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O que é o centrão, que cada vez mais protagoniza o governo Bolsonaro?

Manifestante segura cartaz onde se lê "Arthur Lira e Centrão, com quantas mortes se faz um impeachment", no Rio - ERBS Jr/FramePhoto/Estadão Conteúdo
Manifestante segura cartaz onde se lê 'Arthur Lira e Centrão, com quantas mortes se faz um impeachment', no Rio Imagem: ERBS Jr/FramePhoto/Estadão Conteúdo

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

18/08/2021 04h00

O termo carrega tons pejorativos — passa a ideia de quem fica em cima do muro, de quem não se posiciona. Fato é que o centrão, um grupo de políticos notadamente fisiológicos, passou a fazer parte das tomadas de decisões do país como uma consequência da própria organização política pós-redemocratização.

É o tal "presidencialismo de coalizão", tão bem definido pelo sociólogo e cientista político Sérgio Abranches em artigo publicado originalmente em 1988. O centrão, que congrega parlamentares de diversos partidos — sem uma linha ideológica comum, mas com muito apego ao "toma lá, dá cá" do poder — passou a ser peça necessária para a chamada governabilidade.

Isso porque um presidente eleito pouco ou nada faz se não construir uma base no Congresso — o que, em tese, é algo salutar da democracia presidencialista brasileira. O efeito colateral, contudo, foi o surgimento do centrão. E o fato de que, em momentos importantes da história, esse conjunto de deputados acaba tomando as rédeas da própria nação.

Como surgiu, afinal? É preciso voltar quase 25 anos, quando a Assembleia Nacional Constituinte foi formada e, entre 1987 e 1988, escreveu a atual Constituição brasileira. "Naquele contexto político de redemocratização do país e de elaboração da nova Carta Magna, dois grupos principais se destacaram", contextualiza ao TAB o jurista e cientista político Enrique Carlos Natalino, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). "De um lado, um grupo mais progressista e reformista, desejoso de implementar mudanças mais abrangentes na organização do Estado, da economia e das forças públicas, com presença de figuras como Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. De outro, um grupo mais conservador e reacionário, mais alinhado ao presidente José Sarney, que desejava manter o 'status quo' em matéria econômica e social." O termo centrão, explica o professor, foi criado para tachar esse segundo grupo. "Eram oriundos de partidos de centro-direita e buscavam, sobretudo, conter as mudanças mais radicais no campo econômico. Movidos pelo fisiologismo e abastecidos com benesses, cargos e verbas do governo Sarney, conseguiram alguns objetivos importantes."

É um grupo homogêneo? Não. "O perfil médio de um parlamentar do centrão é a do político de baixo clero, mais voltado a distribuir benesses para seus currais eleitorais do que a influenciar na pauta legislativa ou de políticas públicas. Ou seja: o grupo se orienta menos por uma ideologia ou um conjunto de ideias políticas do que por critérios fisiológicos. É a 'velha política' na veia", afirma Natalino. "O centrão é a união informal de certos parlamentares de alguns partidos, sem homogeneização ideológica. Eles estão ligados aos interesses políticos mais miúdos", explica o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Eles são necessários? No tal presidencialismo de coalizão, eles acabaram se tornando necessários. Um presidente só governa quando tem maioria no Congresso — e essa maioria acaba passando pelo centrão, já que dificilmente é obtida apenas com as bancadas ideologicamente alinhadas. Prando recorda que Fernando Henrique Cardoso (presidente do Brasil entre 1994 e 2001) costumava queixar-se de que "para governar esse grupo tem de estar junto". "Mas ele frisava que a questão consistia em 'eles me levam ou eu levo esse grupo'", pontua o professor. O ex-presidente costumava dar as cartas. "Como [o atual presidente Jair] Bolsonaro não tem agenda nenhuma, ele acaba sendo levado pelos interesses mais mesquinhos e mais imediatos do centrão", afirma Prando.

Eles estão sempre perto do poder? Desde a redemocratização, sim. Como um camaleão político, o centrão articulou — e derrubou — pautas de todos os governos de lá para cá. Prando cita o conceito cunhado pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) para explicar o comportamento do grupo. "Ele fala da modernidade líquida, que substitui a modernidade pesada, para definir a sociedade de hoje. O centrão é esse conjunto líquido da política, que consegue entrar em qualquer espaço", comenta o professor. "Eles estiveram próximos do Lula, da Dilma, que eram entendidos como governos de centro-esquerda. Hoje têm uma perspectiva mais de direita por conta de quem está no poder, o Bolsonaro."

Quando a versão atual do centrão começou? Com a eleição para a presidência da Câmara do então deputado federal Eduardo Cunha, oriundo do baixo clero. Sua alçada ao cargo configurou um racha com o governo petista, que queria a cadeira principal da Câmara. Hábil ao costurar alianças, Cunha arregimentou uma base, originalmente chamada de "blocão". Foi esse grupo que acabou viabilizando o processo de impeachment de Dilma Rousseff - e o atual centrão é herdeiro direto dessa configuração. Em seu recém-lançado livro "Tchau, Querida: O Diário do Impeachment", o próprio ex-deputado conta como se aproveitou de um descontentamento de parte da bancada com a inabilidade da então presidente Dilma em rifar cargos e verbas mantendo uma base aliada para unir um grupo. "O acordo incluía a formação de um bloco informal, que ficou conhecido como blocão — hoje chamado de centrão", escreveu Cunha.

Com Bolsonaro, o centrão ficou mais à direita? Não necessariamente. "Não acredito que o centrão tenha se tornado mais direitista com o advento do governo Bolsonaro, pois as pautas que [o centrão] defende sempre existiram dentro da Câmara dos Deputados", diz Natalino. "A diferença é que, no contexto atual, elas foram adotadas como diretrizes de Estado e como políticas públicas oficiais pelo governo. O centrão funciona muito mais como um condomínio de poder do que como um núcleo ideológico." Mas ele lembra que a maneira de governar do atual presidente causou um "enfraquecimento dos partidos e das lideranças partidárias". "Nesse sentido, as frentes partidárias e grupos mais heterogêneos como o centrão acabam substituindo os partidos políticos como centros de pensamento e de articulação de interesses", acrescenta.

No atual contexto, o centrão ajuda a democracia? Em junho, o atual presidente da Câmara, Arthur Lira, publicou um artigo chamado "O centrão é uma força moderadora", no jornal Folha de S.Paulo. No texto, ele argumentava que o grupo, do qual faz parte, tem um papel fundamental no próprio funcionamento da máquina pública - um tipo de força moderadora que permite a governabilidade no sistema político brasileiro. Nesse sentido, considerando os arroubos autoritários de Bolsonaro, é de se reconhecer que o papel desses deputados tenha uma louvável serventia. "Como condomínio partidário que comanda a Câmara dos Deputados, o centrão tem se aproveitado da fraqueza da liderança política do Palácio do Planalto para exercer um papel de centro organizador da agenda legislativa do Congresso Nacional", diz Natalino. "Embora muitas vezes os parlamentares desse grupo busquem pautas específicas, como a bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala), é importante destacar que o centrão tem tido um papel de contrapeso às teses mais radicais defendidas por Bolsonaro, como a ruptura institucional. Nesse sentido, concordo com alguns analistas que acreditam que a presença do centrão dentro do governo Bolsonaro, na prática, atua como uma peça de contenção dos problemas institucionais mais graves que o bolsonarismo poderia causar."