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Testada em animais, vacina contra covid-19 divide opiniões entre veganos

Natália Eiras

Colaboração para TAB, de Lisboa (Portugal)

17/03/2021 04h00

Em 2017, o Tribunal Superior Inglês obrigou uma mãe vegana a vacinar os filhos de 2 e 4 anos. A mulher alegou, durante o processo, que alimentava os filhos apenas com produtos naturais e que procurava mantê-los "livres de toxinas". "Nenhuma vacina é vegana. Não é natural ser injetado com elementos metálicos, e, como vegana, vai contra as minhas crenças que os meus filhos sejam injetados com algo que cresce em células animais ou que foi testado em animais", argumentou a mãe no tribunal, de acordo com o jornal "The Independent".

Em 2019, um caso semelhante aconteceu no Brasil: um casal de Paulínia, no interior de São Paulo, também foi obrigado pela Justiça a vacinar o filho de 3 anos, que nunca havia sido imunizado. Eles seriam, de acordo com seu testemunho, contra "intervenções invasivas".

O veganismo é um estilo de vida que procura abrir mão de qualquer produto proveniente da exploração animal, o que impacta no consumo (eles não usam, por exemplo, peças de vestuário contendo couro natural) e, consequentemente, na alimentação. Ovo e mel, alimentos que entram no prato de um vegetariano, não são consumidos por veganos.

Porém, para que um medicamento seja colocado no mercado, é obrigatório que ele tenha uma rodada de testes em animais. Incluindo as vacinas, que ganharam mais importância com a pandemia de covid-19 e a possibilidade de que a crise sanitária seja controlada apenas com a imunização em massa da população mundial. Assim, a mãe inglesa estava certa na afirmação de que não há imunizante que seja vegano.

E aí, como essa solução se insere no estilo de vida vegano? O veganismo anda de mãos dadas com o movimento antivacina?

O movimento antivacina nasceu junto com a vacina. Em 1796, o médico rural inglês Edward Jenner criou o primeiro imunizante contra a varíola. "Na época, a gente tinha um contexto em que era uma tecnologia muito nova, a ciência estava em outro momento, a medicina era exercida de uma forma completamente diferente, e, naturalmente, a vacina acabou causando um monte de dúvida e ansiedade", diz Dayane Machado, doutoranda no DPCT (Departamento de Política Científica e Tecnológica) da Unicamp e autora do artigo "Picadas naturais: vendendo desinformação sobre vacinas no YouTube brasileiro" (2020). É que injetar o vírus (mais fraco, vamos lembrar) de uma doença tão letal quanto a varíola parecia coisa de doido. Tanto que, em 1904, a mesma ideia de Jenner causou um caos no Rio de Janeiro, quando aconteceu a Revolta da Vacina: a população foi para a rua contra o plano de vacinação obrigatória criado por Oswaldo Cruz.

Mas os antivacinas atuais são diferentes. Em 1998, o ex-pesquisador e ex-cirurgião britânico Andrew Wakefield publicou um estudo relacionando a vacina tríplice viral, que combate o sarampo, caxumba e rubéola, e o desenvolvimento de autismo. "É quando surge um mito. Esse artigo foi publicado em uma grande vista e virou assunto na imprensa", diz Dayane. "Cientistas de vários países tentaram reproduzir o experimento e não chegaram ao mesmo resultado. Descobriram, depois, que o estudo foi fraudado e que Wakefield tinha o interesse de criar a patente de uma nova vacina antiviral". O médico perdeu o direito de exercer a profissão, mas continuou dizendo que estava, na realidade, sendo perseguido pela indústria farmacêutica. Até hoje, ele vive de livros e palestras contra a vacinação.

Antivacina em terra do Zé Gotinha. Wakefield faz sucesso na Europa e nos EUA, onde as vacinas são pagas e as pessoas não têm vergonha de dizer que são contra elas -- muitas vezes, motivadas pelo fator financeiro. No Brasil, o jogo é um pouco diferente: como temos um calendário de vacinação que é referência mundial e convivemos com a imunização desde muito pequenos, pega mal dizer que você é contra a imunização. "Nós vemos a vacina como um direito nosso. Então, não é socialmente aceito dizer, diretamente, que é contra a imunização. Em vez disso, a pessoa vai levantar dúvidas sobre riscos, dizer que conhece um chá, um medicamento natural que ajuda na imunização, que há alternativas mais seguras?", diz Machado ao TAB.

Não tem como ser vegano e pró-vacinação? A pesquisa de Machado analisou os vídeos de 20 canais do YouTube conhecidos por disseminar informações contra imunizantes. Entre eles, 53% dos conteúdos tinham afirmações de que vacinas contêm ingredientes perigosos, 48% defendiam a liberdade de escolha e 42% promoviam serviços de saúde alternativa. Este último aspecto é o que leva muita gente relacionar o veganismo ao movimento antivacina. "Às vezes, um grupo que não consome nada de origem animal pode ser mais adepto da medicina alternativa", observa a pesquisadora. "Porém, não há evidências de que os veganos são, essencialmente, contra a vacinação."

Contra exploração de animais no que for possível. A entidade inglesa The Vegan Society foi criada em 1944 pelo marceneiro Donald Watson, que cunhou o termo "vegan" ("vegano", em inglês). Em 1949, a Sociedade buscou definir o veganismo como "um modo de vida que procura excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade dos animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito." Francine Jordan, porta-voz da The Vegan Society, afirma que "A definição reconhece que nem sempre conseguimos evitar o uso de animais, o que é particularmente relevante no campo de medicamentos".

Vacinar pode ser estressante para veganos. Por isso, a The Vegan Society defende que é uma escolha pessoal de cada indivíduo se deve ou não se vacinar. "Como todos os medicamentos passam, atualmente, por testes em animais e contêm elementos de origem animal, a decisão em relação a se imunizar ou não pode ser complexa para veganos. Muitos acham que estão comprometendo seus princípios", diz Jordan. Porém, a porta-voz da The Vegan Society nega que o veganismo esteja diretamente relacionado ao movimento antivacina. "Veganos não são necessariamente contra a vacina, mas contra a forma como elas são produzidas. É por isso que muitos tentam evitá-las".

O contexto é importante. Nós não vivemos em um mundo vegano, a nossa herança cultural tem um papel importante. Assim, há áreas do mercado em que a exploração animal está intrínseca em seu modus operandi. "Por exemplo, os testes alternativos que foram criados para evitar testes animais precisam ser validados usando? animais", explica Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira. "É para mudar este tipo de pensamento que existe o movimento vegano, mas não conseguimos aplicar a tudo, o tempo todo." E, no atual momento, tomar vacina faz parte do pacto com a coletividade. "O vegano não quer abandonar a coletividade humana, mas fazer com que a humanidade tenha amplo respeito aos animais".

E é importante estar vivo para defender animais. Assim, por mais que a The Vegan Society diga que é uma escolha pessoal, a entidade encoraja que os veganos tomem a vacina contra a covid-19. "A vacinação está cumprindo um papel fundamental em combater a pandemia e salvar vidas", diz Jordan. "Os veganos devem cuidar da própria saúde e dos outros para que possamos continuar lutando pelo veganismo e outros animais".