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Como o home office mudou o papel dos homens na relação com os filhos

Quokkabottles/Unsplash
Imagem: Quokkabottles/Unsplash

Do TAB

14/03/2021 04h01

Há um ano, milhares de pais no mundo pegaram seus laptops, suas cadeiras de trabalho (para os mais privilegiados) e foram trabalhar em casa. O home office que parecia que duraria poucas semanas, depois alguns meses, agora já soma um ano no Brasil, e mudou a proximidade de mães e pais com seus filhos.

A carga recaiu principalmente sobre as mulheres, que além de trabalharem por jornadas ainda mais longas do que presencialmente, continuaram acumulando os serviços de cuidado da casa, com o acréscimo de uma carga extra — a exigência de atenção aos filhos sem aulas presenciais. Os pais, por sua vez, puderam assistir à realidade das mães e decidir: ou aceitaram que elas acumulassem todas essas tarefas, ou começaram a rever sua participação no cuidado.

"A gente não está muito acostumado com essa ideia de pai participativo, até porque os pais mal ficavam em casa, passavam o dia todo fora, trabalhando, e essa condição de criação ficava muito com a mãe", observa o pesquisador Tiago Faria no novo episódio de CAOScast. "Mas acho que isso é uma realidade que está mudando. De acordo com dados da Pew Research, hoje em dia um pai médio gasta quase três vezes mais tempo na semana no cuidado com as crianças e em tarefas domésticas de forma geral do que faziam lá no ano de 1965. Mas, embora a gente tenha um avanço, vale frisar que eles usam de oito a dez horas por semana nessas tarefas, enquanto as mães investem o dobro do tempo nessas atividades" (ouça acima partir de 8:12).

Na pandemia, os homens que são pais estão gastando muito mais horas diárias com trabalho não-remunerado do que aqueles que não têm filhos, segundo o estudo "Pais em casa - Impactos da pandemia na divisão do trabalho de cuidado", que reuniu respostas de famílias heterossexuais (em sua maioria), das classes A e B e que trabalham atualmente em esquema de home office. Entre os pais, 37% disseram gastar três horas ou mais nessas funções (contra 63% das mães), enquanto essa proporção cai para 7% entre os que não têm filhos (contra 20% entre as mulheres que não são mães).

"A pandemia forçou os pais a ficarem mais em casa, conviver de uma forma mais profunda com os filhos, querendo eles ou não. Trabalhando em home office, ou então muita gente perdendo o emprego. Isso pode inclusive abrir espaço para um fenômeno que não é novo mas ainda é muito pequeno, que é o stay at home, dad — aquele pai que fica em casa enquanto a mãe vai trabalhar", avalia o pesquisador (a partir de 9:16).

Mas, na visão dos caóticos, isso não deve virar lugar comum tão já. Michel Alcoforado, antropólogo e colunista de TAB, observa que há toda uma gradação de participação no cuidado da casa e dos filhos. Enquanto alguns estão mais propensos a mudar, principalmente com as experiências da pandemia, outras famílias podem levar gerações para ver um pai participando da casa, para além da tarefa de pagar as contas — isso quando ele é presente. "Estudo comportamento de consumo há dez anos, tendências, e nesse tempo todo venho acompanhando a mudança de comportamento dos homens. Sempre que a gente está olhando para homens, a gente vê como as mudanças são vagarosas. É muito diferente do que acontece com as mulheres", lembra a pesquisadora Rebeca de Moraes (a partir de 10:07).

Nem tudo é pessimismo: CAOScast traz também exemplos positivos, até mesmo de influenciadores que vêm mudando aos poucos a ideia do que é ser pai. Quer entender melhor como essas mudanças vêm acontecendo? Ouça o episódio completo de CAOScast acima.