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Ruas com nomes bizarros causam transtornos e gozações para moradores

A comerciante potiguar Vilma da Silva vê de sua varanda a placa da rua em que veio morar desde dezembro na zona Leste de São Paulo - André Porto/UOL
A comerciante potiguar Vilma da Silva vê de sua varanda a placa da rua em que veio morar desde dezembro na zona Leste de São Paulo Imagem: André Porto/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB

14/08/2021 04h00

"Não sou só eu: teve mais gente que perdeu oportunidade de emprego. Como você vai convencer na entrevista do RH sobre seu currículo e seus planos na carreira morando em um endereço como esse? É muita vergonha alheia." Daiana Barbosa é moradora da travessa Sem História, Sem Destino, no extremo da zona leste paulistana.

Desesperançada, ela decidiu empreender. Faz tranças afro em casa, mas muitas clientes desistem de colocar suas cabeças em jogo quando escutam o nome do local. E os perrengues não param por aí. "Fui depor como testemunha para ajudar uma amiga minha e, quando perguntaram qual era meu domicílio, foi aquele vexame. Até a juíza caiu na gargalhada."

A comerciante Vilma da Silva mudou-se em dezembro último de Mossoró (RN) para vender castanha de caju em São Paulo e fixou residência justamente ali. "Minha filha ficou no norte estudando, queria mandar pelo correio um presente pra mim e pediu o endereço. 'Nossa, que nome triste! Não tinha um lugar melhor, não?' foi a reação dela", conta.

Ao contrário do que possa parecer, a via não é um beco sem saída. Dá para virar na travessa Saudosa Maloca, depois pegar a Samba de Uma Nota Só e chegar até as travessas Evidências e Nuvem de Lágrimas — como esses sucessos, "Sem História, Sem Destino" é uma faixa menos conhecida do LP Cowboy do Asfalto, da dupla Chitãozinho e Xororó.

travessa sem história, sem destino - André Porto/UOL - André Porto/UOL
A trancista Daiana Barbosa (à esquerda) mora na travessa Sem História, Sem Destino e coleciona perrengues com seu endereço
Imagem: André Porto/UOL

Esse disco é de 1990, mesma época em que o terreno público foi ocupado pelos movimentos por moradia e surgiu o Jardim da Conquista. No processo de regularização, a prefeitura determinou que as 146 vias do loteamento deveriam ser batizadas e apresentou à associação de moradores o Banco de Nomes de Rua, que existe desde 1975 na secretaria municipal da Habitação.

Como a lista com temática musical era a mais extensa, dois diretores da associação decidiram que os caminhos de terra se transformariam em uma playlist bem eclética, misturando música sertaneja, bossa nova, tango, entre outros ritmos. E a antiga viela 5 acabou ganhando seu atual nome, um tanto existencialista.

Se essa rua fosse minha...

Se o brasileiro tem criatividade de sobra para inventar nomes próprios para seus filhos, por que se acanharia em apelidar espaços públicos das formas mais inusitadas?

Falta iluminação, segurança e asfalto, mas o bairro Gabriela na cidade de Feira de Santana (BA) é um sucesso de audiência: a maioria das vias foram inspiradas em telenovelas — tem rua Vale Tudo, Rei do Gado, entre outras. Já em Campo Grande (MS), a rua Cebolinha faz esquina com as ruas Mônica e Magali. Só o bairro não se chama Limoeiro, como nos gibis.

Em São Paulo, porém, um grupo de universitários meio riponga meio irreverente começou essa história. E o curioso é que a iniciativa foi incentivada pelo poder público.

A maior metrópole brasileira se industrializou e cresceu desordenadamente no século 20. A mancha urbana se ampliou em loteamentos e por todos os quadrantes do município surgiam ruas 1, 2, 3, 4 etc. Chegou a um ponto em que quase a metade das 49 mil vias paulistanas era designada com números.

Como isso gerava um transtorno para a correspondência (e a cobrança de impostos), a prefeitura em 1974 arregimentou 32 universitários para mapear e cadastrar essas ruas. Depois de meses de trabalho entre guias desatualizados, fichas de catalogação e visitas aos locais, eles receberam como missão final alimentar uma lista com 25 mil potenciais nomes de rua.

"A cada 100 sugestões boas, a gente ganhava uma folga. Então, o pessoal corria para a enciclopédia Barsa e procurava nome de pássaro, mineral, estrela, qualquer coisa para conseguir ficar sem trabalhar", se recorda rindo o jornalista aposentado Dirceu Rodrigues, 68, que liderou o grupo de estagiários.

Ele mesmo conseguiu que um palpite seu tempos depois se materializasse em uma via do Capão Redondo (zona sul). É a rua do Soneto da Fidelidade, em homenagem ao poema de Vinícius de Moraes. "O curioso é que a gente não podia propor nome de personalidade, porque isso tinha que passar por votação da Câmara e demorava muito mais tempo". A rua do Capão tem um só quarteirão, mas um passeio por lá pode ser infinito enquanto dure, ainda mais que ela termina em um isolado muro, todo pichado com desenhos de folhas de maconha e gente fumando.

Uma brincadeira de rua

"Minha amiga veio me visitar e roubaram o carro dela na frente de casa. Ligamos para a polícia, mas, quando passamos o endereço, eles desligaram. Acharam que era trote", relata a dona de casa Sandra Marques, habitante da rua Borboletas Psicodélicas, na região do Jabaquara (zona sul).

Quem vive por lá se habituou com as gozações. "É na hora de pedir pizza, de preencher formulário em consultório médico, de abrir crediário em loja. Eu digo que sou uma borboletinha e mexo os braços como se batesse asas. Só levando na esportiva", confessa a cozinheira Solange Silva, que mora há quatro décadas por lá.

Ela ainda se recorda quando a correspondência chegava como "praça Juan Gris", área verde que fica em frente e homenageia o pintor cubista espanhol. Depois surgiu a placa "rua Marcelo Vieira Barbosa", mas ela não era tão convencional assim: tratava-se do nome do filho (vivíssimo) do proprietário da primeira casa construída por lá. Como só um morto recebe esse tipo de homenagem, a solução oficial foi consultar a tal listagem oficial de nomes. Era o ano de 1991, a cidade vivia uma campanha de batismo em massa de logradouros, e alguém da prefeitura pinçou a preciosidade, sem consultar os moradores.

rua borboletas psicodélicas - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Placa da rua Borboletas Psicodélicas surge no meio do emaranhado de fios em bairro da zona Sul paulistana
Imagem: André Porto/UOL

Na esquina, a placa no poste está cercada por uma teia desordenada de fios elétricos, parecendo que uma aranha alucinada montou o cenário. Mas a inspiração para o nome não veio de nenhum livro de zoologia. "Borboletas Psicodélicas" é o terceiro movimento da peça para piano "Pour Martina", do compositor paranaense Henrique Morozowicz (1934-2008).

O curioso é que músicas de Morozowicz nomeiam vias em todas as regiões do município: na Zona Sul (rua Três Episódios), Norte (travessa Pequenos Prelúdios), Leste (rua Suíte de Natal) e Oeste (rua Repicar dos Sinos). O autor curitibano só perde nesse quesito para a maestrina capixaba Lycia de Biase Bidart (1910-1990), que tem 26 títulos de suas composições pendurados nos postes paulistanos, como se a fiação amarrada neles formasse uma partitura. Todas essas sugestões partiram de um instrumentista clássico infiltrado no meio daqueles hippies inventores de ruas.

Hit Parade nos postes

Todo remendado e desbotado, um Passat parece saído da frota distópica dos filmes Mad Max e combina bem com a placa em cima dele que diz "rua Lembranças do Futuro", um dos becos do Conjunto Habitacional Águia de Haia, encravado na zona leste da cidade.

"É estranho pra caramba. Esse nome é total falta de lógica. Como pode ter lembrança do que ainda não aconteceu?", se pergunta o caminhoneiro Lourival Santiago. Do outro lado do morro está a rua Verão do Cometa. "Aqui só tem nome doido", sentencia a empregada doméstica Rosa de Castro, perguntada sobre o assunto na porta da casa.

Os dois moradores não sabiam, mas ambos são títulos de músicas da dupla Sá & Guarabira. E todo o bairro é uma obscura parada musical saída da virada dos anos 70 para os 80, com ruas como Ondas Eternas (Fagner), Banquete dos Signos (Elba Ramalho), Coração Noturno (Raul Seixas).

rua Verão do Cometa - André Porto/UOL - André Porto/UOL
Moradores não sabem, mas o nome da rua Verão do Cometa vem de uma canção da dupla Sá & Guarabira
Imagem: André Porto/UOL

Em outra área da ZL, outra via desafia novamente a razão: é a rua Sol da Meia Noite, no Jardim Maia. A polêmica se instala na barraca de pastel armada na esquina dessa via. "É um nome de um filme", diz uma cliente. Sim, tem dois longas-metragens norte-americanos diferentes com esse título no Brasil, um de 1985 e outro de 2018, mas eles não foram a inspiração.

Quem mata a charada é uma pasteleira. "É um nome de uma planta, como todas as ruas daqui. Minha casa era na rua Espiga de Ouro, a escola que estudei era na Erva do Sereno e para ir para a estação de trem pegava a Estrela da Noite", relata Rosana de Oliveira. O sol da meia-noite é uma espécie de crisântemo, mas não há nenhum dele nos canteiros da rua.

Esse batismo aleatório e, por vezes, absurdo contrasta com a história dos nomes antigos dos caminhos urbanos, quando a megalópole era apenas uma vila, e esses corredores eram apelidados por alguma característica. As ruas da Palha, do Paredão e dos Bambus, por exemplo, viraram com o tempo as importantes vias centrais Sete de Abril, Xavier de Toledo e Rio Branco. Nomear tem o poder de fazer aparecer ou desaparecer. Isso serve para pessoas e ruas.