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Homem faz gambiarra com cilindro de mergulho em espera por vaga em hospital

Sidnei Petry chega acompanhado da filha Beatriz à emergência do Hospital Universitário de Florianópolis - Caio Cezar/UOL
Sidnei Petry chega acompanhado da filha Beatriz à emergência do Hospital Universitário de Florianópolis
Imagem: Caio Cezar/UOL

Felipe Pereira

Do TAB, em Florianópolis

12/03/2021 04h01

Quando a morte ameaça levar um dos seus, cada pessoa reage à sua maneira. Mesmo no modo alerta máximo, Beatriz Petry, 22, não demonstrava agitação ou desespero. Era improdutivo gastar energia em qualquer iniciativa que não fosse arranjar um leito para o pai.

Sidnei Petry, 46, completava 11 dias com diagnóstico positivo de covid-19 e respirava com menos dificuldade graças a uma gambiarra. Ele conseguiu um cilindro de mergulho com um amigo professor de mergulho e adaptou uma máscara de nebulização na saída de ar. Mas a engenhoca não dava mais conta.

Para servir de analogia, o pulmão do paciente de covid-19 é como um balão de festa de aniversário que, aos poucos, vai ficando com a "borracha" endurecida. Conforme o comprometimento dos tecidos avança, a rigidez aumenta, exigindo mais força para enchê-lo.

Sidnei precisa de ajuda profissional. Enquanto Beatriz batalha por um leito, ele espera no assento do carona de uma Ranger com o cilindro de mergulho depositado entre as pernas. A caminhonete está estacionada no antigo heliponto do HU (Hospital Universitário), em Florianópolis.

Com 40% dos pulmões comprometidos, seria natural Sidnei ser atendido com a urgência dos pacientes que chegam por transporte aéreo. Ocorre que o sistema de saúde de Santa Catarina está em colapso. Ele espera dentro do carro há cinco horas.

Pai e filha sabem que não há plano B. Antes do HU, Sidnei madrugou no Baía Sul, um dos maiores hospitais particulares da cidade. Conseguiu apenas fazer a tomografia, que apontou dano severo no pulmão. O médico avaliou o laudo e avisou que a internação imediata era imperativa, mas terminou a conversa dizendo que ali não havia mais vagas.

Dinheiro já não resolve mais a situação.

Beatriz Petry após deixar o pai, Sidnei Petry, diagnosticado com covid-19 na emergência do Hospital Universitário de Florianópolis - Caio Cezar/UOL - Caio Cezar/UOL
Imagem: Caio Cezar/UOL

Sala improvisada

Beatriz estava confiante no HU porque sabe como o sistema de saúde de Florianópolis funciona. Ela é estudante do último ano de enfermagem da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Como fez estágio no Hospital Universitário, escreveu para ex-colegas e foi informada de que estava em curso mais uma fase do plano de contingência.

Leitos clínicos seriam fechados para criar vagas a pacientes com covid-19. Depois de cinco horas na caminhonete, Sidnei entrou na sala de triagem com os sinais vitais comprometidos: febre, dor no corpo, tremedeira e dificuldade para respirar. Faltava tanto ar que ele não conseguia completar frases curtas.

Pela segunda vez no dia, um médico afirmava que a internação era necessária. Como é voluntária na campanha de vacinação de covid-19, Beatriz já foi imunizada e pôde acompanhar o pai até a sala onde ficaria. Mas a situação que encontrou fez a espinha gelar. Sidnei foi acomodado na sala de medicação da emergência que, mesmo sem ser uma UTI, abrigava quatro pacientes intubados.

"Foi muito chocante, porque aquelas pessoas deveriam estar na UTI. Eu tinha de digerir a cena, mas fiquei bem preocupada e chorei."

O pai também chorou. Os dois perceberam que este é o melhor tratamento que Sidnei pode receber nas atuais circunstâncias. A despedida dentro do HU foi dolorosa.

"Falei: 'Eu te amo pai. Vai dar tudo certo.' Dei o carregador e o celular para ele para mandar notícia."

Mas Beatriz tem consciência de não haver garantia de que vai dar tudo certo. A morte ameaça chegar antes de situações pendentes serem resolvidas. Os pais se separaram quando Beatriz tinha um ano e houve um afastamento.

"A covid pode trazer uma reaproximação, a questão do perdão. Eu perdoar meu pai e ele me perdoar. Porque não foi só ele que errou. Mas pode não dar tempo de consertar".

Beatriz Petry após deixar o pai, Sidnei Petry, diagnosticado com covid-19, na emergência do Hospital Universitário de Florianópolis  - Caio Cezar/UOL - Caio Cezar/UOL
Imagem: Caio Cezar/UOL

Caminhos diferentes

Mas a estudante de enfermagem ressalta que relação distante é diferente de relação conflituosa. Ela conta que as interações entre os dois são agradáveis, o problema é que são poucas. Os laços que construíram são de camaradagem.

A pandemia mostra como o mundo deles é diferente. Desde o começo, Beatriz pedia distanciamento social, uso de máscara e álcool em gel. Eleitor de Jair Bolsonaro, Sidnei falava que era só uma gripezinha. Dono de uma empresa, ia ao escritório todos os dias, viajava a trabalho e saía para jantar com os amigos da maçonaria. Máscara nunca foi item obrigatório.

Influenciada pelos estudos na área da saúde, Beatriz criou ojeriza ao presidente por causa da pregação contra o distanciamento social e as sugestões nada científicas de usar hidroxicloroquina e ivermectina. A covid-19 não era assunto entre eles porque estragava a conversa.

Sidnei soube que estava infectado em 26 de fevereiro e demorou a contar para filha. Antes, procurou um amigo médico que receitou zinco, ivermectina e azitromicina. Ele passou a administrar sua empresa de casa e os sinais de que o tratamento não surtia efeito apareceram. Cada vez que fica nervoso com algo do trabalho, sentia falta de ar.

Chegou num ponto que a mulher, madrasta de Beatriz, proibiu o celular. O cilindro de mergulho quebrou um galho na sexta-feira e no sábado, mas domingo (7) não foi possível reabastecer porque a loja estava fechada. A oxigenação de Sidnei degradou-se e a internação ocorreu na terça-feira (9).

Ele continua na mesma sala do HU onde viu pessoas intubadas. O quadro de saúde piorou nos primeiros dias e ontem era estudado a colocação no respirador, mas nesta sexta-feira houve uma melhora. Ainda assim, Sidnei segue com nome da fila na UTI para o caso de novo avanço do coronavírus.

Chance de um recomeço

A vida não tem control Z. As atitudes tomadas não podem ser apagadas. Mas existe reiniciar. Beatriz torce para que a proximidade da morte crie as condições para conseguir perdoar o pai. Torce também pelo caminho oposto — que Sidnei releve os impropérios que ouviu num acesso de raiva dela.

A covid-19 afastou famílias não apenas fisicamente. Visões antagônicas também estremeceram laços de afeto. Promover a reaproximação entre pai e filha vai na contramão dos efeitos colaterais habituais da pandemia. Seria um desfecho inesperado e quem é religioso pode dizer que é Deus escrevendo certo por linha tortas.

O restabelecimento entre Beatriz e Sidnei tem até cenário para terminar em final feliz. Ela está noiva e planeja casar na praia. Antes de trocar alianças com o marido, pode entrar na cerimônia de braços dados com pai. Um evento, duas uniões.