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Bate-bolas no Rio fazem Carnaval proibido com 'homenagem' a Crivella e Paes

Bate-bolas desfilam no sábado de carnaval, no Rio, mesmo com a proibição do prefeito, Eduardo Paes - Matias Maxx/UOL
Bate-bolas desfilam no sábado de carnaval, no Rio, mesmo com a proibição do prefeito, Eduardo Paes
Imagem: Matias Maxx/UOL

Matias Maxx

Colaboração para o TAB, do Rio

15/02/2021 09h36

"O Eduardo [Paes, atual prefeito do Rio] dava R$ 70 milhões para o Carnaval porque queria desfilar, ia lá com o chapeuzinho de Zé Pilintra." A frase em tom jocoso foi dita às vésperas da eleição de 2020 pelo ex-prefeito e pastor Marcelo Crivella, durante o debate com o então candidato Eduardo Paes. No mesmo debate, o pastor ainda diria que Paes transformou a cidade na capital do turismo gay, o que despertou a ira de muitos cariocas, que, indignados, foram em massa votar usando chapéu Panamá.

Mesmo todo o amor pelo Carnaval e à Portela não impediram o recém-eleito de fazer a coisa certa e cancelar a festa, anunciando que a Polícia Militar e a Guarda Municipal faria uma "briga de gato e rato, buscando punir, penalizar e atrapalhar". Comboios policiais e monitoramento de redes sociais foram usados pela prefeitura para reprimir festas clandestinas e blocos durante o fim de semana.

O episódio acabou inspirando o tema da turma de bate-bolas "Isolamento 2021", formada por indivíduos de sete turmas diferentes, reunidos exclusivamente para sair no sábado (13). Além da máscara retrô, que lembra um velho barbudo, a turma trouxe duas casacas diferentes: uma mostra Eduardo Paes vestindo as cores da Portela e o famoso chapéu, enquanto a outra trazia Marcelo Crivella caracterizado como um prisioneiro.

De fato, após a Câmara Municipal arquivar duas tentativas de impeachment contra o ex-prefeito, ele foi preso na sua última semana de mandato, em 22 de dezembro de 2020. Após um par de dias detido, foi transferido para prisão domiciliar, com uso de tornozeleira. Naquele mesmo sábado de Carnaval, ironicamente, o ministro do STF Gilmar Mendes revogou a prisão. O ex-prefeito continua sendo investigado.

Bate-bolas desfilam no sábado de carnaval, no Rio, mesmo com a proibição do prefeito, Eduardo Paes - Matias Maxx/UOL - Matias Maxx/UOL
Imagem: Matias Maxx/UOL

A saída de não-Carnaval

Símbolos do Carnaval de periferia do Rio, os bate-bolas são grupos de fantasiados que saem pelas ruas dos bairros, batendo bolas de borracha no chão. A tradição remonta aos portugueses. Fantasiados de palhaço, usando luvas de cetim e perucas coloridas, além de máscaras assustadoras e grotescas, dividem-se em grupos regionalizados. Hoje o funk, o mangá e a cultura pop já estão imersos no som e na inspiração dos bate-bolas.

Embora em menor número, saídas de bate-bola ocorreram em vários bairros das zonas oeste e norte do Rio, como mostram contas de Twitter e Instagram dedicadas à cultura. Em muitas localidades, como Bangu, as saídas percorreram territórios dentro de favelas, portanto protegidos de operações policiais durante a pandemia. Na região de Madureira, Marechal Hermes e Oswaldo Cruz, que normalmente concentram o maior número de turmas, os bate-bolas circulavam tranquilamente pelo bairro e seus coretos estavam lotados. Talvez a estratégia da prefeitura estivesse mais focada nas festas clandestinas e nos pontos turísticos. Quem conhece os bate-bolas sabe que é preciso mais do que gás lacrimogêneo e balas de borracha para pará-los.

A turma Isolamento 2021 começou a se reunir logo após o almoço, num bar ao lado de um posto de gasolina em Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio. Não fosse o ano de 2021 estampado nas casacas, pareceria que estávamos em outro carnavais, uma vez que as únicas máscaras visíveis eram as de bate-bolas.

Mesmo com mais de 17 mil mortes na cidade do Rio de Janeiro, o maior número absoluto para um município no Brasil, a covid-19 não parecia assustar as pessoas, que evitavam o assunto toda vez que eram questionadas.

A preocupação maior era com riscos mais visíveis, como repressão policial e os próprios bate-bolas. "Dentro da nossa turma a gente sabe quem é quem, quem rouba, quem faz besteira. Hoje tem gente que eu nunca vi na vida, não conheço a índole", disse uma mulher, há décadas saindo como bate-bola, que decidiu não sair este ano mas levava o netinho para a bagunça. O pai da criança, um cabeça-de-turma de 25 anos, cancelou a saída de seu grupo em 2021, mas compareceu à concentração.

"Não é chapéu Panamá não, é chapéu de malandro, mesmo", disse à reportagem de TAB um integrante da Isolamento que, questionado quanto ao risco de aglomeração, foi enfático: "durante as eleições pode ter aglomeração, no trem, no ônibus tem aglomeração, por que só no Carnaval não pode? Estamos saindo em protesto. A cultura do bate-bola não recebe nenhum apoio público."

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Imagem: Matias Maxx/UOL

Auto-financiado, normalmente os bate-bolas pagam a partir de R$ 700 por fantasia, aluguel de salão e fogos de artifício. Em 2021, tudo foi mais modesto e o bate-bola custou apenas R$ 100.

A chuva começou no meio da tarde e não parou mais. A saída estava marcada para às 19h, mas pouco antes disso um comboio de carros da PM chegou e estacionou em um posto de gasolina próximo, onde ficou por um par de horas. Depois que os policiais foram embora, devagar os bate-bolas foram se locomovendo para dentro do bairro, até uma casa que serviu de concentração para a saída.

Por volta da meia-noite, finalmente rolou a saída do Isolamento, atravessando o bairro, evitando avenidas e priorizando ruas menores. No caminho são visitados "coretos", festas de rua que acontecem debaixo de lonas com muito funk no talo e zero máscaras que não as de bate-bolas. Durante o caminho, vamos cruzando várias outras turmas, pequenas, grandes, de jovens, mais velhos, turmas só de meninas. Bin Laden, Saddam Hussein e Maradona são alguns dos homenageados avistados.

Mesmo assim, na maior parte do tempo as ruas estavam vazias. As tradicionais cadeiras de praia posicionadas do lado de fora das casas para assistir aos cortejos foram raras. Nessas horas, o povo passava até desanimado, sem bater a bexiga, guardando energia para a chegada aos coretos — sempre de máscara arriada, batendo bola e entoando os cantos da turma.

Isolamento convergiu até um coreto organizado pela turma "Os Tanzas". Ali, centenas de pessoas se reuniram. Por volta das 3h, a saída de turma termina em abraços coletivos. Tradição, espírito de pertencimento e laços familiares são importantes pilares da cultura tão bela quanto marginal.

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Imagem: Matias Maxx/UOL

Apesar do cancelamento do Carnaval, houve aglomerações por toda a cidade. Em meio a festas clandestinas com ingressos na casa dos R$ 500, a aglomeração familiar e ao ar livre dos bate-bolas passa até mais batida, por mais politicamente incorreta e socialmente irresponsável. "Já não tivemos natal, ano-novo, não tivemos verão! Mas o Carnaval é nosso direito!", justifica uma foliã.