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'O Brasil vai e tem que renascer das cinzas', diz Martinho da Vila

Martinho da Vila e sua mulher, Cleo, na Floresta da Tijuca, no Rio - Arquivo pessoal
Martinho da Vila e sua mulher, Cleo, na Floresta da Tijuca, no Rio Imagem: Arquivo pessoal

Kamille Viola

Colaboração para o TAB, do Rio

13/03/2021 04h01

Martinho da Vila anda cansado de cantar que a vida vai melhorar. O dono do riso mais fácil do país diz que o Brasil está sem graça. Aquele país alegre e vibrante murchou.

"As diferenças sociais aumentaram, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza — a gente já nem tinha mais, agora voltou... Isso tudo entristece e a gente acaba não amando muito um país. Você gosta de um parente, de um amigo que faz coisas que fazem você vibrar, né? Se ele não age direito, você não vibra", afirma.

Ainda assim, os momentos em que assume um tom mais sério na conversa são sempre seguidos por sua gargalhada. O isolamento social, que ele vem cumprindo à risca há quase um ano, não tem sido fácil: ele tem saudade dos shows e das viagens. "O palco é o melhor lugar de todos. Ali eu me divirto, me emociono, emociono as pessoas também, e fica tudo certo. Quando não tenho isso, é meio chato. Meio, não, bastante chato. Sinto falta do público, de trocar energia e tal. E também do trabalho, a minha função é muito fora de casa. É muito difícil ficar sem viajar. Caramba, não tem para onde ir. 'Onde é que eu vou esta semana?'. Agora não tem essa (risos)", explica.

Martinho da Vila e sua mulher, Cleo Ferreira - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Martinho da Vila e sua mulher, Cleo Ferreira
Imagem: Arquivo pessoal

Isolado com a mulher, Cleo, com quem é casado há quase 28 anos, e com os dois filhos do casal, ele lamenta a distância dos seis filhos mais velhos. Convive bastante bem com Preto e Alegria, mas sente muita falta dos demais. O único show que fez durante a pandemia, uma live em junho, em seu canal do YouTube, contou com a participação deles, mas cada um da sua casa.

As poucas saídas são para o playground do condomínio onde vive, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, e caminhadas na ciclovia. Também fez um passeio pela Floresta da Tijuca com a mulher e passou uns dias no sítio que possui em Duas Barras, na região serrana do Rio, de onde saiu aos 4 anos: quando despontou para a fama, comprou a casa onde nasceu e na qual seus pais tinham sido lavradores. "No duro, eu queria estar por lá o tempo inteiro, porque lá é um lugar mais sossegado, eu posso andar, botar os pés no chão. É muito bom. Mas acontece que eu fico dependendo de gente para me levar. E a maioria das pessoas, mesmo a Cleo, o Preto, eles são urbanos. Aí não funciona muito. Eu queria ficar lá bastante. Eles vão, ficam um dia e no outro querem ir embora (risos)."

Martinho da Vila e sua esposa, Cleo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Longe da rua, escreve

Não que o período de isolamento venha sendo de tédio. O cantor e compositor lançou um álbum em 20 de novembro, no Dia da Consciência Negra, "Rio: só vendo a vista", e preparou um livro, "Contos sensuais e algo mais" — agora aguarda uma editora para lançá-lo. "Gastei a maior parte do tempo do isolamento escrevendo um livro de contos. E terminei. Está prontinho, acho que vai ficar legal", conta o artista, que tem outros 16 livros publicados e é membro da Academia Carioca de Letras.

No último 12 de fevereiro, sexta de carnaval, Martinho da Vila completou 83 anos. Em vez de se preparar para o desfile da Unidos de Vila Isabel, ele contava os dias para receber a primeira dose da vacina contra a covid-19, em plena terça-feira gorda. Ele diz que não teve nenhuma reação e agora se sente "mais tranquilo".

A frustração com o adiamento da festa tem um motivo a mais para ser grande: Martinho é tema do próximo desfile de sua escola do coração. "Desde que estou em Vila Isabel, desde 1967, acho que não fui ao desfile umas duas vezes, porque tive compromisso artístico e viajei. Mas senti muita falta da Avenida." Ele já chegou a dizer, vez ou outra, que não participaria da folia, mas sempre acaba mudando de ideia. "Minha função no carnaval não é só de folião. Ou fui mentor de um enredo que tem de ir para a Avenida, ou fiz um samba-enredo, ou estou envolvido com o tema", analisa.

Tema de enredo

O fato de, pela primeira vez, ser tema do desfile da agremiação deixou o sambista ansioso, mas, com a covid-19, tudo acabou ficando em segundo plano. "Ninguém está exatamente como era. Ninguém pensa como era, raciocina como era, age como era, sente como era. Então, a gente fica muito ligado nesse negócio da pandemia, o carnaval não fica muito na cabeça", conta. "Eu estava sonhando com isso: 'como é que vai ser?'. Sabe? Mas acho até bom ter ficado mais um tempo [sem carnaval], nós temos mais um ano aí. Porque o carnaval ia ser em julho, e em julho ia ser sem graça."

Martinho conta que não sai muito mudado da pandemia, mas não se sente tão relaxado, tão sorridente, tão alegre. "Isso passa para o corpo e passa para o estado de espírito. Mas, no geral, estou conseguindo levar bem, que sorrindo tudo dá certo. Eu canto de qualquer maneira (risos). Estou igual ao Candeia: 'De qualquer maneira, meu amor...' [cantarola o samba de 1971]", poetiza.

Ícone da cultura negra no país, ele admite que se assustou com o crescimento das situações de racismo nos últimos tempos. "Eu até falava: 'os racistas são só aqueles velhos, antigos, mas eles também não se manifestam', porque não pegava bem e tal. Mas eu me enganei, vi que tem um racismo muito grande, aumentando de uma maneira geral. O racismo é uma doença curável, segundo o [Nelson] Mandela. Então eu acredito que, como vamos acabar com a pandemia, vamos acabar com o racismo também. Totalmente, não. Mas em parte."

Martinho da Vila com seus filhos e a mulher, Cleo - Nil Caniné - Nil Caniné
Martinho da Vila com seus filhos e a mulher, Cleo
Imagem: Nil Caniné

Bem-humorado, ele revela que já escutou algumas versões feministas da música "Mulheres" — composta por Toninho Geraes e sucesso na gravação de Martinho, de 1995 —, considerada por uns uma canção machista e por outros um hino gay, por causa de versos como "Procurei / Em todas as mulheres / A felicidade / Mas eu não encontrei / E fiquei na saudade". "Ouvi umas três, eu acho. Achei divertido. É muito bom. Ouvi uma em que ela fala: 'Já tive muitos homens...' (risos). Achei legal", garante ele, que tem acompanhado um pouco as discussões sobre feminismo. "A luta das mulheres é que nem a dos negros: nós temos que estar sempre lutando. Mas está longe. Meu sonho é um dia não haver mais necessidade de ativistas do movimento negro. Se não houver necessidade disso, não houver necessidade de mulheres defensoras das mulheres, vai ser bom. Mas isso é um sonho que está distante ainda, eu acho", analisa.

O baixo-astral generalizado no país não impede que Martinho esteja sempre se envolvendo em algum projeto novo. A gravadora já o convocou a fazer o próximo álbum, e ele vê a possibilidade de começar a desenhar o projeto. "Até agora ainda me pedem disco (risos). Vou começar a planejar isso agora. Depois que eu tomar a segunda dose da vacina, já posso pensar", acredita ele, que nunca se imaginou ainda cantando e fazendo shows aos 83.

"Quando eu tinha por volta de 40 e poucos, você não se imagina com 80 anos, nunca. E, naquele tempo, alguém de 80 anos era mesmo muito velho, sabe? Era diferente. A média etária aumentou muito. Lembro agora de um dia que eu ia numa festa, eu era novo. Aí não fui, porque estava meio gripado. O pessoal foi. E eu: 'Como é que foi lá?'. 'A festa estava boa, tinha um velhinho que deve ter uns 60 anos, mas ele estava tão animado (risos)'. Hoje, com 60 anos é criança, né? É jovem. A terceira idade hoje é depois de 90", defende.

Munido desse espírito jovem, o sambista faz planos para o pós-pandemia. A primeira coisa que pretende fazer é visitar o chão que adotou como seu e que carrega no nome artístico. "Eu vou lá em Vila Isabel, parar num bar, Petisco ou outro, tomar um chope gelado com os amigos, abraçar, beijar as pessoas, ir lá na quadra da Vila, subir o Morro dos Macacos... Viver a vida normal", sonha Martinho, que, apesar de todas as dificuldades, acredita que o Brasil vai renascer das cinzas, como na sua música de 1974, do disco "Canta canta minha gente". "Vai renascer, tem que renascer. Agora nós temos que cantar muito que vamos renascer das cinzas."