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PTinder e Bolsolteiros traduzem o amor em tempos de polarização política

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB, em São Paulo

07/11/2019 04h01

A informação talvez surpreenda aos mais jovens, mas já houve uma época, no Brasil, na qual era possível paquerar sem que o assunto "política" surgisse logo entre os primeiros tópicos.

Isso mesmo: horas e horas de flerte sem que alguém levantasse perguntas como "e a situação do Brasil, hein?", "Foi golpe ou não foi?", "e esse governo aí?" ou, a mais direta e reta, "em quem você votou?".

Claro que o assunto podia surgir, e os ânimos esquentarem, em ocasiões pontuais, como durante as eleições. Mas, antes de 2014, era improvável que alguém te "cancelasse" de antemão por suas opiniões políticas (salvo em casos extremos, lógico).

Sem entrar no mérito se tal realidade era boa ou não, o fato é que as coisas mudaram. Não importa o quão caliente esteja o "xaveco": uma opinião política considerada errada põe a perder quase instantaneamente qualquer chance de envolvimento amoroso ou carnal com o interlocutor. Tesão e ideologia se misturaram. E isso não volta atrás.

Política como fator de exclusão

Perfis em aplicativos de paquera como Tinder e Happn passaram a exibir, em número crescente, a informação que anula automaticamente qualquer chance de um "match" real: ser de esquerda ou de direita (até a ministra Damares Alves entrou no Tinder atrás de um marido).

Tanto é assim que surgiram os grupos e aplicativos voltados especificamente a uma linha política, como o Bolsolteiros e, mais recentemente, PTinder."Grupos que agregam pessoas com determinadas particularidades não são uma novidade. Por exemplo, os voltados a uma determinada religião", diz Ailton Amélio da Silva, doutor em psicologia, professor da USP e especialista em relações amorosas.

"A novidade", diz ele, "é isso ter chegado à política e se tornado uma característica excluidora. Ou seja, se a pessoa é de direita ou de esquerda, não há qualidade 'compensadora' possível: ela é rejeitada automaticamente".

Grupo de bolsolteiros se encontra em bar e posa para foto - Paulo Sampaio/UOL
Grupo de bolsolteiros se encontra em bar e posa para foto
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

O psicólogo cita os conceitos da homogamia e da homofilia como responsáveis por reger as relações afetivas. Ele explica em um post em seu blog: "Pessoas que estabelecem boas ligações pessoais entre si são assemelhadas em muitas coisas como valores, cultura, nível econômico e atitudes. Por exemplo, a similaridade nesses quesitos é a base do relacionamento amoroso (homogamia) e da amizade (homofilia)".

Na visão de Amélio, porém, vivemos dias um tanto diferentes. "Vai além da homogamia, vira radicalismo. Você exclui a pessoa com um toque. Vivemos um momento ímpar de radicalização."

Amor em tempos sombrios

De fato, amor verdadeiro em tempos de polarização extrema é tão complicado que alguns relacionamentos acabaram entrando para a história pela singularidade ou desfecho trágico.

A paraguaia Soledad Barrett Viedma, por exemplo, acreditou que José Anselmo dos Santos fosse um "igual". Militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), que combatia a ditadura militar no Brasil, ela chegou a engravidar do parceiro. Só que, no caso, não era amor, era cilada, e no sentido mais brutal possível.

Santos, que entrou para a história como Cabo Anselmo, era na realidade um agente duplo. Delatou Soledad e outros cinco companheiros, que terminaram mortos em uma emboscada na cidade de Paulista (PE). O episódio, ocorrido em 1973, ficou conhecido como o "Massacre da Chácara São Bento". Torturada e morta por agentes da repressão, a paraguaia foi encontrada nua dentro de um barril, em uma poça de sangue e com o feto expelido aos seus pés.

Anselmo, que viveu praticamente na clandestinidade durante anos, não tem pudores no Brasil de hoje em dar as caras, a ponto de ministrar palestras para o público de direita.

Outro caso que entrou para a história, este supostamente de um amor real entre opostos, é o do romance entre o oficial nazista Willi Schultz e a jovem judia Ilse Stein. Detalhes da relação entre eles permanecem obscuros até hoje, mas a versão oficial é a de que Schultz conheceu Ilse no gueto de Minsk, na Bielorússia, e se apaixonou a ponto de salvar sua vida, organizando uma fuga para a área controlada por guerrilheiros soviéticos.

São histórias, claro, de momentos muito mais extremos que os atuais. Mas não custa olhar para os extremos.

Medo dos bolsominions

"Percebemos muita gente com medo, principalmente mulheres, de entrar em um aplicativo e encontrar uma pessoa que votou no Bolsonaro e apoia o discurso dele", diz a professora e escritora Elika Takimoto, criadora do PTinder, ao lado da advogada Maria Goretti.

Elika Takimoto e Maria Goretti são as criadoras do PTinder - Arquivo pessoal
Elika Takimoto e Maria Goretti são as criadoras do PTinder
Imagem: Arquivo pessoal

O aplicativo, causador de grande alarde quando divulgado, deverá facilitar e promover encontros entre pessoas de esquerda. Ele deve entrar em funcionamento em novembro de 2019, mas os interessados já podem usar sua página no Instagram.

"Não se trata de um aplicativo, vamos dizer, apenas para encontros sexuais. Pretendemos promover palestras, lugares, bares, restaurantes, lançamentos de livro que tenham a ver com a esquerda", explica Elika.

"Não tenho o menor problema em conviver com pessoas de direita. As que são inteligentes, com quem a gente consegue conversar. Vejo casais onde um é de direita e o outro é de esquerda. O que está muito difícil é alguém de esquerda com alguém que apoia o Bolsonaro", analisa Elika.

"A partir do momento que você está ao lado de alguém que persegue professores, que tem discurso homofóbico, machista e misógino, não se trata mais de polarização política, mas de caráter", acredita. "O governo Bolsonaro faz mais que uma polarização. Ele coloca pessoas que incitam a violência de um lado, e as outras que estão se defendendo do outro."

Mocinhas e galãs conservadores

Pois o outro lado também se organizou para facilitar as relações entre "os seus", e fez isso antes da esquerda. O grupo do Facebook "Bolsolteiros" existe desde 14 de novembro de 2018 e agrega, evidentemente, pessoas identificadas com a direita e com o presidente Jair Bolsonaro.

Elaine Cristina é uma das administradora do grupo Bolsolteiros - Arquivo pessoal
Elaine Cristina é uma das administradora do grupo Bolsolteiros
Imagem: Arquivo pessoal

Hoje com cerca de 6.350 membros, o Bolsolteiros ainda recebe solicitações de interessados em ingressar na comunidade. "Aumentam quando surgem novas reportagens", conta a assistente social Elaine Cristina, administradora do grupo, ao lado de Cristiane Cusatis e Marcia Simas.

"Percebo claramente que, para a maioria dos membros, namorar alguém de esquerda está totalmente fora de cogitação", diz Elaine. "A esquerda abomina o que nós, de direita, defendemos: o conservadorismo."

Ela acredita que "um partido que tem uma bandeira que não a do Brasil, não pode representar o bem comum da nação", e vê a atual polarização como algo que permanecerá. Chegou a namorar um militante de esquerda em 2012, mas explica: "na época eu não me ligava em política e isso não interferiu no relacionamento".

De líder sindical a bolsolteiro

O vigilante Augusto José Gama, conhecido como "Guto", entrou para o Bolsolteiros poucas semanas após sua criação. Desde então, já entrou e saiu da comunidade duas vezes. A primeira por se envolver em uma discussão com uma integrante que, segundo ele, começou a ofendê-lo por causa de suas postagens e depois acabou expulsa.

"Eu participo muito do grupo, cheguei a ser a pessoa que mais postava. Depois parei porque isso estava criando uma visibilidade muito grande em cima de mim", diz Guto, que morava em Curitiba quando conheceu a comunidade — hoje ele vive em Cabo Frio (RJ), onde nasceu.

Guto elogia as mulheres do grupo, reclama que muitas vezes o relacionamento não engata por conta da distância (muitas moram em outros estados), mas revela que a presença na comunidade já lhe rendeu duas namoradas.

"Sobre a polarização ideológica, acho que é sazonal. O momento de efervescência política do Brasil foi que gerou esse fenômeno. Não é algo definitivo, mesmo porque, na minha juventude (hoje Guto está com 56 anos), fui líder sindical", revela o vigilante, que afirma ter se "decepcionado" com o sindicalismo e "amadurecido".

"Eu não deixaria de tentar conhecer alguém de esquerda. Preciso conhecer a pessoa, não me privaria da possibilidade de encontrar alguém especial pelo fato de ela gritar 'Lula Livre'", diz Guto. "Possivelmente não dará certo, mas eu não sou dono da verdade."

Abismo na relação

A cineasta Carolina Caffé não está no PTinder, mas poderia. "Mesmo nas relações que eu tive com pessoas mais ao centro, percebi um abismo muito grande entre nós. São momentos nos quais percebi que ser de direita ou de esquerda vai muito além do voto. É toda uma forma de olhar ou interagir com o mundo", diz.

Felipe Germano
Imagem: Felipe Germano

Carolina conta que quando participou da campanha para "virar votos" durante as eleições, notou que muitos dos que escolheram partidos de direita "não necessariamente têm valores de direita".

"Mesmo pessoas com olhares mais solidários votaram em partidos de direita. Pessoas que entendem o bem comum, mas que votam na direita por um atrapalho da mídia, porque querem melhorar a renda. Acho que eu mais me relacionaria com alguém assim, que votou 'sem querer' num partido de direita, do que em alguém com valores de direita que escolhe a esquerda", diz a cineasta, que pondera: "É muito difícil encaixar as pessoas 100% de um lado ou de outro. Existe um hibridismo, uma paleta de cores onde as pessoas misturam valores".

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