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Danny Bond e Jurema Fox: artistas LGBTQ+ invadem o brega-funk nordestino

Danny Bond lacrando no brega-funk do Nordeste - Divulgação
Danny Bond lacrando no brega-funk do Nordeste Imagem: Divulgação

Ítalo Rômany

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

29/04/2020 04h00

É de Jacintinho, segunda comunidade mais populosa de Maceió (AL), que a cantora Danny Bond reina - literalmente. Primeira trans negra a cantar brega-funk, em Jacintinho, ela é conhecida como "Rainha". "O brega-funk me deu respeito. É alegria, é um ritmo que você escuta, que faz você se divertir, ser feliz, não é putaria. Onde piso, sou ovacionada. É também visibilidade à minha luta", diz Bond, lembrando que o sucesso nunca foi fácil. "E nunca será, meu amor", reforça.

Danny Bond, que começou fazendo paródias de humor na internet, em 2015, se profissionalizou a partir do lançamento do primeiro álbum, todo dedicado ao brega-funk. Quando subiu no trio elétrico da Pabllo Vittar em São Paulo, durante o carnaval do ano passado — e cantou para um público de mais de um milhão de pessoas — explodiu: a música "Loka de Pinga", em parceria com a drag queen Kika Boom, apareceu nos virais 50 do Spotify Brasil (ranking que aponta as músicas com potencial de virarem hits) em fevereiro de 2019.

A Rainha de Jacintinho está cada vez mais longe de reinar sozinha no palco que mistura a batida do brega com o pancadão do funk carioca. Trans e drag queens como Jurema Fox, Megan The Drag Queen e Byanka Nicole, entre outras, adicionaram irreverência e danças performáticas ao brega-funk nascido no Recife (PE).

"Por ser um ritmo geralmente muito masculinizado, a presença cada vez maior de artistas LGBTQIA+ nesse cenário é uma grande oportunidade de ressignificar essas demarcações de gênero", diz o professor de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Thiago Soares. "Há uma série de avanços, de inserção social desses sujeitos. O brega-funk está, na verdade, dando visibilidade em um ambiente de alta circulação de imagens, de consumo. É uma luta também pelo direito de existir, de ser visível em um espaço onde não era permitido que esses sujeitos aparecessem".

Frevo do "Maloka"

Batizada como "a diva do brega-funk" pela apresentadora Regina Casé, a drag queen Jurema Fox, de Jaboatão dos Guararapes (PE), comemora o reconhecimento que o ritmo nordestino vem alcançando no cenário nacional. Mas ela lembra que nem sempre foi assim. "Fiz participações em programas nacionais, como o Esquenta e o Encontro com Fátima Bernardes (TV Globo), mas na época [2013] não teve uma aceitação boa, porque o movimento do brega-funk era da periferia, de favela, e também por ser uma drag. O preconceito a gente sabe que existe, mas era bem maior, muito complicado levar [o projeto] para frente", conta Fox.

A drag queen Jurema Fox (à direita) no passinho do brega-funk - Divulgação - Divulgação
A drag queen Jurema Fox (à direita) no passinho do brega-funk
Imagem: Divulgação

Ela abandonou os palcos para ser apresentadora em um canal de televisão local de Pernambuco, mas nunca deixou de produzir conteúdo para a internet. Um dos últimos trabalhos, lançado em 2019, deu o que falar por misturar um dos frevos pernambucanos mais tradicionais com o passinho do "maloka" (gíria para maloqueiro, ou menino de periferia). Para completar, Fox regravou "Chuva de Sombrinhas" com a cantora Nena Queiroga, a Rainha do Carnaval do Recife.

A drag queen conta que nem acreditava que Nena Queiroga fosse aceitar. "É um pessoal muito tradicional da cultura pernambucana, que toca nos principais palcos de Pernambuco, levando a cultura do frevo. Além do mais, existe o preconceito com o brega-funk, que não é música, que é putaria. Mas quando fiz a proposta, ela aceitou na hora", lembra Fox.

Apesar das críticas, os elogios foram maiores — e a mistura do frevo com o brega-funk ainda rendeu bons frutos. O grupo de dança Passinho S.A., que participou do clipe, foi parar no Palco do Marco Zero, um dos principais do carnaval do Recife, a convite de Nena, em 2019. "Esses meninos só tiveram uma oportunidade a partir do brega-funk. É um movimento que já começou a ser olhado como cultura e economia local, uma cultura que é da periferia, que é cultura sim", defende Fox.

Rompendo preconceitos

Com três músicas já lançadas, a drag queen recifense Megan quer conquistar seu espaço na cena nacional adicionando pop à fórmula do passinho do brega-funk. O clipe da música Baratinar, single lançado em agosto do ano passado, tem mais de 100 mil visualizações no Youtube. E isso é só o início, promete.

No começo da carreira, em 2011, as críticas que recebeu — chamada de "projeto de bichinha penosa", por exemplo — resultaram num intervalo de seis anos e uma depressão à drag queen. O retorno veio somente em 2017. "Foram bem pesados os comentários. Na época, meu psicológico ficou conturbado demais", relembra Megan. As críticas sobre as performances, a peruca e a maquiagem ficaram para trás, diz. "Eu não dou ibope para coisas que venham a machucar. Eu fico muito feliz pela repercussão, sempre quero fazer algo melhor." Para as drags que estão se jogando na música, o recado dela é um só: "não desistam".

Apesar do sucesso crescente, os nomes do universo LGBTQIA+ que vêm despontando no brega-funk querem mais. "Fui chamada para fazer um show em Aracaju (SE), numa festa sem temática LGBT, e confesso que me deu medo [de ser rejeitada]. Mas fui muito bem recebida. Estamos conquistando nossos espaços", diz Megan.

Quando começou no brega-funk, Jurema Fox conta que era muito difícil uma drag cantar em uma festa cuja temática não fosse LGBT. A instabilidade financeira era uma das principais barreiras para continuar na carreira musical. "Uma drag não tinha espaço em uma boate 'hetero'. Esses guetos se misturavam de forma superficial, não davam visibilidade. Não sei o motivo, mas acontecia", lembra.

A adesão de nomes como Pabllo Vittar ajuda a dar novas dimensões a esse movimento. Lançado no final de janeiro deste ano, o remix da música "Amor de Que" — um dos hits mais executados no Spotify — na batida do brega-funk, em parceria com Thiaguinho MT e JS o Mão de Ouro, conhecida pelo single recente "Tudo ok", teve mais de 500 mil visualizações no YouTube em apenas dois dias.

Passinho como porta de entrada

O professor Thiago Soares reconhece que o passinho dos malokas foi a grande porta de entrada dessas artistas no cenário musical. A coreografia que movimenta os braços e a região da virilha traz a irreverência da periferia para as redes sociais — e também notoriedade na mídia nacional.

Por ter surgido no Nordeste, Soares acredita que isso foi um dos diferenciais para que o brega-funk atingisse o sucesso de hoje, "um tempero diferente". Entretanto, reconhece que é necessário fortalecer o mercado para além do eixo Rio-São Paulo, principalmente para as artistas LGBTQIA+ que ainda não têm visibilidade e apoio financeiro para bancar os videoclipes, por exemplo.

"É preciso ter uma estrutura econômica forte por trás. Esse reconhecimento do brega-funk se dá porque artistas como MC Loma assinam com grandes produtoras [do Sudeste], que injetam capital na carreira e esse capital vai gerar as mais ouvidas no Spotify", explica.

Os números falam por si: a reprodução de músicas do ritmo brega-funk no Spotify mais que dobrou em 2019, com crescimento de 145%, segundo a plataforma. Em novembro de 2019, o aplicativo lançou até um documentário temático intitulado "O Brega-funk Vai Dominar o Mundo", publicado no canal do Spotify Brasil no YouTube.

Em entrevista à BBC News Brasil, a diretora de relacionamento do Spotify com artistas e gravadoras na América Latina, Roberta Pate, disse que o brega-funk se destacou entre os demais ritmos no último ano. "Os artistas passaram a se destacar no ranking das mais tocadas no Brasil, o que é um grande termômetro para nós", disse Pate.