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Marx é pop: como millennials popularizam ideias do pensador na internet

Meme do perfil @kmarxrealista, que tem mais de 50 mil seguidores no Twitter - Reprodução/ Twitter
Meme do perfil @kmarxrealista, que tem mais de 50 mil seguidores no Twitter Imagem: Reprodução/ Twitter

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

05/05/2020 04h00

"Trabalhadores do mundo, uni-vos afastados", diz uma das ilustrações em que Marx, autor alemão do século 19, veste máscara cirúrgica cobrindo a barba grisalha, em referência à pandemia do novo coronavírus.

"Senhor, este problema é devido ao sistema capitalista", ironiza uma das variações do meme "Karl Center", que traz o autor de "O Capital" (1867) e "Manifesto Comunista" (1848), vestido de atendente de call center.

"Já pensou em ler 'O Capital' em plena quarentena?", convida a ativista e acadêmica marxista Dimitra Vulcana, 32, produtora do podcast Hora Queer e da página Doutora Drag, que estreou no YouTube no fim de 2018, na época das eleições que levaram Jair Bolsonaro à presidência.

De Montes Claros, no interior de Minas Gerais, Vulcana é drag queen, doutora e docente na área de ciências da saúde. Nos últimos tempos, vem produzindo vídeos relacionados a pandemia e política, trazendo exemplos simples para ilustrar as discussões, como um episódio da série Grey's Anatomy. A ideia, diz, é "traduzir" teorias e argumentos acadêmicos para uma linguagem mais acessível para o público.

Enquanto a pandemia vem escancarando a dimensão capitalista da crise, a alternativa socialista ganha terreno internet afora: millennials -- os jovens nascidos entre os anos 1981 e o final dos anos 1990 -- vêm popularizando a teoria e as ideias de Karl Marx (1818 -1883) com linguagem despojada e fora dos padrões acadêmicos, via podcasts, produções para YouTube, perfis no Instagram e Twitter.

No Brasil, pautas progressistas são discutidas por produtores de podcasts como Fogo no Parquim e Kanal Marx. Os youtubers Debora Baldin, Rita von Hunty e Substantivo Coletivo também tratam do tema. No Twitter, perfis como Jovem Marx e Karl Marx Realista mesclam memes, humor e divulgação das ideias marxistas. Uns militam em partidos políticos de esquerda, como PSOL e PCB; outros, não. Mas todos são jovens ativistas e mobilizam milhares de seguidores nas redes sociais.

Entre eles, bons camaradas, é comum a indicação para campanhas de crowdfunding e financiamento coletivo contínuo — o que é importante para a sustentabilidade financeira, já que muitos são produtores independentes —, assim como o cruzamento entre os projetos. Em maio passado, mês de aniversário do Marx, por exemplo, a editora Boitempo realizou um "mashup marxista", reunindo expoentes como Sabrina Fernandes (Tese Onze), Jones Manoel (Revolushow) e Humberto Matos (Saia da Matrix).

Da Matrix ao Revolushow

As manifestações de junho de 2013 inspiraram influenciadores à esquerda. Foi o caso do Saia da Matrix, de Humberto Matos, 38, licenciado em história e especializado em sociologia e filosofia. Na época, o historiador quis lançar um canal de informação crítica e progressista para fazer frente a outros canais que já se consolidavam à direita -- 2013, vale lembrar, foi o boom de movimentos como o MBL e fábricas de fake news da extrema direita.

"Ao lado de outros camaradas, minha resistência é nessa trincheira, na disputa de hegemonia no discurso político. Nós precisamos disputar posições e oferecer um contraponto crítico à ideologia dominante nesta ágora política que é a internet, para fortalecer a ideia de organização coletiva e a consciência de classe. Essa disputa é, na verdade, um véu sobre a antiga luta de classe", define.

As manifestações de 2013 também inspiraram Samuel Silva Borges, 26, doutorando em sociologia na Universidade de Brasília (UnB) e youtuber no Cifra Oculta, focado na área de criminologia e que atinge uma audiência de 25-34 anos. Na época estudante de graduação, interessado por pacifismo e ativismo não-violento de Gandhi e Martin Luther King, Borges se sensibilizou com a repressão policial às manifestações e paulatinamente virou à esquerda: entrou no movimento estudantil, afastou-se do pacifismo e passou a estudar movimentos críticos das dominações sociais, como feministas e negros.

A ideia de revolução não é nova, mas a roupagem "revolushow" é. Borges e Matos integram uma nova geração de militantes marxistas, dedicados a um trabalho de "formiguinhas socialistas" (expressão de Borges) para "democratizar o debate" (nas palavras de Matos), antes restrito aos círculos acadêmicos e protagonizado por marxistas "encastelados" nas universidades. Irreverência e ironia marcam o estilo de comunicação, crítico, mas "sem perder a ternura", como diz a máxima atribuída ao revolucionário argentino Ernesto Che Guevara.

Em 2016 surgiu o Revolushow, idealizado por Zamiliano Frossard e João Carvalho. Em 2020, a audiência agora identificada também está na faixa dos 25-35 anos.

Frossard, 31, é formado em serviço social e mora em Volta Redonda (RJ). "A militância marxista não é só teórica, é aliada da prática. Um não existe sem o outro. É a famosa frase de Lênin: sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária", diz ao TAB, por Skype, em uma conversa triangulada entre Volta Redonda, São Paulo e Toyohashi (Japão).

Na capital paulista está Larissa Coutinho, 31, outra integrante do Revolushow. Ex-estudante de direito, Coutinho começou a militar aos 14 anos, discutindo disputa de terras, migrou para o movimento feminista e, na casa dos 20, identificou-se como marxista estudando "por fora". Assim como ela, muitos jovens têm buscado conhecimento das teses de Marx no paralelo aos cursos tradicionais, como ciências sociais e história.

Pop não quer dizer mainstream

A fim de tornar a teoria mais acessível a iniciantes ou não-acadêmicos no Revolushow, Frossard lançou a seção Dicionário Marxista para abordar palavras-chaves como "mais-valia", "ideologia" e "imperialismo"; já Coutinho desenvolveu a seção Camaradas, para abordar a biografia de militantes como a ativista palestina Leila Khaled.

Todos os dias, eles conversam com os demais integrantes do programa pelo Telegram -- Diego Miranda e João Carvalho, de Belo Horizonte, e Jones Manoel, de Pernambuco. "Demorou", diz Frossard, referindo-se à apropriação das tecnologias por parte de jovens de esquerda. "Enquanto a direita estava fazendo hangout e live, a gente estava ficando para trás, comendo mato."

"Querendo ou não, a internet atinge muito mais gente. Forma-se uma rede, um contato com o cara X do canal Y, dialogando sobre diferentes ângulos do marxismo, abordando ativismo ambiental, feminismo, racismo. Vai ter debate e discussão, sim, e isso é positivo", diz Coutinho.

"Algoritmos não funcionam a nosso favor", pondera Dimitra Vulcana. "A tendência é interessante, mas é preciso ter perspectiva: vivemos em um sistema capitalista, em que mídia e poder são centralizados na elite. Nós utilizamos essas ferramentas (Instagram, Twitter, YouTube), pois elas são controladas ainda para os interesses da elite e, muitas vezes, favorecem apenas os discursos da direita conservadora", considera.

A tendência é nova, mas enfrenta resistências e está longe de ser mainstream. Não há, como diz o discurso de alas conservadoras e de extrema direita, "marxismo cultural" na imprensa, mercado editorial ou universidades no Brasil: nos cursos de filosofia, por exemplo, Marx está presente em apenas 4% das disciplinas. Historicamente há, na verdade, estigmatização da esquerda -- capaz de atribuir a pecha a instituições inusitadas, como a TV americana Fox News e a revista britânica The Economist, como ironiza a página Lista Atualizada de Comunistas, no Facebook -- e perseguição a intelectuais marxistas no país.

É o que identificou a historiadora Lidiane Soares Rodrigues, professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), que há décadas investiga o assunto academicamente.

Nas fases em que Marx era um autor inteiramente desconhecido, os acadêmicos que se interessavam por ele tinham que enfrentar o desconhecimento dos outros. Imagine o que é você conhecer a obra de um autor, manejar os conceitos dele e seu professor ou orientador de tese, não. Se hoje isso já pode dar confusão, imagine nos anos 1960.
Lidiane Soares Rodrigues, professora Ufscar

No fim da década de 1970, proliferaram núcleos de leitura e foram traduzidos e editados livros do autor alemão aqui, fenômeno fomentado a certo ponto pela ditadura militar (1964 -1985. Rodrigues conta que, na época, "ler Marx' era ser contra a ditadura".

Depois, o marxismo foi gradativamente perdendo influência nas universidades e foi sendo estigmatizado no contexto da Guerra Fria -- o período de polarização geopolítica entre Estados Unidos e URSS, que se estendeu até 1991. "A partir daí, foi se cristalizando um novo perfil de intelectual, que não lê clássicos, mas domina estatística; não lê originais franceses e alemães, mas fala inglês; não reconhece a filosofia como matriz das humanidades, volta-se para ciência política e economia -- o que se chama, simplificando muito, de 'americanização' da vida intelectual", critica a historiadora.

Para Rodrigues, o fenômeno de jovens influenciadores é atual, mas reflete questões antigas. "Como difundir em larga escala um sistema de pensamento complexo? Este problema não é novo. Particularmente, no caso do marxismo, existe pelo menos desde a morte de Marx. E durante a vida do próprio Marx, que vivia a contradição de escrever objetivamente para a leitura de poucos e querer ser lido por muitos."