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Por que a moda é uma indústria racista no Brasil e no mundo?

Desfile Reinaldo Lourenço na São Paulo Fashion Week, em 2019 - AgNews
Desfile Reinaldo Lourenço na São Paulo Fashion Week, em 2019 Imagem: AgNews

Luiza Sahd

do TAB

18/06/2020 04h00

Desde o violento assassinato de George Floyd por um policial em Mineápolis, nos EUA, o debate sobre racismo ganhou visibilidade em todas as partes do mundo. No Brasil, além das manifestações que aconteceram nas ruas de diversas capitais — e das discussões levantadas pela opinião pública ao longo das últimas semanas —, um perfil de Instagram reuniu denúncias, sobretudo anônimas, de racismo na indústria da moda.

Durante vários dias, o perfil "Moda Racista" publicou relatos de pessoas negras que sofreram racismo em empresas brasileiras. Entre os denunciados estavam o estilista Reinaldo Lourenço e sua esposa, a também estilista Glória Coelho. O casal moveu uma ação judicial contra a página, e a Justiça deu um prazo de 48 horas para que o Facebook (dono do Instagram) revelasse a identidade do usuário por trás do "Moda Racista" — caso contrário, a rede social teria que pagar uma multa diária de R$ 5.000. Com o anonimato do criador da página vetado nesse cenário, os próprios administradores retiraram a conta do ar, mas a discussão segue mais viva do que nunca.

Um trecho preciso da live feita com Paulo Borges hoje! ✊❤️

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Durante uma live com Paulo Borges, idealizador e diretor criativo da São Paulo Fashion Week, a modelo Natasha Soares ressaltou que a ausência de pessoas negras não acontece apenas nas passarelas, mas também nos bastidores de toda a indústria. Em um país como o Brasil — onde menos da metade da população se identifica como branca — a predominância absoluta de brancos (inclusive nas equipes de produção e em áreas criativas do mercado) é difícil de explicar sem ter o racismo em conta. "É impressionante a capacidade de as pessoas dizerem que se importam com um negro morto — no caso, George Floyd — e que não se importam com um negro vivo", disse Soares no bate-papo.

Em entrevista ao TAB, Natasha Soares observou que os modelos negros aparecem nas capas de revista, mas, segundo ela, é raríssimo encontrar um "criativo" entre as cabeças dessas veículos. "Existe um padrão no mundo da moda que a branquitude segue. Eles ouvem e entendem o que precisa ser feito através da inclusão de corpos racializados, porém, para não abrir mão do seu poder, eles mesmos evitam aplicar o que dizem apoiar", afirma. "Entender a visão do negro não muda o racismo estrutural, mas praticar a inclusão, sim. A ação precisa ser maior do que a fala, porque a dificuldade no Brasil [de colocar a inclusão em prática] é completamente sistêmica. Por isso, os cargos de 'voz' devem ser racializados."

Como tudo começou

Para Kledir Henrique Lopes Salgado, professor do curso Design de Moda do Centro Universitário Senac Santo Amaro, o problema é estrutural — tanto nas origens da moda quanto nas origens do racismo. "A moda se tornou muito importante em nossa sociedade a partir do final da Idade Média e início da Renascença italiana (130 a 1500). Ao longo desse tempo, as importações oriundas do Oriente, a melhoria na produção de tecidos e a riqueza dos comerciantes que queriam 'parecer' com a nobreza gerou um sistema em que a mudança da vestimenta ganhou grande importância", conta ao TAB.

"A moda não é um evento isolado, ou seja: ela é correlata ao espírito de cada tempo. Assim, vale lembrar do racismo cristalizado na cultura dos povos — que, muitas vezes, naturalizam um conjunto de práticas históricas, culturais, institucionais e estéticas, colocando um grupo em posição de vantagem e prejudicando outro", explica.

Salgado acredita que a moda reflete a estrutura social na qual está inserida. Portanto, quanto mais preconceituoso é um povo, menos diversidade será notada nos ícones aspiracionais que a indústria nos vende. "Em uma sociedade racista, infelizmente, a moda também é racista. Afinal de contas, ela é um sistema mercadológico, estético e de poder que reflete as estruturas sociais vigentes", diz o professor.

Na visão de Salgado, o estereótipo de modelos jovens, loiros e magérrimos se alicerça — e se perpetua — em conceitos de imagens preconcebidas, padronizadas e generalizadas. Para ele, a moda utiliza esses padrões sem questionamentos, endossando um sistema de poder no qual só um pequeno grupo de pessoas se enquadra. "Assim, o corpo da moda evidencia o padrão estético do discurso de poder vigente, por mais que haja luta e esclarecimento nos dias atuais. Acredito que, em passos lentos, os padrões vêm sendo questionados. No futuro, o corpo da moda deverá incluir todos os corpos — não somente o magro, branco e jovem. A indústria precisa se desconstruir, mas a desconstrução está lenta", afirma.

Inclusão e o futuro da moda

Por causa das denúncias publicadas na página "Moda Racista", a Riachuelo suspendeu seu contrato com o diretor de publicidade Ralph Choate, dono da agência Big Man. Desde 2009, ele foi responsável por todas as campanhas de TV da marca, além de negociar espaços para propaganda junto às emissoras de televisão. A Choate foram atribuídas frases como "daqui a pouco vou ter que colocar um anão com vitiligo" (sobre a exigência de diversidade nas campanhas da marca), além de veto a "gente com cara de pobre" nas propagandas.

Em conversa com TAB, Paulo Borges, da São Paulo Fashion Week, afirmou que a indústria reflete um histórico de privilégios brancos, preconceitos e abusos de poder, mas disse que considera as denúncias anônimas perigosas. "Não gosto desse tipo de atitude, a gente ainda vive em um Estado Democrático de Direito e tem ferramentas para relatar abusos com mais transparência. Então, para que usar esse instrumento — que considero fascista? Porque é um instrumento de medo, ameaça e ódio: não sabemos quem está falando o que de quem nas denúncias e quais são as atitudes efetivas que podem sair disso", opina. "A gente não está na era da Guerra Fria, [na época de] Mussolini. Não podemos repetir um gesto como o do presidente [Jair Bolsonaro], de montar um gabinete para acusar pessoas sem provas."

Sobre as motivações para que inúmeros profissionais da moda assumam posturas racistas em seus castings e desfiles, Borges acredita que a indústria nunca deixou de ser elitista, mas vê uma piora nos últimos anos. "Uma área da sociedade que acredita na igualdade e na diversidade conquistou muito espaço e acordou uma elite branca, fascista, que tem dominado governos do mundo inteiro. Isso, sem dúvida, atrasa discussões muito importantes. Venho brigando por valores humanos, não por uma questão partidária, mas humanitária. A gente despertou um inimigo poderoso", afirmou. "Fizemos muitas coisas pela inclusão, mas teremos que arregaçar as mangas e fazer muito mais", disse, prometendo que a próxima edição da SPFW — prevista para o mês de novembro — será histórica nesse sentido.

Sobre medidas como exigência de cotas para pessoas não brancas no evento, o diretor criativo frisou que cada estilista participante da SPFW é livre para fazer seu casting — mas que ele acredita "no diálogo e no afeto" como meios para resolver a falta de diversidade do evento.

De acordo com Salgado, do Senac, a iconografia de moda contemporânea precisa romper, de fato, com o sistema de poder excludente que impede a inclusão no ramo. "A moda é estruturalmente racista, gordofóbica, misógina, cisnormativa e eurocêntrica. Há belezas plurais e isso precisa ser mostrado. A falta de representatividade no capital criativo e intelectual da indústria agrava o problema", observa. "O mesmo acontece em todo meio corporativo: nas agências de publicidade, nos bancos, na mídia — onde corpos não brancos não são valorizados." Para ele, só o combate ao racismo estrutural fará com que o futuro da moda seja mais plural.

"Não se pode achar normal que, em 2020, marcas de moda, assessorias de imprensa, lojas, empresas de styling e toda cadeia de moda ache normal ter somente pessoas de pele clara em seus cargos gerenciais e de potencial intelectual, criativo. Para os clientes, vale o exercício de olhar para o lado e exercitar a empatia: ao chegar em uma loja, ver como os vendedores e seguranças tratam negros e brancos. Há vendedores negros no lugar? As campanhas publicitárias e desfiles têm representatividade?", aconselha.