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Ambulante afia até estrela ninja e espada, mas não quer saber de crimes

O amolador ambulante Aparecido Lima trabalha em calçada da Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo - Rodrigo Bertolotto
O amolador ambulante Aparecido Lima trabalha em calçada da Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo Imagem: Rodrigo Bertolotto

Rodrigo Bertolotto

Do TAB

25/11/2020 04h01

Eles ganham a vida em cima de pedais e rodas. A definição se aplica tanto aos cada vez mais numerosos entregadores de aplicativo quanto aos cada vez mais raros afiadores ambulantes. Um depende do toque do celular para saber quem são seus clientes. O outro usa todas as notas de uma gaita para avisar a freguesia que está chegando. No asfalto, o nomadismo da economia digital cruza o caminho com um antepassado pré-capitalista.

"Não me acostumo mais a ficar dentro de uma firma. Encaro meu expediente como um passeio. Você vê a natureza, conversa com as pessoas. E o melhor é que eu mesmo dou as coordenadas que tenho de obedecer", define Aparecido Lima, o Cido, 46. Antes de empurrar seu carrinho de amolar, brinca: "Vamos botar a empresa para andar?"

Seu apito vai deslizando pela boca e alcança frestas de prédios, janelas, telhados e balcões. E ele parece que atravessou algum portal dos tempos para estar ali, em um cortejo de andarilhos que poderia incluir a buzina de borracha de um velho sorveteiro, além do ritmo da matraca de um vendedor de biju.

Aparecido não veio de outra dimensão. É de Campo Limpo Paulista, município distante 45 quilômetros da capital, a 90 minutos de trem, pela linha 7. Como ele, outros 40 afiadores fazem o mesmo trajeto e se espalham pelo mapa da cidade de São Paulo: cinco deles descem nas estações Lapa, Água Branca e Barra Funda. Um deles é Cido.

"Todos aprenderam a profissão por lá com o Orlando Tutão, que já está aposentado. Eu mesmo já ensinei cinco ou seis, incluindo um sobrinho e um cunhado", conta. Ele lamenta, porém, que poucos jovens se interessem pela função atualmente, mesmo com tanta gente desempregada no país.

Seguindo uma lógica de mestres e discípulos dos ofícios medievais, a história dos amoladores reserva uma origem curiosa e rural, muito mais distante do que a cidade em que Cido mora.

A arte de amolar

Cercada por fontes de água, uma estátua de bronze no centro da aldeia de Luintra, no norte da Espanha, representa um amolador andante. Da Galícia entre os séculos 18 e 19 partiram a maioria dos afiadores que desceram por toda a Península Ibérica, se espalharam pela Europa e migraram para América e outros continentes.

O ato de afiar facas vem desde a pré-história, mas a geringonça itinerante com rodas e pedais foi criação da região galega de Ourense, que ficou conhecida como "terra da faísca". E o apito pendurado no pescoço também veio de lá.

Amolador - Marc Ferrez - IMS - Marc Ferrez/IMS - Marc Ferrez/IMS
Amolador retratado pelo fotógrafo Marc Ferrez no final do século 19
Imagem: Marc Ferrez/IMS

Inicialmente, o mecanismo era de madeira. Uma roda extra possibilitou ao amolador empurrar o carrinho e perambular de aldeia em aldeia, província em província, até chegar aos confins do mundo. Já no século 20, a mecânica de correias e engrenagens metálicas das bicicletas se acoplaram à engenhoca para mover o esmeril.

Os afiadores desenvolveram até um dialeto, chamado de "o barallete", que usava a língua galega como base, mas inventava palavras, principalmente para ocultação de mensagem. Assim, Portugal era "Biguegue", América era "Moreira", a roda era "tola", e velho era "coizo".

O ofício tornou-se tão popular que foi pintado pelo espanhol Francisco de Goya (o quadro "El Afilador", de 1812) e retratado pelo brasileiro Marc Ferrez, em foto de 1899 que mostra um amolador de tesouras pelas ruas do Rio de Janeiro.

Caminhos da memória

Em sua vida itinerante, Cido não repete antes de um mês o mesmo roteiro. Os becos escondidos e as vielas diagonais no coração de bairros como Pompeia, Perdizes e Vila Romana são caminhos reais e mentais para ele. "Isso aqui é que nem pescaria: você fica do lado do rio que está rendendo", resume. Áreas que misturam comércio, como restaurantes e salões de beleza, e residência, com bastante população idosa, é o ideal para encontrar clientes.

Durante a noite, ele deixa sua firma estacionada em depósitos perto das estações de trem, que paga com serviços. Seu batente vai das 9h às 15h, para evitar as chuvas de final de tarde e as aglomerações no trem. "É um estilo de vida mais tranquilo. Antes, eu subia umas pirambeiras de um fôlego só, mas hoje fico mais no plano."

Mas há as concorrências. Da tecnologia, com as facas afiadas a laser. Da economia de plataforma, com motoboys indo e levando para oficinas de afiação. Das bancas e chaveiros, que se arriscam com as modernas máquinas afiadoras elétricas. E da própria cidade, trocando casinhas por arranha-céus, nos quais o potencial cliente fica distante vários andares de elevador.

"Antigamente, o dia era muito mais produtivo. Com a pandemia, reduziu ainda mais o serviço, porque as pessoas de idade não querem contato e muitas manicures e costureiras que afiavam comigo perderam o local de trabalho e o emprego", relata.

Nascido em Jundiaí, Cido trabalha na função há 30 anos. Com seus ganhos, construiu uma casa e bancou a família de três filhos. Parou de estudar na sétima série para trabalhar como repositor de supermercado, servente de pedreiro e ajudante de fábrica. Aos 17, foi aprender o ofício com o vizinho Tutão e encomendou o carrinho no serralheiro local especializado no dispositivo.

Recentemente, retomou os estudos junto com sua mulher. E os dois completaram o terceiro ano do Ensino Médio nos cursos públicos noturnos do EJA (Ensino para Jovens e Adultos). "Eu gostava de estudar, mas parei porque precisava ajudar em casa. Com minhas filhas completando a escola, decidi voltar às aulas."

A espada e a estrela ninja

Seu vozeirão é um diferencial que ecoa pela vizinhança junto com a gaita. "Olha o amoladorrrr. Amola faca, tesoura, alicate de unhaaaa", ele entoa depois do toque da gaita: "Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dóóóóóóó, [e a volta rápida] si, lá, sol, fá, mi, ré, dó". E ainda tem como acompanhamento o coro de latidos e uivos dos cachorros, amolados com seu silvo.

"Modéstia à parte, poucos afiam bem como eu. Só conheci um melhor. Era o seu Aníbal, um senhor italiano que trabalhou aqui na Pompeia. Ele morreu velhinho trabalhando, atropelado na rua Tito, faz uns 15 anos", lembra.

Nos dias de chuva, seu lucro não passa de R$ 30, e é melhor nem sair de casa. Mas, numa boa jornada, tira R$ 150, cobrando em média R$ 10 por peça. O trabalho mais delicado é com os alicates de unha. Uma lixadinha a mais e se perde o instrumento. Cido confere o fio de corte pelo olho e pelo tato.

Amolador - Aparecido Lima  - Rodrigo Bertolotto/UOL - Rodrigo Bertolotto/UOL
O afiador Aparecido LIma percorre as ruas da Pompeia, bairro da zona oeste de São Paulo
Imagem: Rodrigo Bertolotto/UOL

O trabalho com armas brancas nunca complicou sua vida. "Já afiei estrela ninja e espada de samurai. Nunca pergunto o que vão fazer. Tem gente que fala: 'Hoje eu vou matar um'. Não sei se é brincadeira ou não. Eu faço meu trabalho e pronto. Na Vila Leopoldina, amolei faca até para aquele dono da Yoki [Marcos Kitano Matsunaga]. Só espero que a mulher dele [Elize] não tenha usado no esquartejamento do homem", recorda o caso criminoso que chocou o Brasil em 2012, cometido em um dos bairros em que trabalha.

O sinal dos tempos interferiu em suas andanças: o celular modifica seu itinerário segundo as mensagens e ligações da freguesia, e a maquininha de débito virou a principal forma de pagamento. Cédulas e moedas parecem coisas do passado.

Em um mundo onde as pessoas perambulam pelo Google Street View, Cido é um personagem remanescente de uma época em que legiões de ambulantes circulavam pela cidade, desde o arranjador de guarda-chuvas, passando pelo consertador de panelas e o leiteiro, depositando as garrafas de porta em porta.

Os amoladores perderem aos poucos sua serventia, como uma faca que vai ficando cega, mostra muito da lógica da sociedade de consumo com seus produtos programados para virarem obsoletos. A esperança é que uma maior consciência de reaproveitamento e de sustentabilidade possa manter os afiadores na paisagem sonora das cidades.