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Por que os zoológicos estão em xeque no Brasil e no mundo?

Para biólogo, zoológico de São Paulo é tido como modelo ideal no Brasil  - Rivaldo Gomes/Folhapress
Para biólogo, zoológico de São Paulo é tido como modelo ideal no Brasil Imagem: Rivaldo Gomes/Folhapress

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

10/08/2021 04h00

No início de agosto, um debate recente no país chegou ao fim. O TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) decidiu que a elefanta Bambi ficará definitivamente no Santuário Elefantes Brasil, na Chapada dos Guimarães (MT) — mas as conversas sobre liberdade animal seguem em alta.

Bambi tem 58 anos e, em 2009, foi resgatada de um circo pelo Ibama. Na época, o animal foi encaminhado ao zoológico de Leme, no interior de São Paulo. Em 2014, ela foi transferida para o zoológico de Ribeirão Preto, no mesmo estado, e em setembro do ano passado ganhou novo lar, no Santuário — onde, ao contrário dos dois zoológicos por onde passou, com espaços apertados, ela passou a ter ambiente amplo e a conviver com uma manada.

Desde dezembro, no entanto, a elefanta era centro de uma briga judicial. O promotor Wanderley Baptista da Trindade Júnior solicitou ao TJSP que Bambi voltasse para o zoológico de Ribeirão Preto, alegando que o animal era um "patrimônio" da cidade. Agora em agosto, o pedido foi rejeitado após acordo entre a ONG Fórum Animal e a prefeitura.

A história de Bambi, no entanto, traz de volta a discussão cada vez mais comum sobre os modelos de zoológicos e o futuro desses espaços. Por muito tempo, eles estiveram no nosso imaginário como o local onde podíamos passear e conhecer animais de variadas espécies. Mas por trás do entretenimento, algumas dessas instituições também escondiam inúmeros casos de maus-tratos.

Para grupos contrários à existência de zoológicos, o confinamento de animais impede, em muitos casos, que eles expressem seus comportamentos naturais, se alimentem de forma adequada e ainda os coloca em situações de risco sanitário. "O que se sabe é que muitos zoológicos estão mudando o foco, trabalhando na linha de conservação e recuperação das espécies ameaçadas, mas sempre existe o questionamento sobre o que acontece após a recuperação (produção de forma artificial). Se for devolver para a natureza, vai devolver em que natureza, sabendo que os biomas cada dia mais são degradados?", questionam, em nota ao TAB, representantes do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, ONG responsável pela defesa da elefanta Bambi.

A elefanta Bambi no bosque Fábio Barreto, em Ribeirão Preto. - Edson Silva/Folhapress - Edson Silva/Folhapress
A elefanta Bambi no bosque Fábio Barreto, em Ribeirão Preto.
Imagem: Edson Silva/Folhapress

O que Bambi tem a ver com isso? A história da elefanta chama atenção para a maneira como os animais são tratados em zoológicos e a necessidade de se discutir o ambiente ideal para eles. "Grande parte dos zoológicos não conta com a estrutura mínima para proporcionar qualidade de vida e atendimento veterinário aos animais, principalmente os de grande porte", afirma o Fórum Animal. No caso da Bambi, diz a organização, no antigo zoológico, ela dividia espaço com uma elefanta que a agredia. Relata-se, também, que passava cerca de 18 horas confinada numa área com pouco mais de 650 metros quadrados, com chão de cimento e pouca luminosidade, o que lhe causou doenças nas patas e articulações. "Só agora, com uma idade avançada, ela está tendo condições de viver com outros animais da mesma espécie e expressar o seu comportamento natural em um ambiente em que ela pode interagir."

Os zoológicos vão deixar de existir? Alguns sim, na visão do biólogo Paulo Braga Mascarenhas Júnior, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Para ele, o modelo de zoológico voltado apenas ao entretenimento do público "está com os dias contados". "Um zoológico legal é aquele que consegue sensibilizar e educar pessoas em suas visitas, além de promover programas de conservação das espécies (reprodução em cativeiro para reintrodução na natureza, por exemplo) e cuidar para que os animais que lá estão tenham boas condições de vida, com recintos, alimentação e cuidados adequados", explica. Ele cita como bons exemplos brasileiros os zoológicos de São Paulo e de Brasília. "É importante frisar que os zoológicos atuais não retiram animais da natureza para exposição, como antigos 'circos dos horrores'. Eles adquirem animais já nascidos em cativeiro ou que, por algum motivo, não podem retornar à natureza (animais que podem ser vítimas de tráfico, sofreram algum tipo de mutilação ou que têm alguma doença).

O que a sociedade precisa aprender sobre zoológico? "A sociedade não entende que, na verdade, ali estão animais de diferentes biomas expostos para que as pessoas apenas os observem por alguns minutos. Os visitantes vêm e vão, e os animais ali permanecem, sem direito à liberdade", dizem os representantes da ONG. Para o grupo, é necessário que exista um trabalho de educação ambiental para que as pessoas, principalmente as crianças, se conscientizem e entendam "o real sofrimento a que os animais em cativeiro são submetidos".

O biólogo Paulo Braga, da UFPE, trabalha pela preservação de jacarés - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
O biólogo Paulo Braga, da UFPE, trabalha pela preservação de jacarés
Imagem: Reprodução/Instagram

O que falta pra isso? Na opinião de Paulo Braga Mascarenhas Júnior, a "visão antiga" da sociedade sobre os zoológicos se explica pela ausência de conhecimento. De acordo com ele, a atuação do zoológico precisa estar associada à conscientização social. O biólogo usa como exemplo o trabalho que realiza pela conservação de jacarés na região Nordeste. Em parceria com um grande zoológico do Recife, ele e o grupo do qual faz parte desenvolvem pesquisas para avaliar aspectos relacionados à ecologia e saúde da população de jacarés em Pernambuco, com capturas sistemáticas dos animais para o monitoramento. "Também realizamos reintrodução de espécies para revigoramento populacional na área natural do parque zoológico, que é protegida e fornece boas condições para a sobrevivência dos espécimes que lá se encontram. Além disso, promovemos atividades educativas para o público geral. A ideia é mostrar a importância desses animais para o meio ambiente"

O que dizem os zoológicos? Que as discussões "saudáveis" sobre a agenda ambiental devem ser incentivadas, particularmente sobre a conservação da biodiversidade, "um dos pilares mestres das missões dos zoológicos no Brasil e em todo o mundo", de acordo com a presidente da Azab (Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil), Mara Cristina Marques. Segundo ela, entretanto, a falta de conhecimento sobre as atividades dos zoológicos e aquários geram ideias equivocadas que reforçam preconceitos, como a crença de que animais que vivem nesses espaços são sempre maltratados.

O que tem sido feito nesses espaços? Os zoológicos e aquários ligados à Azab, afirma Marques, têm desempenhado um papel "muito maior do que simples local de entretenimento". Isso inclui ações de conservação e manejo de diversas espécies nativas e exóticas, principalmente as espécies ameaçadas de extinção, diz ela. Para a presidente da associação, não há risco para os zoológicos. "Acreditamos que a maior ameaça está sobre as espécies em ecossistemas, e devemos concentrar esforços nessa questão. Toda e qualquer iniciativa que siga nessa direção deve ser fomentada."