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Com explosão do ensino a distância, qual o futuro do campus universitário?

O jornalista Felipe Zangari que se graduou em Teologia em um curso a distância - Arquivo Pessoal
O jornalista Felipe Zangari que se graduou em Teologia em um curso a distância Imagem: Arquivo Pessoal

Matheus Pichonelli

Colaboração para o TAB

18/02/2020 04h00

Não tinha almoço no bandejão nem encontro no café antes da aula. Não foi preciso atravessar a cidade para mergulhar na realidade onde o conjunto de prédios estava inserido. Nenhum colega pediu licença ao professor para dar avisos sobre festas, debates ou indicativos de greve. Ninguém fixou pensamentos soltos nas carteiras ou paredes dos banheiros. E as impressões sobre a aula não foram compartilhadas com os amigos no ponto de ônibus, nem nas repúblicas onde dividiam as contas e os projetos.

O ambiente universitário, para muitos brasileiros que cursam hoje o ensino superior, é uma tela que vai até onde alcança a conexão do celular ou a de wi-fi.

"Estudo no final de semana, à noite ou no percurso do trabalho", diz Wagner Baldo, controlador interno na Câmara Municipal de Cordeirópolis (SP), que, aos 35 anos, emenda seis cursos universitários a distância em faculdades privadas de uma vez: bacharelados em Matemática, Geografia, História, Ciências Econômicas, Tecnologia do Empreendedorismo e Análise de Desenvolvimento de Sistemas.

Baldo já tem licenciatura em História, bacharelado em Ciências Contábeis e em Administração na Unesp (Universidade Estadual Paulista), sua única formação presencial.

Seu contato com os colegas e professores hoje é por WhatsApp ou fóruns online. "Estamos dependentes cada vez mais da tecnologia, inclusive para as relações sociais", diz.

Izabelle Arruda cursa pedagogia em curso a distância - Bruno Santos/ Folhapress
Izabelle Arruda cursa pedagogia em curso a distância
Imagem: Bruno Santos/ Folhapress

Essa realidade tem sido cada vez mais comum. O número de vagas em cursos de ensino a distância deve ultrapassar as do modelo presencial até 2023. A estimativa é da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), para a qual a modalidade é "um caminho sem volta".

Um levantamento divulgado recentemente pelo jornal O Globo aponta que, de um total de 138 cursos com opção de ensino a distância no ensino privado do Brasil (EaD), 68 já têm mais alunos estudando online do que presencialmente. Em 2018 as matrículas em EaD chegaram a 1,9 milhão — eram 999 mil em 2013. Apenas 172 mil estão na rede pública.

Isso significa que o campus universitário está com os dias contados?

"Não está e nem pode", aposta Baldo. "As instituições de ensino precisam trabalhar melhor a questão da pesquisa no EaD. Poucas têm um programa estruturado para esse tipo de aluno. E o campus possibilita o contato humano."

A origem do campus

O campus universitário é um conjunto de prédios urbanos originado na Europa, remodelado nos EUA e que influencia desde sempre a configuração espacial das universidades brasileiras.

Odair Carpinelli Jr. fez várias especializações em cursos a distância - Arquivo Pessoal
Odair Carpinelli Jr. fez várias especializações em cursos a distância
Imagem: Arquivo Pessoal

Em "A Evolução histórica de campi universitários - estudo de caso do campus da UFSC", Vivian Dall'lgna Ecker e Nelson Popini Vaz, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explicam que no padrão de campus universitário, a pluralidade de funções, a diversidade da comunidade e o caráter democrático dos espaços contribuem para fortalecer as relações sociais e são fundamentais na formação da cidadania.

Essa configuração saiu da sala de aula e inspira hoje a mais contemporânea arquitetura das grandes empresas de tecnologia, caso do Google Campus em São Paulo. Isso muda totalmente no EaD.

Interação de menos

A falta de contato humano é compartilhada pelas oito pessoas que cursam ou cursaram graduação em EaD ouvidas pelo TAB. Os cursos são diversos.

Ex-seminarista, o jornalista Felipe Zangari terminou sua segunda graduação, em Teologia, em março de 2017. Atualmente ele dirige a Rádio Brasil, ligada à Arquidiocese de Campinas (SP). Em dois anos de curso, ele conta ter ligado no máximo três vezes para os tutores das disciplinas.

No período, não fez trabalho em grupo. A relação com o ambiente pastoral era assegurada com o estágio, que ele cumpriu na rádio e na escola onde lecionava.

"Cada disciplina tinha um fórum aberto. Mas a participação era tímida. O presencial estimula mais a discussão, a interação."

Com a turma da faculdade de jornalismo ele tem contato, troca ideias e informações até hoje — inclusive com o autor desta reportagem. "No EaD, a pessoa com quem mais troquei ideia só vi uma vez e não sei por onde anda."

Ana Ehmke, que se formou a distância em ciências contábeis, também diz ter sentido falta da interação e da troca de experiências com outros alunos, com os quais conversava por WhatsApp. "Uma biblioteca para estudo com mão na obra seria muito mais interessante do que dar um Google", resume ela, que estudava sempre que o tempo e o cansaço permitiam.

Juliana Inô, que concluiu pelo computador a licenciatura em Sociologia para poder dar aula, conta que em sua primeira graduação em economia, pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), a presença foi fundamental. "Não digo pedagogicamente, em relação às disciplinas em si, mas a vivência com o plural."

Estudar depois dos 40

Os cursos não-presenciais democratizaram o acesso à graduação, mas, cada vez mais individualizados, quase não permitem essa interação. "O encontro nos corredores ou laboratórios já é importantíssimo", diz Juliana Inô, que voltou a estudar após os 40 anos.

Ela conta que já era mãe e não tinha condições de frequentar novamente os bancos da universidade nem os encontros com pesquisadores da área. "A mãe nem sempre tem creche para o filho para ir trabalhar. Que dirá para ficar meio período numa faculdade?"

Gisela, que pede para não ter o sobrenome divulgado, também concluiu a graduação em Letras durante a maternidade. "Sempre estudei sozinha. O modelo dá chance a muita gente. Principalmente mulheres."

Hoje ela presta consultoria para quem quer voltar a estudar, mas não domina as ferramentas eletrônicas. "Muitos estão a fim de voltar a estudar, a pesquisar, mas não sabem anexar um arquivo no e-mail nem entendem o ambiente virtual da faculdade. Eu vi como funciona e explico como o trabalho deve ser organizado e estruturado. Faço o papel que muitos orientadores deveriam fazer."

André Torres, mestre em psicologia que concluiu a graduação não-presencial em Filosofia em 2016, também sentiu falta da vivência universitária, mas pondera que, na época, era a opção viável. "Consegui aproveitar bastante. Até por já ter uma graduação anterior e ser um tanto disciplinado", diz ele, que precisou fazer estágio em uma escola para se formar.

A faculdade, segundo ele, chegou a promover encontros, simpósios e palestras, mas as atividades eram opcionais. "É tudo muito individualizado. Não fiz amigos, só alguns contatos virtuais e superficiais." Hoje ele é tutor de ensino online em um curso de pós-graduação em comunicação não-violenta.

Também mestre em psicologia, Renata Temps conta que, em 2006, morava em uma comunidade de 5 mil habitantes no interior do Pará -- a viagem a Belém leva quatro dias de barco. "Eu trabalhava no RH de uma empresa que montou um polo de EaD e foi uma experiência incrível. Os alunos assistiam às videoaulas juntos, inclusive um pai e uma filha que trabalhavam lá. A empresa exigia que um tutor ficasse online para tirar dúvidas. Teve formatura com colação de grau e tudo mais. Vários trabalhadores foram promovidos depois de formados. Para aquela realidade, o ensino a distância foi transformador."

Anos depois ela voltou à faculdade para cursar Letras e dar aulas de português em inglês. Detalhe: a universidade fica no Brasil, e ela mora na Georgia (EUA).

No caso do administrador de empresas e engenheiro mecânico aposentado Odair Carpinelli Jr., de 64 anos, as opções online foram a forma encontrada para realizar o sonho de dar aulas na rede pública. Ele cursou licenciatura em Matemática e Pedagogia, e obteve vários títulos de especialização online.

"No EaD você tem que ser muito mais disciplinado. Existem algumas carreiras onde obrigatoriamente o presencial é importante, mas não em 100%. Isso precisa de uma adaptação."

Para ele, o ensino presencial está com os dias contados. "A credibilidade dos cursos EaD estão cada vez melhores. Nos dois sistemas existem os bons e maus alunos. Mas uma aula pelo EaD é mais produtiva. É possível voltar à matéria, pesquisar no Google, tirar dúvidas."

O que dizem os especialistas

Ex-ministro da Educação, o escritor e professor titular de filosofia da USP Renato Janine Ribeiro vê nos cursos online uma "oportunidade fantástica para cursos excelentes". "Temos condições para isso, o que seria bom porque dessa maneira venceríamos as limitações geográficas."

Ele afirma, porém, que no período de formação do estudante, que vai até os 22 anos, é fundamental o convívio com colegas e professores. "O ser humano se forma por esse convívio que ele partilha frente a frente. Nesse sentido, o EaD deveria ser uma exceção, e não a regra."

A alternativa é uma oportunidade para quem, com certa idade, emprego e filhos, tinha até pouco tempo atrás apenas a opção de fazer um curso noturno, que ele considera penoso e desgastante para a vida familiar.

Janine Ribeiro pondera que no ensino a distância o impacto transformador da educação tende a ser menor. "À medida que você domina aquele conhecimento, você se modifica, se reinventa. Isso é formação. Com a educação a distância, estamos transformando ou não? Essa é a questão."

Ele lembra, porém, que a fronteira entre ensino a distância e presencial não é absoluta. "Todo curso minimamente decente exige leitura. Se você está lendo à distância, ou vendo um vídeo, não muda tanto a natureza [do aprendizado]."

O pedagogo, pesquisador e professor de psicologia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Luciano Meira acredita que a expansão dos cursos online não vai aposentar, e sim fazer com que o campus universitário se reinvente. Coordenador de Ciência e Inovação da Joy Street, uma empresa de tecnologias educacionais lúdicas da qual é co-fundador no Porto Digital, em Recife, ele afirma que os campi não serão abandonados. Em vez disso, trarão outras possibilidades de relacionamento com a materialidade, como acontece no sistema de e-commerce. "Há dez anos, achávamos que as lojas físicas perderiam o sentido", lembra.

O especialista, que recentemente apresentou um TEDx Talks com o tema "A Aula Faliu", afirma que o processo de transformação digital de lojas de departamento como a Magazine Luiza, que veem as vendas online crescerem sem perder a conexão com o comércio local, é um indicativo das possíveis transformações na educação, com a possibilidade de recriação dos espaços físicos em novos ambiente de encontros.

"Vejo o campus universitário se recriando como uma rede comunitária, uma rede de conhecimento que reforça os laços afetivos locais. O campus pode ser um hub de conectividade para transformar vidas."

Meira avalia que as plataformas de aprendizagem online estão só no começo e têm muito a evoluir. "Em geral, são muito ruins, porque não fazem o conhecimento circular de forma mais pragmática. É apresentação e informação em forma de lista. Umberto Eco já falava disso no livro 'A vertigem das listas'. Temos a tradição de listar coisas ao invés de criar narrativas. O problema está na apresentação, que é extremamente conteudista e não focada em desenvolver competências e habilidades."

A questão, segundo ele, é como levar essas narrativas, as contações de histórias, para essas plataformas, sem perder a conexão com os espaços físicos.

Essa reinvenção do campus, aposta ele, dialogará com movimentos contemporâneos baseados na "cultura maker", uma ideia segundo a qual as pessoas devem ser capazes de fabricar e alterar objetos dos mais variados tipos em um ambiente de colaboração e compartilhamento de conhecimentos.

Essa ideia de universidade deverá ser mais próxima do mercado e exigir que as pessoas circulem em ambientes físicos de forma imersiva e colaborativa. "Os cursos não precisam ser 100% presenciais, mas agregar métodos de ensino conectados com a ideia de sala de aula invertida."

Meira defende uma revolução nas ferramentas de ensino para que seja possível uma nova visão sobre EaD - uma visão para muito além de iniciativas pioneiras como o antigo Instituto Universal Brasileiro.

O nó, segundo o educador e professor da Universidade Federal do ABC Fernando Cássio, é que o EaD brasileiro tem sido desenvolvido por instituições preocupadas em aumentar contratos de matrículas e oferecer uma formação pasteurizada para um número cada vez maior de alunos. "Muitas contratam professores para desenvolver materiais, ficam com direitos, e eles depois são demitidos."

Organizador do livro "Educação contra a barbárie", Cássio tem se dedicado a estudos relacionados a desigualdades educacionais. Segundo ele, EaD de boa qualidade custa caro e esse é o ponto nevrálgico da discussão. "Precisa tutorar, precisa ser feito por gente que entende. Não pode ser massificada no sentido negativo."

Ele afirma que o ensino a distância ganhou um alcance muito grande por conta da desregulamentação, e passou a ser não uma alternativa de acesso, mas de custo. "E quem abraçou o EaD foi o sistema privado, que não quer manter prédio, quer manter o material para rodar ad infinitum. Isso prescinde da instituição universitária como a conhecemos."

Cássio questiona, por exemplo, como cursos de Pedagogia, campeã em matrículas EaD, vão orientar professores a atuar na sala de aula com uma formação remota. "A discussão da gestão escolar tem de ser feita presencialmente."

O educador diz ainda que a extensão universitária envolve pensar a universidade junto com as comunidades do seu entorno. "Como vai haver vivência universitária se você não sabe onde fica o prédio ou não tem uma dimensão mais ampla da sociedade onde ele está inserido?"

Para ele, a eliminação do contato humano implica uma formação profissional debilitada. "A chance de uma pessoa sair preparada profissionalmente, reflexiva e sensível é quase nula. Se toda a vivência universitária for substituída por um curso de EaD nos moldes atuais, essa será uma forma barateada da fabricar diploma", diz.

A distância já não existe

A Abed afirma, em nota, que qualquer curso poderá ser ofertado a distância em sua totalidade ou parcialmente. "Os alunos que optam pelas ofertas híbridas sentem-se mais envolvidos no processo de aprendizagem, mais engajados e mais motivados, por isso os espaços físicos já apresentam modificações em suas estruturas, sejam elas com ampliações ou apenas com um design mais inovador, atrativo, colorido, atualizado."

"É fato que existem os laboratórios essenciais para uma aprendizagem vivencial e que são indispensáveis em cursos na área da saúde, por exemplo, mas isso não quer dizer que o híbrido não possa ser aplicado. Há, sim, gargalos regulatórios, como a falta de clareza para oferta do ensino híbrido, mas essa questão já está em discussão junto ao Ministério da Educação e associações que estudam as diretrizes educacionais. A resistência dos cursos de Direito, Pedagogia e cursos da saúde contra o EaD vem em detrimento da falta de credibilidade e conhecimento dos potenciais e oportunidades que a EaD pode gerar, justamente em função do preconceito que se criou com a expansão desta modalidade de ensino e a falta de qualidade ofertada por algumas instituições superiores."

Além disso, afirma a associação, os aplicativos de comunicação e redes sociais estão cada vez mais incorporados ao meio acadêmico. Um exemplo são as páginas fechadas de Facebook criadas pelas turmas. "Muitos ambientes virtuais de aprendizagem disponibilizam ferramentas inovadoras e atrativas para gerar essa comunicação plena, a distância e em tempo real, tornando-se essencial para interação visual entre os diversos atores envolvidos no processo."

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