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Ex-ateu, psicólogo comanda centro de terapia para padres pedófilos em Roma

Marco Ermes Luparia, psicólogo religioso que cuida dos padres pedófilos em Roma - Arquivo pessoal
Marco Ermes Luparia, psicólogo religioso que cuida dos padres pedófilos em Roma Imagem: Arquivo pessoal

Lucas Ferraz

Colaboração para o TAB, de Roma

16/06/2020 04h00

Sentado na mesa de seu escritório com uma jaqueta esportiva e um copo de plástico com café entre as mãos, o diácono e psicoterapeuta Marco Ermes Luparia descreve sua rotina como se estivesse numa trincheira.

"Temos uma visão privilegiada, então podemos intervir pontualmente, lendo os sinais dos tempos. Esse é um fenômeno em evolução e o estamos observando em 360 graus, não somente pela visão da Igreja", diz.

O "fenômeno" a que se refere é a pedofilia cometida pelos padres, uma de suas especialidades, ao comandar um dos poucos centros terapêuticos da Itália a tratar de sacerdotes acusados de abusos sexuais.

Luparia, de 70 anos, chefia uma equipe de cinco pessoas na Comunidade do Monte Tabor, que há 25 anos acolhe em Roma padres pedófilos ou que sofrem de distúrbios como alcoolismo, viciados em jogos de azar ou mesmo crise vocacional. O centro é mantido pelo Apostolado Acadêmico Salvatoriano, uma associação pública de fiéis que presta auxílio às famílias, participa da formação de jovens católicos e religiosos.

A comunidade, já visitada pelo papa Francisco, abriga no máximo 12 hóspedes, que se dividem entre cuidar do jardim, da horta, da limpeza ou da preparação da comida, atividades realizadas entre os atendimentos psicológicos e grupos de orações. Os pacientes em sua maioria são italianos, mas muitos — todos são indicados por bispos — vêm de fora, algumas vezes da América Latina (a casa nunca hospedou um brasileiro).

Luparia é casado e tem dois filhos. Ex-ateu convertido ao catolicismo em 1988, ele se consagrou como diácono permanente, o leigo que passa a fazer parte do clero na função de auxiliar o bispo. Um diácono não pode dar extrema-unção nem comungar os fiéis, mas costuma comandar cerimônias.

Formado em psicologia, por ele passaram alguns dos 150 padres condenados na Itália desde o ano 2000 por abuso sexual de menores.

Chaga que ainda agita a cúpula da Igreja Católica, o tema ganhou especial projeção no pontificado de Francisco com o aumento de testemunhos públicos de vítimas e algumas supostas vítimas (de casos ainda em análise). Luparia insiste que a pedofilia é circunscrita e menos frequente do que a mídia sugere.

"Em primeiro lugar, há uma confusão terminológica. Os jornais consideram pedofilia tudo que envolve menores de 18 anos. Não é verdade e os magistrados sabem disso. Um adulto manter relação com uma pessoa de 17 anos é diferente do que com manter uma criança de 13. Ambos são casos para a Justiça, mas as penas são diferentes", explica, fazendo uma distinção entre efebofilia, termo para definir um adulto envolvido com um jovem púbere (acima dos 14 anos), e pedofilia, que envolve crianças e, segundo ele, tem sempre o componente da dominação.

No código penal italiano, a pena para o crime de pedofilia — quando um adulto tem ato sexual com um menor de 14 anos — varia de 5 a 12 anos de prisão, a depender das características do crime e da relação do abusador com a vítima — se pai, familiar, professor ou tutor, por exemplo, a pena pode ser agravada. Esses aspectos também são levados em consideração na Justiça quando o ato sexual é cometido contra um(a) jovem que tenha entre 14 e 16 anos. Na legislação brasileira, que também diferencia os maiores e menores de 14 anos, a pena vai de 8 a 15 anos de prisão.

Crime e pecado

O abuso sexual de menores é considerado um dos mais graves atentados contra a moral cristã, conforme documento do Vaticano de 2001 assinado pelo então papa João Paulo 2º. A pena máxima no direito canônico é a expulsão do sacerdote pedófilo da igreja. Em sete anos de papado, Jorge Mario Bergoglio enfrentou mais escândalos que seus dois antecessores, e precisou também dar mais respostas aos casos em diferentes países. O argentino criou uma Comissão Pontifícia para a Tutela dos Menores em 2014 e, há um ano, realizou em Roma um encontro mundial para discutir o tema dentro da igreja.

Myriam Wijlens, que integra a comissão criada pelo Papa na proteção de menores - Lucas Ferraz/UOL - Lucas Ferraz/UOL
Myriam Wijlens, que integra a comissão criada pelo Papa na proteção de menores
Imagem: Lucas Ferraz/UOL

No início de 2020, o papa aboliu o segredo nos processos de escândalos sexuais envolvendo religiosos, o que vai facilitar o compartilhamento de informações com a Justiça comum — um problema denunciado por muitas vítimas. Professores, padres e estudiosos da academia reconhecem avanços, mas citam uma série de entraves, dentre os quais o acobertamento.

Luparia diz que no universo dos padres com distúrbios de diferentes tipos, cerca de 2% são pedófilos, projeção baseada em sua comunidade. O Vaticano informa não ter dados dessa natureza — ou pelo menos não os divulga oficialmente. O psicoterapeuta defende a publicidade para que se conheça o real tamanho da questão.

A pedofilia é indissociável do que ele chama de imaturidade — psicológica, afetiva, sexual. Ele conta que os sinais de reincidência entre os padres são baixíssimos. Embora não tenha um índice dos "curados", ele compara a patologia ao alcoolismo, dizendo ser necessário atenção "por toda a vida". A maior dificuldade, conta, é considerar um paciente inteiramente curado, o que carece de "muitos e muitos anos". O tratamento — baseado sobretudo em sessões de psicoterapia — é individual, voltado para as necessidades de cada um. O diácono psicólogo costuma enviar relatórios para os superiores do padre a cada seis meses, relatando o seu estado e se houve evolução. Ao final da cura clínica, o que pode levar em média cinco anos, ele obrigatoriamente apresenta um relatório final. O mais importante, ressalta, é manter um acompanhamento com cada um dos sacerdotes, o que pode durar mais tempo do que o próprio tratamento.

Entre os padres acusados de pedofilia, Luparia explica que a reação de muitos é de se rebelar contra o bispo ou a Justiça. "Eles se sentem alvos de uma injustiça e recusam a realidade. Nesses casos, significa que a patologia é forte e está radicada." Mas, ressalta, "os padres de verdade" costumam ser mais suscetíveis ao tratamento do que "os homens da rua", pois a formação religiosa é vista como "aliada da cura".

Muitos padres se hospedam no Monte Tabor enquanto aguardam o julgamento, interrompendo o acompanhamento quando são condenados à prisão. Há pacientes que enfrentam acusações mas não na Justiça, sendo enviados para lá por intervenção dos superiores eclesiais.

Em 20 de março de 2010, o papa Bento 16 pediu perdão por abusos sexuais cometidos por bispos na Irlanda - Angeli/Banco de Dados da Folha - Angeli/Banco de Dados da Folha
Em 20 de março de 2010, o papa Bento 16 pediu perdão por abusos sexuais cometidos por bispos na Irlanda
Imagem: Angeli/Banco de Dados da Folha

"O diagnóstico diz que um ato pedófilo não define uma personalidade pedófila. Vai preso da mesma forma, claro, mas do ponto de vista clínico, trata-se de um ato que precisa ser perpetrado ao longo do tempo. A mesma coisa vale para a homossexualidade. Um ou dois atos não definem um homossexual", afirma.

Formação e cuidado

Uma das grandes preocupações atuais do Vaticano é responder de forma convincente aos inúmeros casos de abuso divulgados nas últimas décadas. Investe-se em formação com o objetivo de estudar ambientes seguros para os menores na Igreja.

A Universidade Gregoriana, em Roma, encerrou neste mês o quinto curso de "Safeguarding", termo em inglês que define a proteção de crianças e adolescentes. Participaram 25 religiosos de diferentes países da América Latina, Ásia, África e Europa.

No encerramento do curso, antes da entrega dos diplomas, a professora holandesa Myriam Wijlens, integrante da comissão criada pelo papa para proteger os menores, discursou aos formandos. Ela pregou a necessidade de "caminhar ao lado e ouvir a dor das vítimas".

"Algumas vezes elas não querem contar suas histórias, principalmente se é para alguém da Igreja, elas têm medo. E o mais triste é que muitas vezes os bispos não estão dispostos ou preparados para ouvi-las", afirmou, ressaltando a diferença entre confidencialidade, segredo e acobertamento.

Marco Ermes Luparia conta que a Igreja ainda é uma das poucas instituições preparadas para enfrentar o tema, já que, segundo ele, na sociedade civil não há nada semelhante ao tratamento promovido internamente com os pedófilos. Ele conta que sua comunidade trabalha para incorporar aprendizagens desse tratamento na formação dos padres, e diz que os jovens sacerdotes precisam de acompanhamento permanente.

Mas Luparia reclama do que classifica de "campanha difamatória contra a Igreja Católica". Um exemplo mencionado é o do cardeal australiano George Pell, indicado pelo papa Francisco para cuidar das finanças do Vaticano e que abandonou o cargo após ser condenado na primeira instância da Justiça da Austrália por abuso sexual de dois menores nos anos 1990.

Seu caso, de grande repercussão internacional, virou um exemplo nas discussões internas. Pell, 78 anos, tinha sido a autoridade mais alta da Igreja condenada por abuso sexual. Em abril passado, contudo, a Corte Suprema da Austrália o absolveu por considerar as provas do processo frágeis. A decisão foi recebida com alívio em Roma, sobretudo por Francisco. Embora nunca tenha dado uma declaração pública sobre o antigo auxiliar, o pontífice faz parte do grupo que acreditava que Pell foi "vítima de uma armação".

Luparia, antes ainda de a decisão que inocentou o cardeal ser conhecida, afirmava que há muita gente na Igreja que "coloca a mão no fogo pela inocência de Pell" e cita um padre italiano, um ex-paciente, condenado e preso por abuso sexual. Ele diz ter certeza de que se trata de uma armação. O diácono psicoterapeuta defende um entendimento para que a Justiça canônica (cuja pena máxima para um pedófilo prevê a expulsão da Igreja) conversa com a Justiça comum para que as dúvidas levantadas por uma instância sejam consideradas por outra.

Ele cita um aspecto classificado como delicado na discussão do tema — a liberdade. E usa como exemplo a pornografia. "Toda pornografia é pedofilia. Principalmente no sentido da imagem. Por exemplo, hoje muitos homens têm nojo das mulheres com cabelos na vagina. No passado, isso era um símbolo do apetite sexual. O que distingue um adulto da criança? Os sinais de maturidade sexual. Hoje as imagens pornográficas conduzem ao apetite pedófilo e anularam todos os aspectos da Evolução. No imaginário, o que muda de uma criança de 12 anos para uma mulher de 30? Os seios? Não, pois hoje uma criança pode tê-los. As crianças veem vídeos pornográficos no telefone e não há mais uma distinção entre elas e um adulto."

Ivanildo Cicero da Silva denunciou pedofilia de padres da Paróquia Sao Mateus Apóstolo contra seus irmãos - L.C.Leite/Folha Imagem - L.C.Leite/Folha Imagem
Ivanildo Cicero da Silva denunciou pedofilia de padres da Paróquia Sao Mateus Apóstolo contra seus irmãos
Imagem: L.C.Leite/Folha Imagem

Luparia ressalta que há muitas questões que não podem ser tratadas abertamente, pois quem as propuser será acusado de intolerante ou moralista. Cita os pais de "comportamentos imaturos" que criam os filhos sem uma educação que marca a passagem do tempo, da infância para a pré-adolescência, desta para a adolescência, e assim por diante. "Muitos episódios de pedofilia estão ligados à imprudência dos pais."

Ele complementa. "Num mundo que defende os transexuais e os homossexuais, um padre que tem uma relação homossexual é mandado para o degredo. Um professor universitário, um jornalista, um juiz, tudo bem, mas um padre é considerado um escândalo. Quando há um caso, ele é tratado como um imoral."

Para Luparia, o celibato não tem importância nessa discussão, já que muitos pais de família estão envolvidos em pedofilia.

Crimes encobertos

O grande problema da Igreja, segundo o espanhol Miguel Hurtado, é tratar os padres pedófilos como pecadores e não como criminosos que precisam responder judicialmente.

Vítima de abuso na Igreja, Hurtado, de 37 anos, transformou-se em ativista e lançou na Espanha o livro autobiográfico "O Manual do Silêncio", em que conta sua história e o universo dos sacerdotes abusadores e seus alvos.

"Esses centros não são bem-sucedidos ao tratar os pedófilos", afirma Hurtado, abusado quando tinha 16 anos. "Em vez de serem denunciados, os padres são enviados para esses lugares, recebem tratamento, são considerados curados pelos superiores e depois voltam a lidar com crianças. Não há castigo e a sociedade continua em risco."

No livro, o espanhol relata a história do religioso americano Gerald Fitzgerald, que fundou em 1947 a ordem Serventes do Paracleto, responsável por gerenciar centros terapêuticos para sacerdotes com problemas de alcoolismo e compulsão sexual. À época, Fitzgerald defendia uma política de tolerância zero contra os abusadores. Mais tarde, nos anos 1960, ele levou sua posição aos bispos dos Estados Unidos, ao Vaticano e ao então papa Paulo 6º, argumentando que o enfoque proposto (de reabilitação) não iria funcionar, considerando os padres pedófilos "dificilmente reabilitáveis".

O pedido foi deixado de lado pela Santa Sé, que manteve máxima discrição sobre o assunto por décadas e viu a abertura de outros centros de reabilitação do gênero em diversos países. Um dos mais reconhecidos é o Saint Luke Institute, em Washington, que recebeu muitos religiosos envolvidos nos escândalos de pedofilia no clero americano a partir dos anos 1990.

Miguel Hurtado participou do encontro convocado pelo papa Francisco em 2019, em Roma, para discutir os abusos dentro da Igreja, mas disse ter saído frustrado. Ele reclama que o pontífice não incorporou as medidas solicitadas desde 2014 pelas Nações Unidas, que pedia a denúncia imediata dos casos à Justiça e a tolerância zero com os abusadores e encobridores. Hurtado condena sobretudo a pena máxima do direito canônico para os pedófilos — a expulsão da vida religiosa.

"A estratégia da Igreja é ignorar o problema, negando-o, minimizando-o ou considerando tudo uma grande teoria da conspiração para acabar com sua imagem. E frequentemente tentam confundir com casos em outras instituições, nas famílias, para evitar falar de si mesmos e explicar os seus abusos", afirma.

Ele está em campanha para ampliar, na sua Espanha natal e em países como o Brasil, o tempo de prescrição do crime de abuso sexual. Ele foi abusado no mosteiro de Montserrat, na Catalunha, há mais de vinte anos. O responsável foi o monge Andreu Soler, já falecido, acusado de abusar de 12 crianças e adolescentes ao longo de 40 anos. Se estivesse vivo, ele não poderia ser responsabilizado, já que pela legislação espanhola o caso de Hurtado prescreveu. Hurtado denunciou também o superior do mosteiro, o abade Josep Maria Soler, a quem acusa de abafar a denúncia feita à época por sua família. O abade Josep Maria continua no cargo.