, criando um exemplo para as pessoas do entretenimento que realmente se importam com as comunidades que consomem seu conteúdo", escreve a autora Shamira Ibrahim na Vice, no texto "Em defesa da cultura do cancelamento". Em outras palavras, ela acredita que o puxão de orelha em público ajuda a prevenir futuros deslizes de outras celebridades.

Leão, da UFPE, concorda com esse ponto. "Gera uma situação de cuidado com certas opiniões que são emitidas, coisas que falamos às vezes por impulso e no fundo revelam certos princípios e valores que nem sempre vão ao encontro de certos grupos que precisam ser respeitados."

"Por outro lado, me preocupa a tendência do oba-oba. Quando a coisa é feita com base numa reflexão, numa discussão, quando se trata do levantamento de uma agenda importante em termos de representatividade, acho que é relevante. Mas às vezes a pessoa simplesmente falou algo que não agrada e se cria esse cavalo de batalha", avalia o professor. Entre "cancelar o cancelamento" ou manter tudo como está, há espaço para questionar atitudes preconceituosas e gerar debates construtivos.

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