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'Fazedores de santos' do Vaticano passam décadas investigando candidatos

Estátua do papa João Paulo 2º em Cracóvia, na Polônia; ele foi santificado em 2014 - Maciek Nabrdalik/The New York Times
Estátua do papa João Paulo 2º em Cracóvia, na Polônia; ele foi santificado em 2014 Imagem: Maciek Nabrdalik/The New York Times

Lucas Ferraz

Colaboração para o TAB, de Roma

21/01/2020 04h00

Há um grupo dentro da milenar estrutura da Igreja Católica que se dedica a questões aparentemente inconciliáveis, como ciência e espiritualidade. É gente que caça milagres ao redor do mundo e se submete ao escrutínio de um "advogado do diabo" para testar as virtudes heroicas dos candidatos à santidade.

São os "fazedores" de santos, como são popularmente conhecidos os postuladores que defendem as causas num tribunal do Vaticano e fazem parte de uma área considerada vital para o catolicismo.

A atividade, exercida por religiosos e laicos profissionalizados, virou alvo do processo conduzido internamente pelo papa Francisco para dar transparência a certos setores da burocracia vaticana que se notabilizaram pela ausência de controle.

O postulador Pascual Cebollada - Universidad Pontificia Comillas/Divulgação
O postulador Pascual Cebollada
Imagem: Universidad Pontificia Comillas/Divulgação

"Muitos compararam a atividade com a de um advogado num tribunal", conta a argentina Silvia Correale, de 57 anos, uma advogada radicada em Roma que atua com a postulação há quase três décadas. "Mas num tribunal o advogado trata de um direito subjetivo lesado. Aqui, no tribunal dos santos, não há um direito lesado. Somos uma espécie de advogados do Estado", afirma.

Santos e beatos representam a propagação da mensagem da Igreja para sua base e mobilizam fiéis, assim como também geram dividendos econômicos (em medalhinhas, imagens, livro, turismo religioso e doações). A Igreja sabe por experiência própria que a corrupção floresce onde há dinheiro.

Arquivo da ordem dos jesuítas em Roma guarda processos de canonização iniciados no século 17 - Lucas Ferraz/UOL
Arquivo da ordem dos jesuítas em Roma guarda processos de canonização iniciados no século 17
Imagem: Lucas Ferraz/UOL

Na Cidade do Vaticano decidem-se os processos de beatificação e canonização, a chamada "fase romana", desenvolvida na Congregação da Causa dos Santos, órgão da Santa Sé equivalente a um ministério. Lá acontece a análise e o julgamento da causa com base em questões jurídicas, teológicas, históricas e científicas. O objetivo inicial é comprovar as chamadas "virtudes heroicas" do candidato.

Os processos são custosos e longos, podendo se estender por décadas (o normal) e até séculos. As ações precisam reunir provas orais ou documentadas, a depender do período em que viveu o candidato; passam ainda pelo crivo de médicos no país de origem e também em Roma para atestar que o milagre não tem explicação científica, pela leitura dos teólogos e historiadores, a maioria contratada de fora, e finalmente por bispos e cardeais, que avaliam o "Positio" (nome dado ao livro, semelhante a uma tese de doutorado), numa espécie de banca.

O caminho para virar santo

A primeira fase, diocesana, ocorre na cidade de origem ou onde o candidato morreu. Para ser declarado beato, o que no catolicismo tem um valor local, o venerável precisa de uma "fama de santidade" espontânea, constante e documentada com o passar do tempo, e deve ter um milagre comprovado após sua morte. No caso do santo são necessários dois milagres, o segundo documentado após a beatificação. Testemunhas e testemunhos de fé são ouvidos nessa fase.

Os decretos sobre beatos, santos e também mártires são assinados pelo Santo Padre, que também pode elevar alguém aos altares da Igreja numa canetada, na chamada canonização equipolente. O padre José de Anchieta, fundador da cidade de São Paulo, foi declarado santidade num despacho do papa Francisco, em 2014. Canonizações equipolentes não têm custo.

Alvo de escrutínio do pontificado de Bergoglio, a área passou por mudanças em 2016 e funciona desde então de forma experimental. Os custos mudaram com a criação de uma tabela de referência. O valor médio de um processo de canonização na fase romana é de 55 mil euros - dependerá sempre da complexidade. Se for uma beatificação, a média é de 35 mil euros. No valor não estão inclusos os honorários dos postuladores privados.

Nada comparável aos números conhecidos a partir de 2012. Documentos secretos da Santa Sé vazados no que ficou conhecido como "Vatileaks" mostraram que um processo de beatificação (de um filósofo italiano que viveu no século 19) poderia custar até 750 mil euros. A suspeita de favorecimento também resvalou nos santos.

"É um trabalho que busca a verdade", comenta Correale, que é uma das poucas mulheres no mundo dos postuladores em Roma. Ela já fez mais de uma dezena de beatos e três santos, entre eles a colombiana Laura Montoya, canonizada em 2013, nove anos depois da beatificação.

A argentina se especializou nas candidaturas da América Latina, região que ao lado da Ásia e África tem prioridade na geopolítica católica. Um candidato do velho Terceiro Mundo terá hoje mais chances que um europeu.

Provas, testemunho e fé

Outro postulador laico frequente nas causas latino-americanas, em especial brasileiras, é o italiano Paolo Vilotta, que conduziu o processo da baiana Santa Dulce dos Pobres, considerada a terceira canonização (menos de 20 anos) mais rápida da história, após as de João Paulo 2º e Madre Teresa de Calcutá — antes do século 16, era mais comum canonizar em tempo recorde. Aos 37 anos, Vilotta é um dos mais jovens postuladores (função que ocupa há mais de uma década) e já fez dois santos - o outro era italiano.

"As pessoas falam de beatificação ou canonização, mas o mais importante é quando o 'servo de Deus' [como tecnicamente é chamado o candidato] é reconhecido como venerável, ou seja, quando é declarado portador de virtudes heroicas", afirma, referindo-se ao procedimento que antecede a beatificação.

Em 12 de dezembro de 2019, os 390 postuladores da fase romana credenciados no Vaticano foram recebidos em audiência pelo papa para comemorar os 50 anos da Congregação das Causas dos Santos. Francisco exaltou a "seriedade e perícia no estudo das fontes processuais e documentais" e a importância da objetividade e do rigor nos exames dos candidatos. Para o pontífice, o milagre é o "dedo de Deus": "Sem uma intervenção clara do Senhor, não podemos ir à frente nas causas de canonização".

O cardeal italiano Angelo Becciu, prefeito da Congregação das Causas dos Santos, respondeu por e-mail ao TAB que só pode exercer a atividade de postulador "um católico de provada integridade moral, que tenha um adequado conhecimento da teologia, do direito canônico e da história".

A imensa maioria dos "fazedores" de santos é formada por religiosos, como o padre espanhol Pascual Cebollada, 59 anos, postulador dos jesuítas, considerada a ordem religiosa com o maior número de canonizações - nem mesmo a congregação tem o número total das santidades, estimadas em mais de 10 mil.

Na função desde setembro de 2017, após lecionar espiritualidade por quase 25 anos em Madri, Cebollada cuida atualmente de cerca de 60 causas e diz que ainda está aprendendo a atividade. Garante que estará pronto em "oito ou dez anos".

No seu escritório ao lado do Vaticano, repousam no arquivo processos iniciados no século 17 e de figuras proeminentes do mundo católico como o papa Pio 12, causa que tramita desde 1965 (sete anos depois de sua morte).

"Fabricar um santo não é fácil. É um trabalho que necessita de provas, testemunhos e fé. Nesse caso é necessário provar a devoção, não a fé", conta.

Febre de santidade

A santificação teve seu auge durante o pontificado de João Paulo 2º, entre 1978 e 2005, período em que foram aprovados 482 novos santos e 1.338 novos beatos. O número supera a soma dos quatro séculos anteriores, quando o Vaticano estabeleceu em 1588 a Congregação dos Ritos, responsável naquele tempo pelos processos. Com Bento 16, o número diminuiu: ele fez 45 santos em oito anos, enquanto Francisco, em quase sete anos, já canonizou 53.

Os primeiros santos da igreja eram mártires, como os apóstolos de Jesus Cristo, e ao longo da História a santidade era muitas vezes uma questão mais ligada ao poder e à influência do que ao "dedo de Deus" - muitos são antigos nobres romanos e europeus santificados.

A partir do século 17, novas regras foram incorporadas, uma delas com a criação da figura do "advogado do Diabo", atualmente chamado de "promotor da fé", responsável por estudar as eventuais carências da candidatura.

No passado, um processo se iniciava cinquenta anos após a morte do candidato, enquanto hoje o tempo de espera é de cinco anos, apontado como necessário para comprovar a permanência da devoção. A regra foi desrespeitada recentemente nas canonizações de João Paulo 2º e de Madre Teresa de Calcutá. O Vaticano explica o descompromisso: a veneração aos dois era notória e fora documentada quando eles ainda estavam vivos.

O maior fazedor de santos

Antes os postuladores eram responsáveis por manejar diretamente as contas que recebiam depósitos dos autores das causas (podem ser arquidioceses, paróquias ou congregações). O postulador considerado o mais bem pago de Roma é o italiano Andrea Ambrosi, que não quis ser entrevistado - sua secretária avisou que ele não conversa com jornalistas. Os honorários do meio, como numa banca de advocacia, variam de acordo com a causa e o cliente.

Uma norma da década de 1980 previa o controle desses fundos, mas isso nunca tinha acontecido até o pontificado de Francisco. Agora, novas regras estabeleceram um tarifário para evitar abusos, prestação de contas anual e a devolução do dinheiro restante no final do processo.

"Sem paixão esse trabalho pode se tornar terrivelmente entediante e estressante", afirma a romana Giovanna Brizi, 52 anos, um caso raro de laica que se tornou há quatro anos postuladora da ordem religiosa das Carmelitas.

Ela entrou no metiê por "acaso", impulsionada por um professor de jurisprudência, e ainda aguarda a sua primeira canonização. O que a estimula no ofício, conta, são as viagens pelo mundo para trabalhar nas causas e o permanente contato com pessoas de "variadas culturas". "O fundamental é ser coerente com o trabalho eclesial, transformando-o em testemunho do Evangelho", disse.

O italiano Romano Gambalunga, de 49 anos, padre da ordem dos Carmelitas Descalços, deixou a carreira de professor de teologia para enveredar na função de "fazedor" de santos há sete anos. Ele já aprovou duas canonizações, uma delas inédita, a dos franceses Luigi Martin e Zelia Guérin, que viveram no século 19 e foram o primeiro casal elevado junto à condição de santo.

Ex-presidente paraguaio Horacio Cartes e o postulador Romano Gambalunga, em 2018 - Presidência do Paraguai/Twitter
Ex-presidente paraguaio Horacio Cartes e o postulador Romano Gambalunga, em 2018
Imagem: Presidência do Paraguai/Twitter

Gambalunga afirma que a devoção dos fiéis pelo candidato é "essencial" para se abrir uma causa e reconhece que há uma busca desesperada de dioceses, ordens religiosas e congregações para ter um representante beatificado ou canonizado, o que é um sinal de "prestígio, identidade e orgulho". Um exemplo é o pedido feito em outubro de 2019 pela Arquidiocese de Cracóvia, na Polônia, para abrir um processo de beatificação dos pais de João Paulo 2º, que parece ter poucas chances de prosperar em Roma.

"A igreja tem o dever e a responsabilidade de fazer uma discernimento para não haver uma banalização", completa Gambalunga.
O setor aguarda uma sistematização definitiva do funcionamento da Congregação das Causas dos Santos, que afirma estar sendo bem gerida pelo decreto experimental de Francisco. O objetivo não declarado do Vaticano é encerrar as suspeitas de que quanto mais dinheiro empenhado numa causa, maiores as chances de se fazer um santo.

Silvia Correale diz que é necessário repensar os valores. "Para a América Latina, em razão da diferença das moedas locais para o euro, a tramitação de uma causa pode ser muito cara. Isso preciso ser levado em conta para que todas as dioceses tenham o direito de pleitear um santo."

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