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Quem foi Florestan Fernandes, sociólogo que inspira acadêmicos até hoje

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

22/07/2020 04h00

Florestan Fernandes (1920-1995) faria 100 anos neste 22 de julho. Considerado um dos principais sociólogos do Brasil, o autor vem sendo celebrado em uma série de seminários no YouTube organizada pela USP (Universidade de São Paulo), sua alma mater, e uma coletânea de clássicos reeditados pela editora Contracorrente. O UOL, em parceria com a Casa do Saber, o Grupo Tapa e o Sesc, homenageia o intelectual nesta quarta-feira (22) com a leitura de uma peça dramática e uma roda de conversa.

Quem foi Florestan. Filho de empregada doméstica, Florestan nunca conheceu o pai. Viveu em cortiços no bairro de imigrantes italianos do Bixiga, e começou a trabalhar aos 6 anos de idade como engraxate. Depois, ainda foi garçom. Em 1941, ingressou no curso de Ciências Sociais da USP. Em seu doutorado pela instituição, seguindo o mestrado apresentado na Escola Livre de Sociologia e Política, investigou os indígenas Tupinambá. Em 1945, iniciou sua carreira como professor assistente na disciplina Sociologia 2. "Florestan foi intelectual e militante. As duas esferas nunca estiveram totalmente separadas na sua trajetória", diz o jornalista Haroldo Ceravolo Sereza, 46, autor da biografia "Florestan: a inteligência militante" (2005). Entre a universidade e a militância no Partido Socialista Revolucionário, por exemplo, o sociólogo traduziu livros de Karl Marx na década de 1940. Nos anos 1950, participou do famoso Projeto Unesco, que patrocinou diversos estudos sobre relações raciais no Brasil. Nos anos seguintes, engajou-se na defesa da escola pública, tornando-se alvo da ditadura militar. Foi preso após o Golpe de 64 e, em 1968, obrigado a se aposentar e se exilar no Canadá e Estados Unidos, com o AI-5. Voltou de vez ao Brasil em 1978, acolhido pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Nos anos 1980, o acadêmico acompanhou de perto a formação do Partido dos Trabalhadores e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Deputado federal entre 1987 e 1995, atuou na Assembleia Constituinte (1987-1988), especialmente dedicado à defesa da educação pública, na época já advogando por ações afirmativas nas universidades, que só seriam implementadas anos depois.

O que fez Florestan. Autor de mais de 50 livros, entre eles "Fundamentos empíricos da explicação sociológica" (1959) e "O que é revolução?" (1981), inaugurou uma tradição teórica na sociologia, observando a realidade brasileira "a partir de baixo", isto é, a partir da perspectiva do oprimido (e não do opressor). "É uma tradição rigorosa e científica e, ao mesmo tempo, crítica e antielitista", define o sociólogo Jessé Souza, 60, autor dos best-sellers "A classe média no espelho" (2018), "A elite do atraso" (2017) e "A ralé brasileira" (2009). "Florestan defendia uma unidade de sociologia com contribuições teóricas de diversos autores e abordagens. É um arrojado arcabouço teórico, em que o fundamento empírico é essencial, pois implica investigar de verdade, ir a campo, ouvir o que campo, favela ou periferia têm a dizer, por exemplo", acrescenta o sociólogo Matheus Gato de Jesus, 36, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

"A figura de Florestan é forte nas novas gerações mais como modelo de intelectual comprometido com a transformação social do país", pondera a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda, 70, atual diretora da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo). "Isso porque, afinal, as questões levantadas pelo autor continuam atuais, como democracia, desigualdade e relações raciais na sociedade brasileira", exemplifica.

O sociólogo semeou "saber e esperança, conhecimento e dever para com o destino de todos", definiu o sociólogo José de Souza Martins, em carta de 1994 endereçada ao acadêmico, que foi seu mestre. Semeou, sim, e floresceu, inspirando intelectuais até hoje, de professores eméritos como Martins e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a jovens articulados fora das universidades — além de biblioteca, Florestan dá nome a assentamento rural em Florestópolis, instituto em Fortaleza, fundação em Diadema, escola estadual em Perus, na capital paulista, entre outros.

O que faz Florestan. TAB ouviu depoimentos de acadêmicos-ativistas sobre a influência das ideias do autor na sua atuação junto aos "de baixo": o estudante de ciências sociais e youtuber Thiago Torres, 20, "o Chavoso da USP"; o sociólogo Tulio Custódio, 35, doutorando na USP e curador de conhecimento da consultoria Inesplorato; e a pedagoga Kelli Mafort, 44, da coordenação nacional do MST.

Torres cresceu na Brasilândia, na zona norte de São Paulo, e na adolescência se mudou para Guarulhos. Fez cursinho comunitário e ingressou na USP, em 2018. "Eu não tinha ideia de quem era Florestan. Nos primeiros dias no campus, vi o nome na Biblioteca Florestan Fernandes, pensei: 'o cara deve ser importante'. Na época, ele ainda estava muito longe da minha realidade. Estudante, desempregado, dois ônibus e dois metrôs todo dia para chegar, escrevi um post em 2019, desabafando sobre como é difícil ser pobre, periférico e negro em uma universidade tão elitizada", lembra.

O post viralizou e Torres passou a ser convidado para discutir inclusão nas universidades, ingressou no movimento Ação Subversiva e lançou o Chavoso da USP no YouTube. "Os tempos são outros, mas é o que tento fazer na internet: compartilhar conhecimento para despertar o interesse, intelectual e político, de jovens periféricos como eu. Vim de escola pública, sucateada, sem material. Sei das dificuldades que a galera passa. É um filtro violento para ingressar na universidade, o que impede um monte de gente de 'subir' na vida. Conhecimento sempre serve a interesses, ou para manter a sociedade como ela é, ou para transformá-la. O que eu quero é democratizar conhecimento, olhando a partir dos olhos dos 'de baixo', a população pobre e mais marginalizada, periférica, negra, indígena. Hoje os intelectuais das classes trabalhadoras somos nós, os Florestans, as Marielles."

Custódio cruza o conhecimento teórico do autor à sua atuação digital além da universidade. No mestrado, investigou intelectuais negros, com especial ênfase a Abdias do Nascimento, autor de "O genocídio do negro brasileiro" (1978), prefaciado por Florestan. Atualmente no doutorado na USP, ele se desdobra como conferencista de novas tecnologias e curador de conteúdos relacionados a diversidade, racismo, sexismo, violência e visibilidade de intelectuais negros e negras —participou, por exemplo, do TEDxMaré, o primeiro TEDTalk realizado em um complexo de favelas não-pacificadas no Rio.

"Florestan foi um intelectual total, que desdobrou diversos tentáculos na intersecção de atividades acadêmicas e ações políticas, articulando rigor teórico e observando a realidade da sociedade civil. É uma inspiração", diz. "Num mundo cada vez mais algoritmizado, marcado por milhares de textos, tuítes, posts, construir conexões é mais importante do que nunca."

O sociólogo Tulio Custódio - Divulgação - Divulgação
O sociólogo Tulio Custódio
Imagem: Divulgação

Florestan entendeu a questão da raça nas relações sociais do Brasil e levou essas discussões aos diversos espaços por onde passou. Mas mesmo gigantes deixam rastros controversos nas suas trajetórias: na década de 1950, por exemplo, ele foi criticado por "passar pano" para acadêmicos brancos diante de tensões com intelectuais negros. "Na época, ele também ofuscou a autora negra Virgínia Bicudo, que ficou por muito tempo no esquecimento. Quer dizer, ninguém é perfeito. E nosso papel hoje, intelectuais negros e novos atores, é pegar o legado de pensadores como Florestan não para imitar ou imacular, mas para atualizar e fazer melhor", afirma Custódio.

Kelli Mafort, por sua vez, conheceu Florestan primeiro como político, nas comunidades eclesiais de base, as CEBs. "Eu era uma jovem militante das pastorais sociais, entusiasmada com a habilidade de análise de conjuntura de um deputado federal, com olhar sempre atento aos de baixo. Isso me encantava, mas não conhecia sua trajetória teórica e nunca tinha lido nenhum dos seus livros", lembra.

Da Brasilândia como Torres, Mafort se mudou para o interior paulista para cursar pedagogia. Ao fim do curso, ingressou no MST. Desde 2008, é assentada da reforma agrária na cidade de Ribeirão Preto e de lá seguiu seus estudos no mestrado e doutorado em Ciências Sociais. Foi nessa época, no campus, que conheceu Florestan como acadêmico.

A ativista Kelli Mafort - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A ativista Kelli Mafort
Imagem: Arquivo pessoal

"Nos falta Florestan. Se estivesse vivo, seria aplaudido por jovens negros e pobres que ingressaram nas universidades nos últimos anos graças às ações afirmativas. Eles iriam lotar o saguão para aplaudi-lo, ato que aconteceu na ditadura militar, quando ele saiu da prisão e voltou para dar aulas. Florestan se sentaria entre eles e, antes de iniciar sua fala, ouviria suas histórias de vida", diz Mafort.

Ouvir o outro, construir pontes e compartilhar conhecimento são lições que floresceram. E, como dizia o próprio Florestan, contra as ideias da força, deve prevalecer a força das ideias.